Grosseria — Capítulo 30

Os dias seguintes foram difíceis para Nice. Mesmo com Ernesto em casa por ter tirado alguns dias de licença, ela continuava com medo e sobressaltada. Não fazia nada sozinha. Chorava no banheiro escondida. Sem Ernesto saber, estava usando remédios pra dormir. Não queria sonhar com aquele beco de novo, ou lembrar do rosto do rapaz da faca gritando que ela, a dona, tinha perdido. Tinha mesmo. Sua liberdade e confiança.


Por sua vez, Ernesto fazia tudo por ela. Havia assumido as tarefas da casa pra aliviar um pouco a pressão em Nice e deixá-la descansar a cabeça. Compras, limpeza, cozinha. Pôde perceber o quão era difícil manter a casa funcionando para que ele e as crianças tivessem suas necessidades atendidas.

Lembrou-se da conversa com Rosa no hospital. Pesquisou na internet e achou uma tal de pirâmide das necessidades de Maslow. Na base da pirâmide as necessidades fisiológicas. À medida que essas iam sendo atendidas, o ser humano tinha necessidades mais subjetivas. Segurança, relacionamento, amor. Lembrou-se da letra de Comida, dos Titãs.

A gente não quer só comida
A gente quer comida
Diversão e arte
A gente não quer só comida
A gente quer saída
Para qualquer parte
A gente não quer só comer
A gente quer comer
E quer fazer amor
A gente não quer só comer
A gente quer prazer
Pra aliviar a dor

No topo da pirâmide, realização e propósito. Refletiu um pouco. Era ele, Ernesto, um homem realizado? E que diabos significava essa coisa de propósito?

Ernesto descobriu a Pirâmide das Necessidades de Abraham Maslow

Decidiu conversar com Nice sobre isso. Ela estava no banheiro. Ouviu soluços. Testou a maçaneta.

— Nice? O que houve? Abre a porta, amor…

— Está tudo bem, só um pouquinho nervosa.

— Com o quê, Nice? Vem aqui pro quarto pra gente ficar juntos, conversar.

A porta se abriu. O que se viu foi uma mulher pálida e abatida. Nice nem de longe lembrava aquela mulher firme e decidida que Ernesto amava.

— Amanhã vamos no médico.

— Não. Quero ver o senhor Rosa. Amanhã é sábado, vamos lá no centro.

Ernesto não queria esperar.

— Porque você está nervosa, amor? Eu tô aqui. Ninguém vai invadir essa casa. Falei pro Sinvaldo (era o porteiro do prédio) ficar esperto. Mesmo assim, aquele rapaz nem sabe onde você mora e…

— Vamos mudar de assunto, Ernesto? Não quero falar sobre isso…

— O senhor Rosa disse pra não reprimirmos nossas emoções.

— Não estou reprimindo nada, Ernesto! Só quero ficar sozinha.

— Tá bom, tá bom, não precisa ser grossa.

— Quem está sendo grossa? Você é quem está sendo chato repetindo esse assunto. Pára de me tratar como criança!

Nice bateu a porta do quarto. Ernesto ficou puto. Já se preparava pra invadir o quarto e dizer umas verdades pra Nice, que estava ali por ela, fazendo o que ela deveria estar fazendo, quando viu na tela do monitor a pirâmide. Parou e pensou um pouco.

Quais eram as necessidades de Nice? E o que elas tinham a ver com seus sentimentos? Aliás, o que ela estava sentindo? E o que ele estava fazendo para ajudá-la?

Foi até a porta do quarto. Bateu devagar.

— Nice? Não precisa abrir a porta não. Só me ouve, tá? Olha, não sei o que você está sentindo, mas estou aqui e enquanto você quiser, vou ficar. Fiquei pensando naquela conversa com o seu Rosa sobre necessidades. Talvez você não esteja se reconhecendo, reconhecendo aquela mulher segura e confiante, que tem resposta pra tudo da casa, que os filhos sempre procuram quando estão confusos. E agora você não consegue ver essa Nice. Quer ela de volta. Está com vergonha por isso. Eu sei. Já passei por isso. Quando faço alguma grosseria com você ou meus filhos, depois me sinto um merda. Fico com muita vergonha de mim. Quero me esconder de você e dos…

Nice abriu a porta e pulou nos braços dele chorando.

— Nunca mais vou ser a mesma!

— Não sei, Nice, não sei. Gostaria de dizer que vai voltar sim, mas não sei…

Enquanto a confortava, Ernesto pensava no que acabava de acontecer. Ele havia identificado a necessidade de Nice. Era de reconhecimento, uma das que ficavam na pirâmide do tal de Maslow. E quando essa necessidade não era atendida, as pessoas ficavam… ficavam o quê? Mal?

Era isso! Quando as necessidades não eram atendidas, nos sentíamos mal, com raiva, vergonha, confusos, tristes.

E mais, quando ele se comunicou com Nice através de suas necessidades, ela se aproximou dele. Quando tinha dito que era grossa, ela tinha se afastado! Nossa! Ernesto estava maravilhado com aquela descoberta…


Referência sobre a pirâmide de Maslow (em inglês): https://en.wikipedia.org/wiki/Maslow%27s_hierarchy_of_needs