Afastando medos e ansiedade — Capítulo 34
Depois que Ernesto e seus filhos conversaram, os três foram tomar um sorvete numa lanchonete ao lado do centro. Nice ainda queria conversar com Rosa sobre sua dificuldade em retomar a normalidade.
Ela disparou:
— Nesses últimos dias tenho vivido com muito medo. Toda hora que tento me concentrar nas tarefas de casa, aparecem as imagens dos garotos que me assaltaram. E aí eu fico muito distraída, pensando no que seria se eu não tivesse sobrevivido, se a faca tivesse atingido um ponto mais acima do meu corpo. Se eu morresse, como Ernesto iria se virar com as crianças? Tendo que trabalhar, alimentá-los, levá-los à escola? Ele não iria aguentar. As crianças iam sofrer muito e...
— Nice, querida, você está passando por uma fase difícil. Mas ela é isso, uma fase. Já pensou em procurar uma ajuda profissional? Uma terapia, um psicólogo, ou…
— Mas eu estou procurando: você!
Rosa olhou pra ela com ternura.
— Você ficou chateada né? Foi porque sugeri você ir conversar com outra pessoa, e isso pareceu que estava te rejeitando?
Nice assentiu com a cabeça. Como ele conseguia ler os pensamentos das pessoas?
— Eu confio em você. O senhor me acalma, me faz pensar com clareza.
Rosa ouvia atentamente.
— Nice, se você acha que eu vou te ajudar, então esse já é o primeiro passo de sua cura. E eu não posso recusar uma paciente, não é?
— A gente pode pagar, senhor Rosa.
— Claro, claro. Depois você conversa com o Ronaldo, secretário do centro, para acertar o pagamento. Mas para tratar você, preciso que você venha com mais frequência aqui.
— Mas o Ernesto só pode me trazer aos sábados…
— E você depende dele para trazê-la aqui? Não pode vir sozinha?
—É que desde que aconteceu o assalto, saio de casa sempre acompanhada.
— Até quando, Nice? Ernesto vai precisar voltar ao trabalho. As coisas precisam voltar ao normal.
Rosa percebeu que o corpo de Nice mudou. Ficou tenso, rígido. Os músculos da face haviam contraído. Começou a caminhar pela gramado. Nice o seguiu.
— Vou te ensinar uma coisa pra você usar quando se sentir com medo e paralisada, tá? — ela assentiu com a cabeça.
— Basta você se concentrar no que está fazendo neste exato momento, no aqui e agora. Está pronta? — ela respondeu com mais um aceno de cabeça — então concentre-se no que vou falar.
— Você está aqui no centro de yoga e meditação. Ernesto está com seus filhos ali ao lado. Estamos caminhando nesse lindo dia ensolarado. Volte seus pensamentos para esse momento. Sinta o calor do sol no seu rosto. Deixe a brisa tocar seu rosto. Ouça os pássaros cantando. Ouça as folhas se movendo com o vento. Sinta seus pés pisando na grama. Aos poucos, seu corpo está ficando mais relaxado, seus ombros estão mais leves. Olhe ao redor. Veja a vida, a natureza, a energia que flui e que alimenta. Ouça seu coração bombeando sangue para todo o seu corpo, fazendo sua vida fluir. Repare na sua respiração. Isso é tudo o que basta pra você agora, Nice. Agora continue caminhando com esses pensamentos mais um pouco, procurando cada vez mais relaxar e estar presente nesse momento.

Rosa deixou-a se afastar e foi pra dentro tratar de outros assuntos. Quando Nice voltou, ela era outra. Relaxada, exuberante e sorridente.
— O que você fez comigo?
Rosa gargalhou.
— Sempre que precisar se acalmar, Nice, use essa técnica. Sinta sua respiração. Foque no momento presente. Responda pra si mesma onde está, o que está fazendo, o que está ouvindo, cheirando, tocando. Quando fazemos isso, os pensamentos sobre futuro e passado vão ficando mais fracos.
— Obrigada, senhor Rosa. Obrigada mesmo!
— Você pode vir aqui na terça?
— Não sei se vou conseguir. A licença do Ernesto terminou, ele volta a trabalhar na segunda.
— Você tem alguma pessoa pra te acompanhar com você?
Nice olhou pra cima pensativa.
— A RÊ! Claro! Ela vai adorar conhecer você.
Saiu correndo pra se encontrar com os filhos e o esposo.
— Tchau, senhor Rosa, terça de tarde estarei aqui sem falta!
