Limitações(?)

De cada vez que viajo, a ideia, já muito batida, que expressa que a linguagem nos condiciona, para o bem e para o mal, ganha força pelas evidências.

Sentado numa esplanada de um café que dizem estar na moda, oiço línguas diferentes da minha e que não pertencem a esta cidade. Vejo caras cujas expressões e jeitos fazem coincidir a fisionomia com a geografia. “Geografias loiras, de olhos e peles claras”, penso eu.

Vejo a confiança dos nativos, empolada pelo idioma local, juntar-se a uma elegância natural que se veicula pelo próprio linguajar e pela música que este país canta quando fala. “Ei-lo”, diz uma das senhoras sentada na mesa colada à minha quando aparece o servente, depois de um tempo de espera que se manteve dentro das fronteiras do que é adequado. O atendimento não foi demasiado rápido, a ponto de as deixar perto de pensar que os gerentes as queriam ver rapidamente pelas costas, nem lento ao ponto de causar irritação ou indignação. “Ei-lo”, dissera ela, sem medo que ele considerasse um abuso aquela introdução à curta troca de petições e assentimentos. Ele não reagiu como se tivesse sentido abusado. Aumentou, porventura, a sua confiança, claramente aparente, nunca diminuída à vista de outros, que o facto do seu berço ter sido colocado nesta intersecção de longitude e latitude lhe deu.

No meu país, sem conhecer a pessoa de lado algum, nunca me atreveria a anunciar alguém dessa forma: “ei-lo” ou “ei-la”. Nunca teria essa audácia, nunca me libertaria do medo da interpretação alheia. Nunca sem, pelo menos, três copos de uma qualquer bebida alcoólica. Caso dominasse o idioma, aqui imagino-me a poder dizê-lo a alguém desconhecido- “ei-lo” ou “ei-la” — sem me sentir inibido, diminuído presunçoso ou inautêntico.

Mas aqui, nesta geografia, nesta cultura, esse anúncio é tão natural como gratificante, tanto para o anunciante como para o anunciado. Aqui, pela semelhança, o clima não serve para inferir sobre as diferenças entre os povos. Aqui só a história e a cultura poderiam ser responsáveis por essa diferença. Acrescenta-se a linguagem que, ao ter a capacidade de atravessar, carregar e mudar a história e a cultura, será uma das principais maior responsáveis.

A linguagem carrega consigo formas de ser, o que prova tanto a nossa propensão para a rigidez como, em simultâneo, a possibilidade de nos tornarmos flexíveis, mutáveis.

Salve!