Luka Modric: eleito o melhor meio-campista e melhor jogador da temporada 2017–18

Luka Modric: Melhor jogador da Europa?!

O meia croata conquistou o prêmio, mas seu desempenho ao longo da temporada não convence. Neste artigo analiso detalhadamente a premiação com argumentos que contrariam a decisão da UEFA

Aly Ladislau
Aug 31, 2018 · 9 min read

Nesta quinta-feira ocorreu a premiação dos melhores jogadores da temporada 2017–18 no tradicional evento da UEFA, em que também ocorreu o sorteio dos grupos da edição 2018–19 da UEFA Champions League (UCL).

Antes de sabermos, porém, a UEFA fez o anúncio dos melhores por posição. Keylor Navas (Real Madrid) levou o prêmio de melhor goleiro, seus companheiros Sergio Ramos e Modric levaram o prêmio de melhor defensor e melhor meio-campista, respectivamente. Ronaldo recebeu o troféu de melhor atacante, dando a entender que o prêmio de melhor da temporada iria para seu ex-companheiro Luka Modric, já que o português faltou à cerimônia. Além disso, a atacante Pernille Harder (VFL Wolfsburg) foi considerada a melhor jogadora da temporada europeia.

Após os resultados, fica a sensação de que o prêmio não acertou em alguns nomes, apesar de serem alguns dos melhores atletas da atualidade. Por isso, analiso logo abaixo cada resultado, considerando-se os três finalistas em cada uma delas. Quanto às competições, o peso é invariavelmente maior para Liga dos Campeões e Copa do Mundo, mas desempenhos expressivos nas ligas nacionais e na Liga Europa também contam.

Goleiro

Finalistas: Alisson Becker (Roma/Liverpool), Keylor Navas (Real Madrid) e Gianluigi Buffon (Juventus/PSG)

Escolhido: Keylor Navas

Keylor Navas

Navas conquistou a Liga dos Campeões pela 3ª temporada seguida, sendo fundamental principalmente contra o Bayern de Munique nas semifinais. Ao longo da competição, o costa-riquenho disputou 11 partidas, sofreu 13 gols (46 finalizações sofridas e 33 defesas) e em 2 jogos não foi vazado.

Alisson jogou 12 vezes, levou 19 gols e em 5 partidas garantiu o placar zerado. Das 65 finalizações que sofreu, realizou 46 defesas. Foi fundamental na classificação da Roma sobre o Shaktar Donetsk. Apesar disso, não conquistou o título e caiu nas semifinais da UCL para o Liverpool.

Buffon disputou 9 partidas, sofreu 12 gols e saiu ileso em 2 delas. Foram 35 finalizações contra sua meta e 23 defesas. Foi eliminado nas quartas da UCL para o Real Madrid.

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O prêmio de melhor Goleiro ficou em boas mãos, com o perdão do trocadilho, ao ser entregue a Keylor Navas. Muito contestado no clube, apesar de entregar alto rendimento ao longo das temporadas, foi decisivo na conquista do tricampeonato inédito da Liga dos Campeões com o Real Madrid. Seguro, não comprometeu e ajudou no confronto mais difícil do torneio. Buffon corria por fora.

Alisson, apesar do ótimo desempenho ajudando a Roma a chegar a uma semifinal, cai diante do Liverpool com 7 gols sofridos (falhas de todo o sistema defensivo e não do goleiro brasileiro), o que torna injusta a disputa. Seu prêmio individual foi a transação mais cara de um goleiro na história (no momento de sua contratação), em direção ao Liverpool ( 72,5 milhões), elevando o nível do clube e aumentando as chances de ambos conquistarem a Europa.

Defensor

Finalistas: Sergio Ramos, Raphaël Varane e Marcelo (Real Madrid)

Escolhido: Sergio Ramos

Sergio Ramos

É um pouco difícil analisar o desempenho desses três e decidir quem foi o melhor. Marcelo teve papel fundamental na construção de jogadas ao longo da Liga dos Campeões. Entregou 4 assistências e 3 gols, tornando-se o defensor com maior número de gols (7) na fase de mata-mata da Liga dos Campeões. É o que mais gosto entre eles. Porém, precisamos ser justos. As premiações se tornaram um pouco entediantes nos últimos anos ao privilegiarem atletas de ataque e esse reconhecimento por setor deve ser o momento de redenção dos destruidores de jogadas, e o lateral brasileiro peca nesse fundamento.

