Nosso maior crítico — Capítulo 16

Chegou no trabalho entusiasmado com a descoberta. Queria ligar pra Nice. Contar a novidade. Tinha percebido que havia feito um julgamento do garçom rotulando ele de distraído! Mas o que isso importava? No que essa separação entre rótulo e acontecido ajudaria? Precisava pensar sobre isso. Nice já deve saber a resposta, afinal não era isso que ela estava tentando lhe contar no carro na volta do jantar? E você foi super educado e respeitoso né? Só que não!

Você é um imbecil, Ernesto. Burro, ignorante, grosseiro. Nunca vai entender essa história de comunicação, escolhas, suspender julgamentos. Ernesto. Você precisa aceitar que nasceu teimoso e reservado. Isso te levou onde está hoje. Ernesto! Pensa bem. Tem um emprego estável, apartamento quitado, dois filhos, esposa dedicada.

“ — Ernesto!”.

Vê se não coloca tudo a perder querendo mudar quem você é. Pau que nasce torto, morre torto.

— Terra pra Ernesto!

Seu pai vivia lhe dizendo isso. Garanta sua estabilidade com profissionalismo, dedicação e estudo, meu filho. Não fique querendo entender as pessoas, querendo se aproximar demais.

— ERNESTOOOO!!!

Deu um pulo na cadeira. Era Armando o chamando. Estava tão absorto em seus pensamentos que nem reparou que ele estava ali há algum tempo.

— Caraca, rapaz. Não é meio cedo pra começar a beber, não?

— Hã?

— Você tava viajando em outra galáxia!

— Num fode, Armando! O que você quer?

— Esse é o Ernesto que eu conheço! Olha só , o chefe quer ver você. Acho que é sobre aquela reunião que você deu chilique.

Ernesto saiu pisando duro. Já havia esquecido a descoberta que fez no ônibus. Ele não tinha consciência, mas ficou triste porque ele mesmo acreditava que devia manter seu temperamento. Ele aprenderia no futuro que também os diálogos internos são cheios de julgamentos. Em geral são os mais poderosos e fortes.

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