Meus problemas com o Facebook

Ou, porque eu saí depois de 10 anos daquele ambiente


Um monte de gente me pergunta, todo santo dia, porque eu saí do facebook em fevereiro de 2015. Há reclamações por todos os lados, ataques incessantes de pessoas que — amo e sinto falta e sentem falta de mim ❤, ó que fofo, mas sempre me perguntando porque eu saí em plena festa bombando.

Um (forte) argumento pra me questionar se baseia no fato deu usar whatsapp, telegram, instagram, twitter e mais umas 12 redes sociais pra interagir na querida Web. “Já que você usa isso tudo, porque sair LOGO do Facebook? Tá todo mundo lá!”

Outra pergunta que me fazem: desde a era Orkut existe toda essa coisa de metadados e vigilância e isso nunca foi impeditivo pra eu subir foto, localização e compartilhar naquela rede boa parte da minha vida (rip 2006–2015). Foram 10 anos, um marido que morreu, filho que nasceu, perrengue que passou, emprego que trocou, cidade, viagens e a porra toda… Mas então porque sair do facebook?

Razão n.1: O Facebook é o Iguatemi das redes sociais

Sabe aquele shopping que você entra e pede desculpas pro segurança porque seu sapato não é um Armani? Me sentia assim no facebook. Tudo era tão limpo e organizado que afetava meu modo de ver as coisas e de me comportar por lá. A gente não é limpo e organizado, mas no Iguatemi todo mundo é cheiroso. Lembro bem um episódio em que umas mulheres compartilharam seu dia-a-dia na penitenciária e as fotos foram apagadas. Dizem que rendeu até punição pra elas, soliltária e tal. Me incomodou, me senti no Iguatemi em momento de rolezinho, quando a polícia começa a retirar “os meliante”. O fato do facebook apagar foi tristíssimo pra mim. Uma rede social digital não pode cortar suas fotos, suas imagens, sua historia de vida sóporque você está atualizando diretamente da cadeia. Ou melhor: pode, né. Se for o Facebook.

Razão n.2: a redução da expressão pessoal

Não é porque eu sou designer que só eu sei enfeitar meu espaço virtual. O Facebook, ao contrário de outras redes, constrange o usuário até ele se adaptar e se expressar só naquele azul e branco inóspito. Formato de topo, foto quadradinha, mesmas cores de link, mesmas cores e fontes pra texto… Não me aguento num espaço tão padronizado. É tudo homogêneo e arrumadinho, você não pode colorir nada, nem tirar nada do lugar. Eu, que estudei em colégio militar e usei muito uniforme na vida, sei bem o valor que tem uma meia colorida por baixo das calças. É estressante pro ser humano ser tolhido no seu modo de se expressar esteticamente. É castrante, tira a criatividade, suga serotonina do cérebro, deprime, padroniza… Transforma você em mais um tijolo na parede do muro. Quando eu saquei que isso me fazia mal, comecei a ficar enjoada ao olhar pra minha página de perfil. É sério!

Não era eu. Era uma Yaso construída pelo Facebook, pelas suas restrições à minha expressão. Um facebook que praticamente me dizia como me expressar e me comportar. E isso, nem quando eu fico muito apaixonada eu deixo alguém fazer comigo, quanto mais uma empreteca que se acha gente.

Razão n.3: o lance da rede fechada

Hoje em dia me dá agonia quando a amigona ou o amigão posta ali no facebook e eu não consigo ler. Os textões, que eu curto tanto ler, todos encarcerados naquele ambiente inóspito por onde não passam as ferramentas de busca que eu poderia usar (a busca do facebook é uma merda!). Se você está no facebook, você está encarcerando suas opiniões no iguatemi, no formato-padrão-limpinho. Saiba e admita.

Imagina uma caverna com uma galera encerrada há séculos lá dentro, onde só entram alguns morcegos pra fazer um cocozinho de vez em quando… Esse é o facebook. Links e mais links do G1 da assassinada pelo vizinho, estuprada por doze homens, espancado pelos pais, queimado, assaltado, baleado, atropelado, injustiçado… Enfim. E ai some-se aos cocozinhos umas opiniões-taxista, da galera da caverna se retroalimentando numa espiral sem fim de escuridão e trevas. Eu diria que o facebook parece uma inquisição virtual, às vezes.

Razão 4: presenças indesejáveis

Por último, a penetração das ferramentas de opressão do estado no Facebook: é prefeitura, rede social de governo, municipio, policia federal… A coisa virou uma bagunça irrestrita com essas presenças desclassificadas! Chegou até a rolar o tal “humaniza redes” pra sanitizar o barraco porque a coisa tava tão séria que o governo resolveu intervir. Atenção pra essa última frase: “o governo resolveu intervir”. Espaços como esse estão longe de serem saudáveis. Minha impressão geral ao sair do Facebook, tirando que não enjôo mais com aquele azul ridículo, é de que estou desobservada. De um certo modo, estou mais livre, mais autêntica. Pode parecer papo de artista (e é!), mas pra mim é uma razão fundamental pra sair de lá e não voltar nunca mais.

Eu vou continuar boicotando severamente espaços de padronização da expressão virtual das pessoas. A Web não é pra isso. Ela é livre, aberta e tem muito pra dar pra humanidade ainda. Usar essa linda plataforma ❤ pra padronizar humanos é de uma crueldade absurda, de uma insensibilidade estúpida e de uma ignorância ímpar na história da Internet.

Amém, belém. Viva o fundo verde-limão com fonte rosa!

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