Lilly Martins: A identidade negra na vida, na moda e na música

Lilly Martins, 21 anos, Belém — PA

Também conheci a Lilly em um grupo de facebook e comecei a aprender com ela muitas coisas que, por ter pela branca, me passavam despercebidas. A cada relato que ela me trazia, seu ou de pessoas conhecidas, a cada análise que ela fazia de algum elemento da cultura pop, de algum artista negro ou de alguma representação e expressão inadequada, eu percebia o quanto nós precisamos ouvir as pessoas para entender como o mundo a afeta. Lilly tem uma forma de falar que demonstra sua força, sua inteligência e sua sensibilidade aguçada. Nesta conversa ela falou sobre como se percebeu negra, sobre o novo clipe da Beyoncé, sobre moda e sobre o poder que a internet tem de oferecer uma rede de apoio para pessoas que vivenciam ou vivenciaram as mesmas angústias.

WP: O poema musicado “Me gritaron negra”, de Victoria Santa Cruz, narra a sua trajetória desde o momento em que se descobre “negra”, ainda criança, pela violência verbal sofrida até se assumir “negra”, como uma identidade política. Gostaria que você comentasse como esse processo se deu com você.

Lilly: Bom, foi basicamente como o poema que você citou.
Descobri que era negra da forma mais cruel possível. Não queria ser negra porque aquela palavra era usada como xingamento, então não era coisa boa. E se eu era negra como eles diziam, porquê meus parentes por parte de mãe (a maioria brancos) me chamavam de “morena”? Então me agarrei a esse eufemismo durante alguns anos. Isso não me protegeu de sofrer mais ataques racistas no ambiente escolar. Lembro de poucos, sei que aconteceram mais momentos assim, mas a impressão é que bloqueei a maioria dessas memórias por serem doloridas e constrangedoras.

Nunca tive o cabelo alisado, mas não escapei dos relaxamentos e procedimentos químicos pra “abrir os cachos” e “domar o volume”. Tais procedimentos nunca deram o efeito desejado e por causa disso (até muito recentemente, admito) eu enxergava meu cabelo como um problema a ser combatido. Quando eu tinha 14 anos, porém, a assistente do salão deixou o produto mais tempo que o recomendado no meu cabelo, e ele afinou e quebrou. Foi um momento horrível, acredito que só mulheres negras possam entender a humilhação e tristeza que se sente quando isso acontece. Mas isso abriu uma porta importante: lembrei que aos nove anos usei tranças por um tempo breve e que seria uma boa hora pra adotá-las de novo, pra “resolver” a emergência capilar.

Todas as mulheres que trançaram meu cabelo eram negras. Nesse salão de cabelo afro, eu soltei meu cabelo pela primeira vez fora de casa sem me sentir constrangida ou incomodando as pessoas ao redor. As fotos na parede eram de mulheres negras, a dona do salão era uma mulher angolana chamada Isabel. E eu pensei, assim como no poema de Victoria Santa Cruz: negra sim! O que tem de errado com isso? Negra era algo que eu já sabia ser, mas que preferia não tocar no assunto; antes eu assumia ser negra falando baixinho e olhando pra baixo, quase como quem pede desculpas. A partir daí decidi orgulhosamente ostentar essa identidade. O cabelo teve uma grande importância nisso, inclusive uso tranças até hoje. Mas só entrei em contato com a militância anos depois.

WP: Por falar nisso, Beyoncé recentemente causou um grande impacto na cultura popular ao fazer um verdadeiro manifesto de resistência em forma de música e vídeo, com Formation. Como você avalia a importância desse ato de Beyoncé e o que você pensa das críticas que ela recebeu da imprensa norteamericana?

Como eu escrevi antes, minha relação com a Beyoncé é antiga, foi uma das primeiras referências de mulher negra talentosa e bem-sucedida que tive. Se pra mim foi incrível assistir Beyoncé dizendo que ama o cabelo crespo da filha e o seu nariz negro, fico imaginando pra meninas negras que a têm como uma das poucas referências positivas para se espelhar.

O incômodo da imprensa branca nos Estados Unidos só é prova de que a cantora está indo pelo caminho certo. No clipe de Formation há uma imagem com um garoto dançando em frente a policiais, e quando ele posa estes levantam as mãos. Em seguida, a câmera filma um muro onde foi pichado “parem de atirar em nós”. A mensagem é clara, mas foi considerada “anti-polícia” por oficiais americanos e também por jornalistas. É o momento em que temos que nos perguntar: o papel da polícia é matar? É atirar seis vezes num adolescente negro já rendido? É contribuir com o genocídio da população negra? Associar o apelo pra que parem de nos matar a um suposto protesto contra policiais em geral só mostra o quanto o “servir e proteger” foi diluído e esquecido.

