Mila D’Oliveira: Não é uma história de superação

Mila D’Oliveira, 28 anos, Salvador.

Conheci a Mila por meio de interações no twitter (@milamesmo) com arrobas já conhecidas e me encantei por sua forma de ver as coisas, as pessoas e a si mesma. Nesta conversa ela fala sobre afetividade, sexualidade e feminismo a partir de sua perspectiva singular do mundo, a partir de sua cadeira de rodas.

WP: Qual a razão levou você a usar cadeira de rodas?

Mila: Eu uso cadeira de rodas porque eu tenho uma doença congênita, neurodegenerativa, chamada amiotrofia espinhal, que causa fraqueza nos músculos por falta de estímulo motor. Eu tenho a sensibilidade preservada em todo o corpo, mas tenho perda de força gradativa desde que eu tenho uns 3 anos de idade. Aos 4 parei de andar, usei carrinho de bebê até que aos quase 8 ganhei minha primeira cadeira, que já era motorizada.

WP: Como é a relação de uma pessoa cadeirante com o espaço da cidade? Quais são as maiores dificuldades que você encontra? Você já pensou em soluções possíveis de serem implantadas? E, por que você acha que isso não tem sido uma prioridade (de um modo geral)?

Mila: Não sei se eu posso falar sobre a relação da maioria dos cadeirantes sobre a cidade, porque eu tenho consciência de que eu sou uma privilegiada, em relação à maioria dos cadeirantes do país.
Eu venho de uma família de classe média alta, sempre tive carro e gente pra me levar pra grande parte dos lugares que eu quero ir.
Mas, para mim, basicamente, é uma relação de amor e ódio. Eu amo minha cidade, Salvador é encantadora mas péssima pra quem tem deficiência.
Eu me sinto oprimida qualquer lugar que eu vou e preciso de alguém pra ir comigo, não tenho autonomia na maioria dos lugares, por isso vou muito a shoppings que é um dos poucos lugares que eu posso ficar sozinha.
Sinto dificuldade de andar na minha própria rua, não vou para a maioria dos espaços culturais.
Eu penso em soluções o tempo todo, eu sou absolutamente encantada por acessibilidade e desenho universal, a maneira como a cidade poderia não só ser adaptada, mas projetada, mesmo, para todos.
Eu acho que não é uma prioridade porque as pessoas ainda não enxergam que uma cidade acessível é feita pra todo mundo, mas uma cidade do jeito que tá é feita só para alguns. É como um branco que ouve de um negro que falar de racismo é mimimi. Você não quer ouvir que tem gente sendo oprimida e você é parte do problema.
O assistencialismo ainda impera, tudo que é feito para pessoas com deficiência ganha uma tinta de esmola, de ajuda, quando na verdade é direito, dos mais básicos. Se você não pode pegar ônibus, como chega no hospital pra fazer um exame? Como você tem direito à cultura, se os locais tido como referência da cidade nem lembra que você existe?

WP: Quais os principais tabus em relação à sexualidade e afetividade de uma pessoa cadeirante que você tem observado?
Mila: S
exualidade e afetividade é assunto pra mais de mês de conversa.
Tem muito a se falar porque o básico do básico disso as pessoas não enxergam. vou ilustrar com minha experiência: se eu não fosse um ser da internet, eu nem tinha perdido meu bv.
Nunca fui paquerada nos locais que as pessoas são comumente paqueradas, baladinhas e afins. A adolescencia eu atravessei sem um beijo, meu primeiro foi com meu ex namorado, aos 19 anos. Eu era sempre a amiga, nunca a amante. Nunca era o objeto de desejo, pelo menos, não abertamente. E olhe que eu sou padrão agora, até minha deficiencia é leve, não tenho grandes deformidades, tenho pernas legais, falo direito, eu penso em todas as pessoas com afasia, com atrofias e deformidades afins. Elas têm dificuldade até de fazer amigos. Isso eu nunca tive. Na minha atual faculdade, eu não fiz amigos e tava estranhando isso, mas geralmente sempre convivi com pessoas maravilhosas. Uma coisa que acontece é de as pessoas se aproximarem pra você preencher a “cota” delas, elas querem posar com a amiguinha cadeirante, sabe? Mas hoje em dia eu já sei me sair disso, reconheço de longe.
Voltando à questão da sexualidade, eu tô solteira há 5 anos quase, e nesse meio tempo transei com alguns caras, mas não passa de 2, 3 encontros.
Por mais bem resolvida que eu seja, sexo vira sempre um “big deal” porque não acontece com frequência, e tem sempre aquela coisa de “será que esse dura mais que 2 transas?”
Não tenho pretensão de casar, não é isso. Mas eu queria não ser vista como a opção última. E pior, os caras que pegam cadeirantes (e as mulheres também) são sempre vistos como anjos sem asa, “altruístas “ a ponto de fazerem essa caridade. E já tive 2 namorados e olha, de anjos eles tinham nada. Um é meu grande amigo hoje, mas como namorado eu não recomendo, não.

