Medo — Capítulo 25

Nice voltava do mercado para fazer o almoço para as crianças, quando um estranho a abordou.

— Quer que leve suas compras, tia? Cobro baratinho. Só 5 reais.

Não se lembrava de tê-lo visto pelas redondezas.

— Moro ali na comunidade da Salvação, perto da igreja, tia. — Ele leu os pensamentos dela.

Manteve o passo. O garoto a seguiu, insistindo.

— Ô moça, tô com fome. Quero um dinheiro pra comprar comida ali no bar. Me deixa ajudar…

Botou a mão na sacola de compras dela.

— Solta minha bolsa!

O menino se assustou. Outro rapaz mais velho que acompanhava de perto a negociação veio correndo e empurrou Nice. Ela tropeçou em um gelo baiano e bateu com força em um carro estacionado. Ela caiu no chão de costas. Algo quente escorreu em seu rosto. Virou pra cima, tentando se levantar, o lado esquerdo da fronte dolorido. O mais velho apontava uma faca pra ela.

Sentiu medo. Seria medo de morrer?

Lembrou de Bruno, Guilherme e Ernesto. Também de Renata e sua mãe. Pensou no almoço. O que as crianças iam comer sem ela? E quem iria buscá-las? Será que esse rapaz podia avisar Ernesto? Talvez pudesse também levar um recado para eles. Dizer que os amava como nunca amou outra coisa na vida.

Dizer para Bruno que ele seria um grande cientista com sua curiosidade nata. Dizer para Guilherme ter paciência com as outras pessoas, porque elas não conseguiam ser tão compassivas quanto ele. Falar pra sua mãe que era grata por ter sido criada com liberdade e autonomia, sem cobranças demasiadas. Para Renata ela pediria que o rapaz dissesse para acreditar mais nela, em suas raízes e convicções. Só assim ela deslancharia na vida.

E para Ernesto?

O que diria para Ernesto?

E de repente tomou consciência de que o medo que sentia não era só medo de morrer. Era também medo de não conseguir viver plenamente. Viver com amor, fazendo com que as pessoas mais próximas soubessem o quanto ela os admirava, amava, queria bem, e aprendia. Medo de ver a vida passar, sem grandes sobressaltos, sem emoções, de ficar no apartamento com a boca escancarada cheia de dentes, esperando a morte chegar. Até dessa música do Raul Nice se lembrara. Estava ela sorrindo?

— PERDEU, DONA!

O grito a tirou dos seus devaneios. O mais velho estava no controle da situação. Já o garoto estava com sua sacola de compras. Estava tão assustado​ quanto ela.

— Perdeu, dona. Passa carteira e celular.

— Tô sem celular, aqui ó…

Nice abriu a bolsa pra mostrar que estava falando a verdade e tirar a carteira, mas seu movimento foi muito brusco.

Brusco demais.