A universidade matou sua motivação

E você só se deu conta disso agora.

Imagem retirada de www.gratisography.com

Imagine esse cenário: Após se dedicar muito, você consegue ingressar numa instituição de ensino superior. Está empolgado, motivado e ansioso por todas as oportunidades que estão por vir. Todas as coisas que você vai viver e aprender na faculdade!

O tempo passa e a dura realidade se apresenta: mais professores ruins que bons, um currículo muitas vezes desconexo do “mundo real”, aulas desinteressantes, entre outros problemas. Quando você se dá conta, percebe que todo mundo está estudando para passar, não mais para aprender.

O que foi que aconteceu com aquela sua motivação?

Vou te dizer o que aconteceu: a universidade matou sua motivação.

Esse homicídio não aconteceu de maneira instantânea, mas sim num processo lento e doloroso. E você só se deu conta disso agora.

O autor Daniel H. Pink , em seu livro Drive: The Surprising Truth About What Motivates Us, defende que todos nós temos um senso de motivação interno que depende de três fatores: Autonomia, Maestria e Propósito. Pouco a pouco, nossas instituições públicas de ensino superior estão minando cada uma dessas dimensões da motivação. Vamos à autópsia?

Autonomia: o desejo de dirigirmos nossas próprias vidas

Se você faz parte da grande maioria dos universitários, não tem muito controle sobre como vai aprender os assuntos do seu curso. Por mais que existam alternativas — livro-texto, vídeo-aulas, estudar sozinho, etc — a maior parte do conteúdo é passado em sala de aula pelo professor na forma de palestras. Nesse modelo, o estudante não assume um papel ativo no processo pedagógico, tornando-o bem menos motivador.

Maestria: o impulso de tornar-se cada vez melhor em algo que importa

Nas universidades brasileiras, muitos dos cursos são estruturados por tempo gasto em sala de aula — por exigência do MEC. Essa disposição torna as expectativas homogêneas, apesar das pessoas aprenderem em ritmos diferentes, e dificulta a progressão diferenciada entre os alunos. Aqueles que vão mais a fundo numa matéria, por exemplo, são formalmente iguais aos demais.

Um currículo baseado em competências, todavia, impulsionaria a busca por maestria na medida que tornaria os cursos voltados ao alcance de habilidades relevantes. Cada aluno poderia, assim, criar seu currículo baseado nas necessidades da sua carreira de interesse. Tal mudança garantiria ainda mais valor ao diploma de curso na medida que seriam conhecidas exatamente quais as competências de um recém-formado. O foco deixaria de ser em esforços para tornar-se em resultados.

Propósito: o anseio de fazer o que fazemos em nome de algo maior do que nós mesmos

A busca individual por propósito tem ficado cada vez mais evidente na nossa sociedade. Normalmente, os primeiros passos dessa eterna busca são dados na faculdade. Mais do que uma profissão, queremos um chamado, uma missão de vida.

E o que é necessário para encontrarmos esse chamado? Experiências.

Na faculdade, as fontes de experiências significativas têm um nome particular: atividades extracurriculares. Estas atividades, tão importantes para a construção social e intelectual dos estudantes, muitas vezes são tidas como efeito colateral.

A própria nomenclatura utilizada para elas exprime o seu estado dentro do que é considerado o currículo formal, embora promovam os momentos de aprendizagem mais significativos da graduação. Enquanto, na teoria, são tidas como extremamente importantes, na prática, falta apoio genuíno. É você que tem que se desdobrar em três para conseguir dar conta de tudo. E é em um desses momentos de correria que você talvez perca a oportunidade de descobrir o seu propósito de vida.

E o que eu posso fazer?

Se os sintomas acima se assemelham à sua instituição num grau um pouco maior que o saudável, bem-vindo ao clube. Diante da dura realidade e da fobia à mudança do sistema, não podemos baixar a cabeça, porém. Lutemos pelas pequenas mudanças do dia-a-dia e que aos poucos consigamos mais autonomia, maestria e propósito nas nossas faculdades.

E enquanto a faculdade não contribui para que você esteja motivado, busque essa motivação mesmo assim. Faça mais atividades, envolva-se em projetos, vá atrás do que te move, mesmo que isso pese nas suas notas.

E quem sabe um dia estaremos motivados por causa da faculdade e não apesar dela.


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