Lição no hospital, parte 2 — Capítulo 29

No dia seguinte, Nice acordou com a enfermeira administrando as medicações do tratamento. Viu Ernesto e Rosa sentados no sofá do quarto. O senhor tinha vindo terminar a lição.

— As emoções são um mecanismo muito poderoso, Nice. Precisamos aprender a nos sintonizar com elas. Afinal, é nosso corpo se comunicando com a gente.

— Nos últimos séculos, o ser humano priorizou a mente como o símbolo supremo de humanidade, como aquilo que nos distinguia de outros animais.

— Isso foi bom, porque aprendemos muito sobre a mente. Ciências foram criadas, tecnologias foram inventadas. Hoje temos mais saúde, mais conforto, mais tempo.

— Contudo, esse movimento de exploração da mente fez com que menosprezássemos as emoções de nosso corpo.

— Temos uma educação formal para aprimorar nosso intelecto. Desde pequenos até adultos, estudamos milhares de horas para obter conhecimento lógico e racional. Fazemos ensino fundamental, médio, graduação, pós-graduação e especializações depois do pós!

— Em relação ao corpo, fazemos exercícios, frequentamos academias, consultamos especialistas em alimentação, preparo físico, esportes e competições.

— No entanto, nossa inteligência emocional está totalmente negligenciada. Não sabemos o que sentimos. Não sabemos como identificar determinada emoção. É muito comum reprimir e esconder nossas emoções e sentimentos. Temos adultos experientes que não sabem lidar com sua raiva, seu medo, sua tristeza. Usam remédios tarja preta, vermelha, azul, rosa, etc. para dormir, esquecer, acalmar. Alguns desistem e se suicidam.

— À medida que crescemos, a educação formal vai esquecendo e abandonando as emoções. Os pais e familiares reproduzem esse sistema que não se importa com os sentimentos, bloqueando e limitando hábitos que poderiam ajudar. E aquilo que não é praticado, atrofia né.

Ernesto e Nice ouviam atentamente. Rosa estava animado:

— O Marshall Rosenberg, fundador da Comunicação Não Violenta, se empenhava muito em ouvir e identificar os sentimentos que afloravam nos diálogos entre as pessoas. Ele fazia isso porque chegou à conclusão que eles estão intimamente relacionados a coisas mais profundas. Coisas que são comuns a todos, não importa idade, cultura, língua, religião, gênero, opção sexual. Ele chamava essas coisas de necessidades universais.

Marshall Rosenberg (1934–2015)

Ernesto, cético como sempre, questionou:

— O que pode ser comum a um muçulmano no Oriente Médio, um mendigo de rua numa metrópole do primeiro mundo, ou a um rei de alguma tribo no interior da África?

— Que tal se relacionar, amar, fazer sexo, cocô, xixi, comer, beber, se divertir, se sentir protegido, útil, parte de algo maior…

— Ah, é isso? — Ernesto parecia decepcionado.

— Pois é, Ernesto, todo mundo reconhece essas necessidades, mas ninguém se comunica a partir delas. Essa foi a descoberta de Marshall. Ele tinha a visão de um mundo onde as pessoas se comunicariam em uma linguagem universal. E não se trata de inglês, esperanto, matemática, música ou outra coisa. Trata-se de uma linguagem onde todos expressariam suas necessidades mais íntimas. E quando ele começou a usar essa abordagem em seus pacientes e nas práticas de mediação de conflitos ele obteve resultados muito significativos. Hoje a CNV é usada como guia de resolução de conflitos em mais de 65 países.

— Peraí, seu Rosa, não me leve a mal, mas não posso sair por aí falando que quero cagar e mijar a torto e a direito.

Rosa deu uma gargalhada. Depois fez cara de reprimenda.

—É claro que não precisa ser tão mal educado… mas porque não? Todos iam entender, porque todos têm que passar por isso. Muito bem. Quero fazer um desafio pra vocês dois.

Ernesto e Nice se entreolharam.

— Lá vem dever de casa…

— Oba! — Nice se animou. Tudo o que tirasse seu pensamento das últimas 48 horas seria ótimo.

— Quero que procurem identificar qual ou quais necessidades estão presentes nas conversas que tiverem entre vocês, com seus filhos, familiares e colegas de trabalho.

— Outro diário? — Ernesto estava ficando irritado…

— Como assim outro?

Nice e Ernesto tinham esquecido de contar a Rosa sobre o diário de emoções que haviam começado. Rosa adorou a ideia. Depois Rosa comentou:

— Não precisa ser um outro diário não. É só colocar uma nova pergunta para cada entrada do diário: Que necessidades estavam presentes?

— Não entendi muito bem aquela parte…

— Preciso ir embora para o centro. Semana que vem nos encontramos de novo lá. Nice, uma pronta recuperação pra você! Tchau!

— Mas…

Aquele velhinho era danado!, pensou Nice com um sorriso nos lábios.