Volta ao trabalho — capítulo 35
A licença de Ernesto terminou. É segunda-feira, e ele está apenas fisicamente de volta ao trabalho. Sua cabeça está bem longe dali. Está preocupado com Nice e como ela vai lidar com sua primeira experiência sozinha.

O dia prometia. Olhou a agenda e notou a reunião marcada com presença obrigatória de toda a equipe. Ao ler a pauta, viu que precisava correr atrás da revisão do relatório que seu chefe havia pedido.
Enquanto isso, Nice se preparava para uma semana cheia. Daqui a pouco ela iria buscar as crianças na escola pela primeira vez sozinha. E aí não poderia evitar o encontro, o enfrentamento. Ela passaria justo na rua onde tudo aconteceu. Os pensamentos não paravam de voltar para o assalto, para o rosto dos garotos, e para o beco. Sim, aquele beco. Disseram mais tarde no hospital que ela nunca havia posto os pés em qualquer outro lugar, muito mais um beco que não existia por ali. Ficara desacordada assim que foi agredida com a faca. Um beco que não existia fisicamente, pelo menos perto das redondezas, e ela tinha pesquisado na internet para confirmar isso, ah sim, Nice perdera a conta das vezes que usara o computador para procurar fotos e locais que lembrassem aquele beco. Sabia que o lugar significou alguma coisa importante quando estava inconsciente, mas não conseguia se lembrar. Havia naquela lembrança um misto de pavor, falta de fôlego e, surpreendentemente, algo bom. E era isso que a atraía para esse lugar.
— Merda, porque fico lembrando desse maldito beco?
Ernesto estava sentado ao lado do chefe. Quando chegou a sua vez de falar, foi sucinto dizendo que devido aos acontecimentos com sua esposa ficara alheio às suas obrigações, mas que correria atrás do tempo perdido.
— Sou solidário a sua situação, Ernesto, mas preciso que você dê um gás nesse relatório. Quero que me entregue essa tarefa ainda hoje, está bem?
O chefe falou em solidariedade. Porém Ernesto sentiu uma ponta de irritação. Foi justamente aquele “mas” depois do “ser solidário”. A voz do velho apareceu (“o que te incomoda, meu filho?”). Ernesto pensou na barra pela qual o chefe devia estar passando.
— Pressão tá muito grande, né, Alberto.
O chefe, que se chamava Alberto, olhou pra Ernesto. Havia ali uma expressão de surpresa? Não se sabe, mas com certeza alívio.
— Você não sabe, Ernesto. Estão falando inclusive em cortes no orçamento. E quando vem esse papo, aparece em seguida o papo de demissão…
— Pode contar comigo, Alberto. Vou terminar essa revisão e te entrego até o fim do dia. Posso começar já?
Alberto aquiesceu satisfeito.
Ernesto saiu da sala mais leve, mas não soube explicar porque. Mesmo com a notícia ruim das demissões, ele estava animado. Não tomou consciência, mas havia conseguido estabelecer um vínculo com seu chefe ao se colocar em seu lugar. Ernesto tinha sido empático…