WP: Em “Formation”, Beyoncé traz o verso: “I’m so reckless when I rock my Givenchy dress”. E, em sua apresentação no intervalo do Super Bowl, suas dançarinas estavam vestidas em homenagem às Panteras Negras. Nós percebemos, com isso, duas faces da moda para os negros: o estranhamento que ainda causa uma pessoa negra estar vestida com uma marca antes restrita às pessoas brancas, pelo seu alto custo, e a moda usada a serviço de transmitir uma mensagem política. Você pode mostrar outras sutilezas da moda para as pessoas negras que passam despercebidas para pessoas brancas? E, por outro lado, como você percebe a popularização dos signos de negritude nas coleções de grandes marcas? Dentro do nosso cenário comercial, como você vê a importância de se dar voz a estilistas negros?

Lilly: Considero a moda uma forma de expressão poderosíssima pra qualquer pessoa. Esse poder de expressão se amplifica quando falamos de minorias que são tão caladas no dia-a-dia. Numa estrutura capitalista, pretos pobres usando roupas de marca é desconcertante; na cabeça de muitos, pessoas negras não têm direito ou poder aquisitivo para usá-las. Gosto muito de uma música dos Racionais MCs que fala disso muito bem, chamada “Eu Compro”. A letra consegue ser uma crítica e um endosso da cultura consumista em meios pobres e pretos — eu não me sinto apta a fazer essa análise já que sempre fui classe média.

Sobre a apropriação de signos, devo dizer que o sistema capitalista é muito inteligente: o empoderamento negro é uma ameaça ao sistema, e portanto, deve ser neutralizado. Ele é neutralizado através do esvaziamento de sentido pela indústria da moda; o cabelo natural é um exemplo, assim como os turbantes. São símbolos de resistência e ancestralidade que são transformados em “moda passageira” e “o must-have do momento”.

Muito me entristece que não haja nenhum estilista negro conhecido mundialmente. As portas da indústria da moda são muito estreitas, porque a indústria é feita por pessoas e pessoas são racistas. E como moda é uma expressão pessoal importante, ver pessoas negras criando coleções seria um statement poderoso. Mas apesar da falta de visibilidade, pessoas como Tracy Reese e Duro Olowu estão abrindo seu espaço na indústria, tentando imprimir seu olhar diferenciado em tudo que fazem.

WP: Com você percebe a restrição de espaços para as pessoas negras na nossa sociedade? Por que você acha que é tão difícil para as pessoas ainda aceitarem que há um racismo velado em nosso vocabulário, em nossas brincadeiras, em nosso padrão do que é considerado belo?

Lilly: A restrição é tanto literal, como os casos de jovens pretos e pobres que são impedidos de entrar num shopping, quanto simbólica. Essa segunda é a mais comum e se dá através de olhares de pessoas no ambiente, seguranças nos seguindo onde quer que vamos ou até mesmo alguém nos tratando como atendentes (mesmo que se esteja vestido com roupa de gala). Ambas são muito graves e deixam marcas profundas no psicológico da pessoa negra. Meu pai, homem negro, não gosta de shoppings e sempre fica alerta aos seguranças quando sai comigo. Ele é do tipo que prefere “evitar” situações racistas, e por isso muitas vezes deixa de ir a alguns lugares.

Já essa dificuldade vem do fato de que ninguém quer ser racista. Admitir o racismo sutil seria admitir que sim, cometemos atos racistas diariamente; some a isso que sempre foi ensinado que racismo é somente injúria, chamar de macaco (e às vezes nem isso!). São pensamentos seculares, sedimentados por anos de opressão.

WP: Como você acha que a internet (blogs e redes sociais) mais contribui para o fortalecimento da autoestima das pessoas negras, ao permitir que manifestem suas impressões (que quase sempre são preteridas pelos grandes veículos midiáticos), ou mais oferece riscos, por expor as pessoas a agressões simbólicas e verbais em larga escala?

Lilly: Acho que a gente vive um momento muito contraditório: ao mesmo tempo em que há um conservadorismo crescente (que muitas vezes toma a forma de ataques virtuais em massa), existe uma resistência enorme das minorias e movimentos progressistas que crescem mais a cada dia. Sem as redes sociais eu não teria formado laços com mulheres negras incríveis. Com elas criei uma espécie de rede de apoio mútuo; o caminho de uma mulher negra é sempre muito solitário, o empoderamento é difícil, criar consciência é dolorido. Criar essa conexão com outras pretas e fazer com que essa jornada seja menos sofrida pra todas nós é uma das melhores coisas que a internet me trouxe. Isso e a noção de que mesmo com todos os ataques e injúrias não daremos mais nenhum passo para trás.

WP: Se pudesse mandar uma mensagem para você no passado e no futuro: o que você diria?
 
Lilly: Se me encontrasse comigo mesma no passado eu diria que aprender a se amar é a lição mais importante na vida de alguém, e que eu deveria tentar aprender e praticar pra evitar problemas nos anos seguintes. 
 Uma mensagem pra uma eu do futuro? Não cometa com seus filhos os mesmos erros dos seus pais.

WP: Você pode indicar uma música como tema para esta conversa?

Lilly: Uma música que me ajudou durante meu período depressivo, que me marcou tanto que a tatuei no braço. É do artista que mais me inspira. “It’s my life to wreck my own way”.