Varane e Sergio Ramos formam hoje a melhor dupla de zaga do mundo e seus números são muito parecidos. O francês é impecável em suas ações, errando quase nada. Ao passo que o espanhol produz muito e tem números absolutos superiores, com médias inferiores. Ambos foram decisivos na conquista da décima terceira ‘Orelhuda’, então nesse caso detalhes se tornam critérios de desequilíbrio.

Varane teve atuações irretocáveis no torneio, ao passo que Sergio Ramos apesar do maior volume defensivo e da liderança tem mais erros ao longo da competição, mais faltas cometidas e problemas disciplinares que não se viu no francês. Além disso, Raphaël Varane figura entre os 10 melhores da UEFA, ocupando a oitava posição, a frente de Sergio Ramos (décimo). Uma incoerência não ser eleito o melhor defensor.

Raphaël Varane

Meio-campista

Finalistas: Kevin De Bruyne (Manchester City), Toni Kroos e Luka Modric (Real Madrid)

Escolhido: Luka Modric

De Bruyne é o maestro do time de Pep Guardiola e ajudou a construir o título da Premier League. Na UCL, caiu diante do Liverpool nas quartas, mas antes disso entregou 4 assistências, criou 13 chances de gol e marcou uma vez.

Toni Kroos foi o grande nome do meio-campo madridista na temporada. Com excelente chegada na área, entregou muitos gols e criou perigo para os adversários. Na Liga dos Campeões, deu 813 passes certos (94% de aproveitamento), média de 81,8 passes por jogo. Considerando apenas o campo de ataque, o aproveitamento é de 92%. Ao todo, foram 24 chances de gol criadas. O volume de jogo do meia alemão foi muito alto, ajudando significativamente a construir o 13º título madridista. Defensivamente, obteve bom aproveitamento nos duelos e desarmes.

Já Luka Modric esteve abaixo de seu desempenho habitual. Com volume de jogo menor, o meia croata trocou quase 200 passes a menos que Kroos na Liga dos Campeões, com precisão também inferior: 90%. No campo adversário, a precisão diminui para 89%. Ele criou ao todo 9 chances de gol na UCL. Defensivamente, obteve bom aproveitamento nas interceptações.

São três jogadores dos sonhos para qualquer clube e nesta temporada a diferença entre eles foi pequena, dado que Modric esteve abaixo dos demais, mesmo conquistando mais. Kroos foi mais decisivo e regular, e foi o homem de confiança de Zidane no setor, que sacou muitas vezes o croata.

Por estes motivos, apesar da importância de Modric para a seleção — menos que nossa memória afetiva quer fazer parecer, já que seu rendimento caiu muito no mata-mata, tendo perdido pênalti no segundo tempo da prorrogação contra a Dinamarca, por exemplo) — Toni Kroos merecia ser eleito o melhor meia da temporada, já que o recorte é apenas em cima da Liga dos Campeões. Podemos considerar essa informação um spoiler da minha análise sobre a escolha do melhor jogador.

Toni Kroos

Atacante

Finalistas: Mohamed Salah (Liverpool), Lionel Messi (Barcelona) e Cristiano Ronaldo (Real Madrid/Juventus)

Escolhido: Cristiano Ronaldo

Cristiano Ronaldo

Essa foi a escolha mais fácil, a meu ver. Cristiano Ronaldo foi o melhor atacante. Foi o artilheiro da Liga dos Campeões com 15 gols em 13 jogos, além de 3 assistências, sendo fundamental na conquista do décimo terceiro título madridista. Além disso, quebrou mais um recorde ao marcar em todos os jogos da fase de grupos, feito que se estendeu até o jogo de volta das quartas de final.

Mohamed Salah fez 10 gols em 13 jogos e concedeu 4 assistências. Foi fundamental no caminho para a final da Liga dos Campeões, mas terminou a temporada sem o título. Fez uma temporada excepcional, analisando todas as competições, mas há no Liverpool uma distribuição de responsabilidades muito bem delimitada entre seus companheiros de ataque, o que tira o peso da referência de suas costas. Já Lionel Messi marcou 6 gols e concedeu 2 assistências em 10 jogos. Liderou tecnicamente um Barcelona fragilizado, mas parou nas quartas diante da Roma.

