Destrave sua escrita com ajuda da Louca, da Arquiteta, da Carpinteira e da Juíza

Emidia Felipe
May 10, 2020 · 5 min read

Você quer escrever e escalar seu conhecimento por meio da escrita, já escolheu sobre o que escrever e fez o que precisava antes de começar o texto. Chegou a hora de tirar as ideias da cabeça e começar a digitar, mas… travou tudo! Isso é supercomum, mesmo com profissionais, por isso eu adoro o método Louca, Arquiteta, Carpinteira, Juíza ( LACJ ou MACJ, do original em inglês). Com ele, conseguimos destravar o conteúdo com uma lição que serve pra escrita e pra vida: comece sem julgamentos.

O LACJ, nome que tomei liberdade de adaptar do original em inglês, é ótimo porque quebra barreiras comuns a muita gente na hora de escrever. Não importa o tipo de texto: post de rede social, artigo de opinião, artigo acadêmico, tese, dissertação, relatório, pitch deck, apresentações — o método ajuda em todos eles. Já falei sobre como driblar o famoso “branco” em outro texto, mas acredito que o LACJ é um aliado importantíssimo.

Conheci o MACJ (Madman, Architect, Carpenter, Judge) no livro Better Business Writing (recomendo!), de Bryan Garner, que comprei anos atrás, nas primeiras pesquisas pra meus workshops de escrita. Bom, o MACJ foi criado por Betty Sue Flowers, Ph.D. pela Universidade de Londres, escritora, poeta e editora, além de consultora de negócios internacionais.

Lendo o artigo dela sobre o assunto, percebi que o bloqueio inicial das pessoas que querem escrever não é o “branco”, mas, sim, o julgamento.

Na escrita, assim como na vida, tendemos a julgar tudo imediatamente, incluindo nós mesmos e os nossos resultados.

No texto, isso faz com que não consigamos sequer desenvolver um rascunho. A gente acaba desistindo antes mesmo de começar. Isso acontece especialmente com quem tem Síndrome do Impostor (veja mais nos links do fim deste artigo).

Como funciona o LACJ

O primeiro passo é o rascunho: anote tudo que pode ter ligação com o tema. Lembre-se: ele é seu amigo e não julga ninguém. Tudo é possível e fica entre vocês. É nesse território livre que a Louca vai lhe ajudar. Depois dela, sugiro copiar o arquivo do rascunho para não perder o original — quem não é acumuladora digital como eu pode confiar no histórico de edições do Google Docs.

Na sequência, pegue o material da fase Louca e entregue pra Arquiteta melhorar o rascunho: ela vai estruturar as ideias iniciais, ainda que pra isso tenha que deixar algumas de fora (à espera de outro texto, talvez). O próximo passo é abraçar a Carpinteira, que vai construir e montar tudo. Depois dela — e somente depois mesmo! — entra a implacável Juíza, que não deixa passar nenhum detalhe.

Presencialmente, explico esse método às pessoas usando coisas que estão à mão. Se estivermos num café, uso guardanapos, xícaras e saquinhos de açúcar. No escritório, lápis, canetas, bloquinhos de papel. Como escrevi este texto em casa, nas fotos abaixo, tentei reproduzir cada fase com alguns dos materiais de pintura do meu marido, Lucas Bezerra.

Perceba a diferença entre a Louca e a Juíza. Quando elas trocam de lugar, as chances de sucesso podem desaparecer.

Passo a passo por fase

Agora, uma lista por fase, feita com alguns tópicos de Bryan Garner com alguns itens que eu considero importantes:

1) A Louca não tem limites

  • Anote insights, motivações (“Por que estou escrevendo isso?”), pensamentos soltos;
  • Registre informações avulsas, com as fontes (links, livros, filmes);
  • Se tiver vontade, escreva frases e até parágrafos soltos e sem sentido;
  • Obviedades e tudo o que for fora do óbvio também são bem-vindos;
  • Viagens na maionese, abstrações e doidices em geral também são aceitas.

2) A Arquiteta organiza seu rascunho

  • Escreva, em tópicos, os pontos que você considera indispensáveis a serem desenvolvidos e vá agrupando as informações neles;
  • Dê uma ordem de prioridade aos blocos de informação criados no tópico anterior;
  • Pense em quais recursos visuais poderiam acompanhar o texto, mas não os busque ainda, só anote, porque você pode mudar de ideia na próxima fase.

3) A Carpinteira desenvolve

  • Esta fase requer mais concentração do que as anteriores. Se possível, tire a internet do seu celular e não abra seu e-mail;
  • Desenvolva os parágrafos a partir dos blocos de informação da fase da Arquiteta. Comece com os que você considera mais fáceis de “saírem” da sua cabeça;
  • Ordene os parágrafos em uma ordem mais coesa;
  • Não pare para editar ou revisar o texto em detalhes;
  • Insira os links das imagens que você considera importantes;
  • Tente escrever uma seção inteira (uma ideia/informação inteira) sem interrupções. Se precisar sair, deixe a primeira frase da próxima seção: vai ficar mais fácil retomar.

4) A Juíza não deixa passar nada

  • Se possível, deixe o rascunho “dormir” de um dia pro outro antes de a Juíza entrar;
  • Pergunte-se: algo importante ficou de fora?
  • Decida quais imagens serão as finais;
  • Reveja intertítulos, tamanho e ordem dos parágrafos e qualidade das imagens;
  • Avalie se a sua mensagem está clara e adequada ao público;
  • Analise se a leitura está coesa e fluída;
  • Revise cautelosamente a ortografia e a gramática;
  • Veja se há frases muito longas ou palavras que poderiam ser mais simples;
  • Exclua o que não estiver contribuindo para o entendimento da mensagem ou é simplesmente chato.

Tenha calma

O tempo de cada fase depende de vários fatores, entre eles: há quanto tempo você escreve, qual é o assunto, o tipo de conteúdo, o tamanho, o prazo, a importância do texto. Com o tempo, você também vai perceber que vai começar a alternar um pouco entre as 3 primeiras fases. Porém, mesmo pra profissionais, sugiro nunca visitar a Juíza antes do tempo.

É somente depois da Juíza que você sai da fase do rascunho. Se possível, deixe o texto dormir mais uma vez e faça uma nova revisão. Outro bom recurso é pedir ajuda a uma juíza ou um juiz auxiliares, de preferência uma pessoa que tenha o perfil do seu público.

Pra finalizar, é importante lembrar que a fase da Juíza não é eterna! Não condene seu texto a uma prisão. Apesar de a Juíza ser rígida, ela deve deixar o texto ir embora pra que você possa aprender com as interações e com o impacto que ele gera nas pessoas. Aqui vale uma mensagem que sempre coloco nos workshops de escrita: menos julgamento, mais texto!

Até mais e continue escrevendo!

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Escrita Estratégica — por Emidia Felipe

Insights, estudos e reflexões sobre a escrita como instrumento para alcançar objetivos estratégicos na carreira, nos negócios e na vida.

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