Carta para um Grande Amor que Partiu

Viviane De Freitas
Jun 17 · 4 min read
Foto Pexels

Falar de quem amamos e agora habita outro plano, é também falar de amor. Escrevi essa carta há mais de duas semanas e fiquei enrolando, em dúvida se postaria. É difícil entrar no assunto quando seu tema é a vida, os encontros e as celebrações. No entanto, mesmo no altar sempre há lugar para aqueles que agora estão conosco de outra forma. Neste espaço não seria diferente.

No último ano, mais do que nunca, vi noivas, amigas, primas, pessoas da família dizendo adeus a seus amores. E também me despedi de alguns. Por tudo senti que era momento de deixar um registro do quão importante cada uma delas foi e continua sendo em nossas vidas.

Afinal, o amor não é apenas um sentimento. O amor é também uma pessoa ou várias. É alguém que cruza nosso caminho, reflete o mistério divino e nos ensina através de atitudes, palavras e modos de enxergar a vida. Quando essa pessoa vai, fica impossível ignorar que esse lugar foi um dia preenchido por tanto. Por isso, ritualizar a partida é tão fundamental quanto nascer, ficar conosco por um tempo e construir uma grande história.

Que possamos viver a tristeza, chorar nossos amados para, só então, enxugar o rosto e continuar. Seguir em frente com coração machucado mas, ao mesmo tempo, grato por tudo que vivemos enquanto houve partilha.
Que possamos ver a morte como um despertar.

"Temos vivido um tempo de despedidas, mas nunca poderia imaginar que a nossa estaria aí, incluída. Experimentamos, há mais de um ano, dias complicados como nunca havíamos visto. Ficamos temerosos, apreensivos. Até que, de repente, tudo ficou ainda mais difícil. Juntando-se à ausência de tantas pessoas amadas, você também se foi. E me deixou perdida.

Desde então, não consigo medir o tempo pelo calendário. Às vezes sinto que se passaram 5 minutos, logo após penso que devem ter corrido ao menos 50 anos. Não consigo definir o que essa dor significa e percebo tudo estranho. Lá fora as nuvens devagar, aqui dentro, mesmo quando tenho os olhos secos, só faço chorar. Você partiu e eu me parti, sou uma pessoa dividida por extremos. Nada chega perto da alegria que partilhamos, nada se compara ao vazio que ficou.

Você é meu amor, meu pai, minha mãe, meu irmão, minha avó, meu primo, minha amiga, meu tio, meu vizinho, meu filho. Você é alguém da minha família e é um pedacinho do meu corpo e de todos que deixaram saudades nesse mundo. Porém, por mais que nossa história tenha sido abruptamente interrompida, ela ficou na eternidade. Escrita. E aos poucos, depois de tanto chorar largo, entendo que esse conceito não tem nada de subjetivo. O eterno é concreto e acessível. É tudo aquilo que fazemos e fica na lembrança, é o que transforma a nossa capacidade de amar.

Eterna é ainda a sua vida, que continua a viver em mim. Porque sim, você não está mais aqui, mas o tempo que tivemos juntos continua no meu peito. E aqui o momento é sempre presente.

Você continua sorrindo, nossa família permanece unida, a felicidade é uma estrada calma que leva às viagens que nunca fizemos. Quando penso em tudo isso, sou até capaz de sorrir porque revisito nossos lugares de encontro. Vou àquela tarde ensolarada de festa, pego na tua mão, ouço tuas piadas sem graça, entramos no mar, te abraço e roubo o calor do teu corpo, te beijo e agradeço.

Voo em pensamentos e volto revigorada, disposta a tudo, preparada para viver por nós a vida bonita que ainda me resta. Sabeno que, pode o mundo desabar, o ódio prevalecer, a desesperança aumentar, em nosso lugar de memória tudo estará sempre igual. Por isso sigo te reencontrando quantas vezes for necessário para me manter cheia de fé. E concluo que o mundo é um lugar abençoado porque, por mais esquisito que seja, foi capaz de nos presentear sua existência, de nos permitir conhecer.

Uma lição aprendida com tua partida é que a estrada de cada um tem ponto final diferente. A sua era mais curta, a minha ainda guarda vivências bonitas. E por isso vou continuar, consciente da falta, mas honrando o tempo que me foi dado. Pois agora sei, a melhor forma de amar você e todos que já partiram é parar de desperdiçar cada segundo, é viver o que herdamos de cada passagem.

Te perdeu doeu, mas também ensinou. E se em algum momento me esqueci de dizer o quanto era feliz por ter você ao meu lado, me perdoe. Te amar fez cada segundo valer a pena e, se fosse preciso, passaria mais uma vez pelo tormento do adeus para hoje poder dizer “eu conheci a pessoa mais incrível que já existiu”. Você passou rápido por aqui, mas é por pessoas como você que esse mundo merece existir.

Te amo, vá em paz e saiba que ficarei com tua melhor parte: o amor."

Autoria: Viviane de Freitas • Texto original no insta @escrevaumacartapramim https://www.instagram.com/p/CQBiWZvHxnB/

O Cartas para te Entregar no Altar foi um convite feito na Escreva uma Carta pra mim para ressignificar os acontecimentos de nossa vida e criarmos memórias a partir da Escrita Curativa. Se você quer saber mais, veja todos os posts no meu instagram e o podcast Escrita Curativa & Equilíbrio Mental no Palavras de Amor, Spotify.

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Criamos cerimônias poéticas e românticas para casamentos autênticos. São cerimônias personalizadas para casais que acreditam no amor e no poder das palavras.

Viviane De Freitas

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Viviane de Freitas é uma pessoa que escreve para sobreviver. Poeta, jornalista, tradutora do amor na @escrevaumacartapramim e autora de Poesia de Geladeira.

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