O diário de emoções — Capítulo 24

— Ele quer que estudemos nossas emoções, Ernesto.

— Pra quê, Nice?

— Não sei, — ela pensou um pouco.

— Talvez porque se as conhecermos melhor, poderemos fazer escolhas melhores nos diálogos.

— Então é isso, um diário de emoções? Pra gente estudá-las?

— Gostei! Se quiser, eu posso anotar aqui nesse caderno do lado da cama.

— Você quem sabe. Eu só vou fornecer os dados em formato áudio. — deu uma risada.

— Tá bom, sabichão. Deixa que eu faço isso. — pegou o caderno e caneta, escreveu a data. — O que eu devo anotar hoje?

— Fiquei puto com o chefe por conta da conversa sobre o relatório.

— Tá — e escreveu no caderno. — Pronto, anotei.

— É isso, acabou. Vamos dormir.

— Peraí, Ernesto. Você mesmo disse que não era o mesmo que ficar puto, do tipo xingar, esbravejar, etc.

— Era algo como uma tristeza, um desânimo, sei lá.

— Quando a gente experimenta isso, fica sem vontade de fazer nada a respeito né.

— Isso mesmo. Você já se sentiu assim, Nice?

— Já. Quando minha irmã fica me dizendo a mesma ladainha sobre estar sem emprego. Às vezes não quero protestar, porque percebo que não vai adiantar nada.

— É completamente inútil.

Ernesto a afagou. Ela se sentiu confortada. Resolveu voltar para o diário.

— O que você fez quando seu chefe questionou seu trabalho?

— Aí é que está: não fiz nada. Não briguei ou discuti com ele. Só queria ir embora, sumir dali.

— Está fazendo agora, amor. Estamos conversando sobre isso. Dividindo. Não sei para você, mas eu me senti mais leve quando contei sobre minha irmã.

Ernesto olhava pra ela, meio sem entender.

— Aquele velho está deixando você zuretinha né, amor? Mas sabe que estou gostando dessa história de diário? É uma oportunidade de estarmos juntos. Antes era tudo mecânico. Eu chegava do trabalho, tomava banho, jantava, trocava algumas palavras sobre o dia, brincava com os meninos, e depois cama. Dia seguinte? Tudo igual. Rá.

— Hmmm, interessante.

Nice arrumou o cabelo para trás e mordeu a caneta, fazendo uma expressão provocativa. Ernesto fisgou a dica.

— Sabe de uma coisa? Você é justamente o tipo de psicóloga que eu queria para ser analisado.

— Ah, é, espertinho? E o que mais?

— Mais isso…

Ernesto abraçou-a.

— Estou me sentindo amada…

— Depois você anota isso. Vem cá!