Manual sobre ser Pai — Capítulo 33
Ernesto não sabia o que dizer para Bruno e Guilherme. Não era um cara muito bom com as palavras. Gostava de agir, botar a mão na massa. Assim que gostava de ser reconhecido. Os olhos de Bruno e Guilherme mirando pra ele pediam uma definição.
— Filhos, papai quer pedir perdão a vocês por ter gritado.
Bruno e Guilherme olhavam para o chão. Apesar de estar de costas, Ernesto podia sentir Rosa o incentivando a falar sobre seus sentimentos e necessidades.
— Sabe, quando o Bruno caiu no chão, eu fiquei com medo dele ter se machucado e eu fiquei zangado com você, Gui. Mas isso não é verdade. O que realmente aconteceu para eu ter ficado zangado foi frustração. Eu não consegui mostrar pra você, Gui, que se empurrasse seu irmão, ele poderia se ferir.
— Mas não foi só frustração. Foi vergonha também. Fiquei com vergonha de que outras pessoas vissem o pai que sou…
Ernesto começou a chorar. Mas ele não tinha terminado:
— Eu não sei o que fazer, meninos, em algumas situações quando estou com vocês. E a minha arrogância e falta de humildade fazem com que eu esconda isso. Igual quando seus amigos soltavam pipa e vocês não quiseram sair pra brincar, lembram? Não quiseram admitir que não sabiam, porque ficaram com vergonha de não saber.
Bruno e Guilherme mudaram suas expressões. Eles haviam entendido.
— Tem uma pipa que está escrito “ser pai”. E o seu pai são sabe empiná-la. E isso deixa ele com muita vergonha. Muita mesmo. Então eu fico com raiva. Mas essa raiva é só minha. Vocês não são responsáveis por isso, tá?
— Tá bom, pai.
Ernesto os abraçou.
— Nunca permitam que alguém coloque a culpa em vocês pelas frustrações, medos e irritações deles, ouviram? Nem mesmo seus pais! Cada um é responsável por seus próprios sentimentos!
— Quer saber? Eu tenho vergonha de admitir que sou um péssimo pai. Que não sei o que fazer na maioria das situações. E não sou só eu. Ninguém ganha um manual sobre ser pai ou mãe. Ninguém faz um curso ou vai pra escola pra isso.

— Mas o meu amor por vocês é muito maior do que qualquer atitude! Muito! E é por isso que vou continuar empinando essa pipa, até que eu consiga fazê-la voar bem alto!
Bruno puxou a manga do pai.
— Pai, eu já consegui cortar uma pipa. Aquela do Paulinho, lembra?
— Lembro sim, meu amor…
— Então eu posso te ensinar, se você quiser…
Ernesto não conseguia conter as lágrimas. Nice e Rosa também estavam emocionados.
— Isso mesmo, Bruno. Preciso que você e seu irmão me ajudem a ser pai. Essa tarefa é muito importante para eu levá-la sozinho. O que acham de combinarmos um sinal para quando a gente não estiver se entendendo?
— Tipo um código, pai? — Guilherme se empolgou.
— Sim, um código! Mas olha… — fez expressão de segredo — ninguém pode saber, senão vai comprometer nossa missão.
— Pode deixar, pai!
— Quando vocês tiverem pensado em um, me avisem.
— Eu também quero conhecer esse código, meninos!
Nice se aproximou abraçando os três.
— O que acham, meninos? Vamos deixar sua mãe participar da missão?
Guilherme botou a mão no queixo, pensativo.
— Pode deixar, pai. Ela é de confiança!
Os quatro gargalharam juntos. Rosa observava e sorria.