WP: Você tem uma formação superior e está concluindo outra. Por que escolheu essas áreas de formação? Como as pessoas reagem quando descobrem que você tem um curso superior?
Mila:
Eu sou formada em Direito e tô no 4 semestre de psicologia, fiz formação em psicoterapia sistêmica de família e casal.
Vou demorar de concluir psicologia ainda, porque eu não pego muitas matérias, pelas minhas outras atividades. Eu hoje percebo o quanto minhas formações são meus trunfos, e eu uso isso. Eu sei que não é o que a maioria espera de quem tem uma deficiência.
Elas consideram como se eu fosse uma heroína por eu simplesmente ter ido lá e feito o que minha família esperava que eu fizesse, um curso superior.
Eu sempre tive quem me levasse, almoço na mesa e acesso a livros, mas as pessoas sempre vão ver como eu carregando um leão nas costas, tal qual Hércules. Tudo que você faz como deficiente é visto como sacrifício, e você tem que ter cuidado pra não incorporar isso na sua psique, não bancar esse herói que te dão. Eu vejo meu ensino superior como um trunfo, por eu ter ido contra o que se espera, mas não como uma “superação” , entende? Não nego que tive dificuldades, mas quem não tem? Por que me considerar especial por isso?

WP: Qual a importância do feminismo para você e como ele contribuiu para a construção da sua identidade?
Mila:
Essa expressão pode ser batida pra caramba, mas não sei achar outra: o feminismo salvou minha vida. Muito menos esse feminismo que é ensinado, mas aquele feminismo que vive ali no dia a dia, ensinando as meninas o valor que elas tem, quando tudo parece dizer o contrário. Eu venho de uma família de mulheres fortes, eu sempre tive amigas maravilhosas, mas eu achava que era exceção. Até que o feminismo me mostrou que mulheres são foda mesmo, que podemos muito mais do que nos dizem e que ainda falta muita luta pra conseguirmos ser valorizadas como merecemos. E isso dá um sentido, uma sensação de pertencimento. Mas confesso que ainda acho que o feminismo fala pouco sobre mulheres como eu, com deficiência. Ainda nos tratam como coitadas, ainda não entendem os aspectos mais peculiares do nosso direito à sexualidade. Como em todo o mundo, falta inclusão também no feminismo.
(Inclusive, vocês podem ler textos da Mila sobre feminismo aqui: http://lugardemulher.com.br/author/mila-correa/)

WP: Qual é a sua memória mais feliz e a mais erótica?
Mila:
Hahah a memória mais feliz?
Gente eu amo tanto minhas memórias, tenho apego demais por elas, sou daquelas que lembram de tudo.
Algumas memórias acabam ganhando um filtro de beleza pela saudade. Eu amo meu último aniversário com meu pai, em 2000, que a gente foi pra uma praia mais linda de Salvador e na volta ele assoviava n’sync no carro.
Mas tem outras memórias lindas, igualmente felizes, como no natal de 2013 que eu tinha passado um ano que eu achei que eu fosse morrer por conta de uma cirurgia e vi minha família nada pequena reunida.
 Agora, a memória mais erótica, vamos lá: pode parecer bem bobo, mas no dia que eu saí pela primeira vez com um cara que não era meu namorado e transamos Aquele era pra mim o atestado de que eu podia exercer minha sexualidade sem necessariamente tá num envolvimento romântico, eu podia ter sexo, contrariamente ao que a maioria pensa sobre mulheres com deficiência. Na hora que eu entrei no carro e eu sabia onde estávamos indo, a maneira como aquilo aconteceu tão naturalmente, foi muito erótico pra mim.

WP: Você pode deixar uma música como tema para esta conversa?
Mila:
Acho que “Poema”, de Cazuza, é uma das músicas mais lindas que existe e tem a ver com esta conversa que fala de lembrança, de opressões, de medo mas de um olhar pra um futuro que você só pode enfrentar com o auxílio do que já viveu e aprendeu.