Porrada

Eu entrei pra luta pequeno, em uma academia de jiu jitsu no Rio. O kimono sobrava — e as esperanças do meu primo, faixa preta, também. Eu ia ser o próximo. Minha carreira, porém, foi logo interrompida pela minha aflição ao contato físico, e só retornou muitos anos mais tarde.

Pisei de novo no tatame já mais velho. Fiz minha primeira luta foi aos 21, com 3 meses de treino. Uma experiência singular. Não só por ter apanhado. É que lá é você e você. Ok, até tem seu adversário — e o relógio. Mas a luta é dentro de si.

Nenhuma experiência foi tão única quanto lutar. Nenhuma campanha, nenhum show. Nada nunca exigiu tanto de mim. Controle emocional que vai desde beber água enquanto minha namorada toma sorvete na semana da luta.

É impressionante o quanto a gente fica sozinho quando luta. Quer dizer, mais sozinho. Porque no final das contas a gente é meio sozinho mesmo.

Outro dia li um texto que falava de como algoritmo das redes sociais nos fecha no nosso mundinho. Ele entende cada vez melhor suas preferências e entrega só o que você gosta. Uma chuva de si mesmo. E fica cada vez mais difícil sair da sua ilha de opiniões, gostos e preferências para ver o que tem ao redor.

Percebi no choque que tive ao ir entregar uma doação de leite em uma comunidade. Parei embaixo da única árvore do terreno e ao abrir a mala do carro, uma criança viu e anunciou para as outras: “É leite!!!”, antecipando uma correria para acompanhar o desembarque da iguaria, que nunca faltou na geladeira da minha casa.

Eram de todas as idades, algumas menores do que eu quando abandonei os dojos cariocas. Foi um golpe duro. Para esse eu não tinha defesa. Claro. Não faz parte do meu mundinho. Da realidade em que eu corro atrás do próprio rabo — e vejo só as próprias pegadas.

Eu tive a trajetória que quis por ter escolhido não crescer lutando. Mas não dá mais para não pensar em quem não tem essa escolha.

E é impressionante o quanto a gente fica sozinho quando luta.

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