Jogadora da temporada

Finalistas: Pernille Harder (VFL Wolfsburg), Ada Hegerberg e Amandine Henry (Lyon)

Escolhida: Pernille Harder

Pernille Harder

Harder disputou 34 partidas na temporada, marcou 30 gols e concedeu 9 assistências, foi campeã da Bundesliga e da Copa da Alemanha e terminou derrotada na final da UEFA Women’s Champions League. Hegerberg foi impecável: 29 jogos, 47 gols, 2 assistências, campeã da Liga francesa e da Champions League. Henry fez 23 jogos na liga norteamericana, chegou a Europa em outubro, participando de 22 partidas e marcando 8 gols, levantando as mesmas taças que sua companheira de clube.

A escolha pode ser considerada justa, pelo futebol que a atacante Pernille Harder apresentou ao longo da temporada na liga nacional mais difícil do mundo e na Champions League, apesar da derrota na final. Porém, uma temporada com média de 1,6 gols por partida e a conquista do torneio mais desejado da Europa sobre o clube campeão alemão merece ser valorizada e Hegerberg poderia ser a grande vencedora da noite sem qualquer injustiça.

Jogador da temporada

Finalistas: Cristiano Ronaldo (Real Madrid/Juventus), Luka Modric (Real Madrid) e Mohamed Salah (Liverpool

Escolhido: Luka Modric

Luka Modric

Está claro que o feito inédito da Croácia, chegando à final da Copa do Mundo em 2018, pesou na escolha do melhor jogador da temporada. Modric foi o grande maestro de sua seleção e mandou no meio-campo em diversas partidas. Marcou 2 gols e liderou a seleção. Porém seu desempenho caiu muito nos jogos decisivos, incluindo a final, possivelmente pelo desgaste físico após disputar três prorrogações seguidas.

A grande temporada de Modric é fruto de uma memória afetiva falsa. O meia croata é um jogador raro e possui talento inegável, mas não foi nem o melhor do Real Madrid, ficando atrás de nomes como Varane, Kroos e principalmente Cristiano Ronaldo.

A temporada do português não foi a sua melhor, mas nenhum outro jogador entregou mais gols — e gols decisivos! — que ele na média de jogos. Foi artilheiro da Liga dos Campeões, participando diretamente em 18 dos 33 gols madridistas. Devido à idade (33), Ronaldo descansou no começo para estar em boa forma nos momentos mais importantes, e assim foi. Fez ao todo 55 gols em 54 jogos, além de 11 assistências. Salah foi quem chegou mais perto com 50 gols em 58 jogos, além de 16 assistências.

Como o desempenho coletivo, isto é, o resultado conquistado a partir do bom futebol, é importante na escolha dos melhores individualmente, a lista de finalistas poderia contar com Antoine Griezmann no lugar de Modric, por exemplo, sem grande absurdo.

O atacante francês disputou 67 partidas, marcou 37 gols e concedeu 20 assistências. Foi fundamental para o Atlético de Madrid na conquista da UEFA Europa League (6 gols e 4 assistências em 8 jogos, marcando em todas as fases, incluindo 2 gols na final) e eleito o melhor jogador do torneio; e o jogador mais importante ofensivamente da seleção francesa campeã do mundo, apesar de os holofotes estarem voltados a Kylian Mbappé. Fez 4 gols (sendo 3 no mata-mata, um destes na final) e concedeu 3 assistências, nas quartas, semis e final.

Antoine Griezmann

Portanto, se o júri formado por técnicos e jornalistas espalhados pela Europa gostaria de frear a hegemonia de Lionel Messi e Cristiano Ronaldo, elegendo um jogador sem tanta ‘mídia’, poderiam facilmente observar que Griezmann foi este atleta. Participa muito da construção de jogadas de seus times, é decisivo e fez uma temporada gloriosa, conquistando Liga Europa e Copa do Mundo como protagonista. Entretanto, pelos números e pelo espetáculo, Cristiano Ronaldo foi maior e deveria ser eleito o melhor jogador da Europa na temporada 2017–18.

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Aly Ladislau

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24 anos, acadêmico de filosofia e apaixonado pelo futebol bem pensado.

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