Manual sobre ser Pai — Capítulo 33

Ernesto não sabia o que dizer para Bruno e Guilherme. Não era um cara muito bom com as palavras. Gostava de agir, botar a mão na massa. Assim que gostava de ser reconhecido. Os olhos de Bruno e Guilherme mirando pra ele pediam uma definição.

Daniel Portugal
Jul 20, 2017 · 3 min read

— Filhos, papai quer pedir perdão a vocês por ter gritado.

Bruno e Guilherme olhavam para o chão. Apesar de estar de costas, Ernesto podia sentir Rosa o incentivando a falar sobre seus sentimentos e necessidades.

— Sabe, quando o Bruno caiu no chão, eu fiquei com medo dele ter se machucado e eu fiquei zangado com você, Gui. Mas isso não é verdade. O que realmente aconteceu para eu ter ficado zangado foi frustração. Eu não consegui mostrar pra você, Gui, que se empurrasse seu irmão, ele poderia se ferir.

— Mas não foi só frustração. Foi vergonha também. Fiquei com vergonha de que outras pessoas vissem o pai que sou…

Ernesto começou a chorar. Mas ele não tinha terminado:

— Eu não sei o que fazer, meninos, em algumas situações quando estou com vocês. E a minha arrogância e falta de humildade fazem com que eu esconda isso. Igual quando seus amigos soltavam pipa e vocês não quiseram sair pra brincar, lembram? Não quiseram admitir que não sabiam, porque ficaram com vergonha de não saber.

Bruno e Guilherme mudaram suas expressões. Eles haviam entendido.

— Tem uma pipa que está escrito “ser pai”. E o seu pai são sabe empiná-la. E isso deixa ele com muita vergonha. Muita mesmo. Então eu fico com raiva. Mas essa raiva é só minha. Vocês não são responsáveis por isso, tá?

— Tá bom, pai.

Ernesto os abraçou.

— Nunca permitam que alguém coloque a culpa em vocês pelas frustrações, medos e irritações deles, ouviram? Nem mesmo seus pais! Cada um é responsável por seus próprios sentimentos!

— Quer saber? Eu tenho vergonha de admitir que sou um péssimo pai. Que não sei o que fazer na maioria das situações. E não sou só eu. Ninguém ganha um manual sobre ser pai ou mãe. Ninguém faz um curso ou vai pra escola pra isso.

— Mas o meu amor por vocês é muito maior do que qualquer atitude! Muito! E é por isso que vou continuar empinando essa pipa, até que eu consiga fazê-la voar bem alto!

Bruno puxou a manga do pai.

— Pai, eu já consegui cortar uma pipa. Aquela do Paulinho, lembra?

— Lembro sim, meu amor…

— Então eu posso te ensinar, se você quiser…

Ernesto não conseguia conter as lágrimas. Nice e Rosa também estavam emocionados.

— Isso mesmo, Bruno. Preciso que você e seu irmão me ajudem a ser pai. Essa tarefa é muito importante para eu levá-la sozinho. O que acham de combinarmos um sinal para quando a gente não estiver se entendendo?

— Tipo um código, pai? — Guilherme se empolgou.

— Sim, um código! Mas olha… — fez expressão de segredo — ninguém pode saber, senão vai comprometer nossa missão.

— Pode deixar, pai!

— Quando vocês tiverem pensado em um, me avisem.

— Eu também quero conhecer esse código, meninos!

Nice se aproximou abraçando os três.

— O que acham, meninos? Vamos deixar sua mãe participar da missão?

Guilherme botou a mão no queixo, pensativo.

— Pode deixar, pai. Ela é de confiança!

Os quatro gargalharam juntos. Rosa observava e sorria.

Ernesto da Paz

Ernesto da Paz é um romance sobre o cotidiano de um homem que é apresentado à Comunicação Não Violenta através de um encontro inesperado em um ônibus.

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Daniel Portugal

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Ernesto da Paz

Ernesto da Paz é um romance sobre o cotidiano de um homem que é apresentado à Comunicação Não Violenta através de um encontro inesperado em um ônibus.

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