Natalia Castro: antes tarde do que mais tarde

meu nome é Natalia Castro, tenho 23 anos e atualmente moro em Porto Alegre.

Processo de autodescoberta

Desde adolescente eu sentia algum nível de atração por mulheres, mas não sabia até que ponto era só curiosidade. Apesar de ter tido uma criação muito permissiva, sempre fui bem retraída e tímida, chegava a fingir que tava passando mal pra ir embora de festa e não ter que interagir com meninos (isso já com uns 16 anos na cara, enquanto minhas amigas já namoravam e tudo).

Meu primeiro relacionamento sério com homem já foi mais tarde que a média, eu tinha quase 20 anos. Ano passado, com 22, eu tive experiências com mulheres e me envolvi afetivamente com uma.

Foi um relacionamento curto, durou só uns meses, mas foi o suficiente pra eu saber que isso fazia parte de mim. Mas foi bem confuso, sabe? No começo eu tinha dúvidas se eu realmente gostava de mulheres ou só tratava como fetiche, como algo que eu curto em festas mas não na minha vida mesmo.

Foi todo um processo, refleti pra caramba e conversei sobre isso exaustivamente até me encontrar. Sei que o processo começou recentemente e tenho bastante a aprender, mas hoje me sinto segura pra dizer que eu sou sim bissexual.

Em razão desse relacionamento com essa menina eu me assumi pros meus pais (mais pro meu pai — que é mais alheio à minha vida — porque minha mãe já meio que sabia), eu fiquei bem nervosa porque meu pai teve uma criação super homofóbica e cresceu conservador de várias maneiras mas ele super me aceitou, disse que não tinha problema, que se orgulha de mim e que tá tudo bem.

Foi um momento muito importante na minha relação com eles, especialmente com meu pai por ser mais distante de mim e ter me surpreendido total na reação.

Esse processo de ficar com mulheres e tal começou ano passado quando eu morava com meus pais em Araranguá/SC, mas eu ter me assumido e rolado essa conversa foi esse ano, quando eu já tava morando sozinha aqui em Porto Alegre.

Principais dificuldades

Minhas principais dificuldades com isso de me descobrir foram no sentido de ter me permitido a isso já mais velha e consciente, então não foi um processo tão orgânico. Eu sempre racionalizei muito as coisas que faço e sabendo sobre feminismo e lgbtfobia foi complicado me descobrir bi porque eu tava sempre questionando se eu estava agindo certo com a mulher com quem eu me envolvia, sempre tentando me colocar no lugar dela e nunca conseguindo completamente (ela é lésbica com um processo de aceitação difícil em casa e eu sou bi 100% aceita pelos pais e irmãos).

Meus relacionamentos anteriores, ainda que poucos (porque comecei a ter “vida amorosa” há uns 4 anos mais ou menos) tinham sido só com homens e alguns deles tiveram aspectos meio problemáticos e uns meio abusivos, então foi um processo bem peculiar eu me adaptar a ela. acabou não dando certo a relação em si, mas foi bem importante pra mim e eu nunca vou esquecer sabe.

Também tem toda a coisa de ser bissexual, porque por mais que eu não acredite em bifobia em si, tem todas essas discussões de lésbicas que hostilizam mulheres bi e homens héteros que fetichizam mulheres bi e tudo isso é muito chato. Já passei por situações ruins envolvendo homens se metendo ou sendo inconvenientes enquanto eu tava ficando com alguma mulher, coisa que jamais aconteceu enquanto eu tava com homens.

Sem falar que, se assumindo bi na internet, parece que todo mundo começa a regular sua vida pra ver se você é SUFICIENTEMENTE bi, se gosta mesmo de homens e mulheres ou não tá só inventando moda porque no fundo gosta só de um ou de outro. Tenho ficado bem aborrecida com essas e outras discussões e me esquivado do assunto na internet.

Então, EU não considero bifobia nada do que eu já passei, tanto antes quanto depois de me descobrir/assumir. Por ser muito fechada e não me envolver com meninos, além de sempre ter tido um jeito meio bruto e outras características consideradas “masculinas” eu fui bastante tachada de lésbica quando adolescente, mas nunca me importei ou me defendi quando me “acusavam” disso.

Eu já sabia que não era errado e convivia com pessoas lgbt no ensino médio, então pra mim tava tudo bem. e não me relacionei a sério com homem depois que me assumi bi, então não sei se eu receberia algum tipo de tratamento diferente dentro da relação por ele saber que eu sou bi, mas acho que não. os caras que eu fico sabem disso e até agora não rolou nada.

Toda situação mais escrota desse tipo só rolou enquanto eu tava com mulher, então considero lesbofobia mesmo. O que acontece muito contra bis é essa propagação de discurso equivocado sobre “indecisão”, “promiscuidade” ou “está fazendo pra aparecer na internet”, e apesar de achar desagradável, EU não considero nada a nível de opressão sistemática como homofobia e lesbofobia.

Relação com a família

Como eu já me descobri mais velha, meu processo da família lidar com isso foi bem diferente. Como te disse, sempre tive muita liberdade na minha casa pra falar e agir como eu acho certo, mesmo muitas vezes isso indo contra o que meus pais consideravam melhor pra mim. Mas o fato de eu sempre ter tido esse espaço acabou me permitindo mudar muito a mentalidade deles em relação a várias coisas, então apesar de não serem Os Pais Mais Lacradores Que Você Verá Hoje, eles são bem abertos às diferenças.

Quando contei pra minha mãe que tava começando a ficar com mulher ela disse que sempre achou que eu era lésbica??? kkkk Mas expliquei pra ela que não sou, eu realmente gosto de homem também (com algum sacrifício porque homem hétero é um bicho brabo né).

Nunca tive intimidade com meu pai e nunca fomos de conversar sobre nada realmente pessoal meu ou dele, então ter chegado e falado sobre minha sexualidade foi um passo difícil de tomar e fico feliz que eu tenha feito isso aos 23 anos, com o tato e maturidade que tenho hoje, além da mentalidade que eles têm hoje também.

Eu era muito agressiva quando adolescente e se tivesse me descoberto e assumido bi naquela época provavelmente teria sido um desastre. Algo que influencia é o meus pais me respeitarem muito também, a mulher adulta que eu sou, as coisas que eu já fiz. acho que isso contou muito pra eles verem a minha decisão como um passo consciente e não como uma besteira passageira de adolescente, sabe. Não sou de levar pra casa dos meus pais as pessoas com quem me envolvo, só levei duas até hoje (meu primeiro namorado e minha primeira namorada hahaha) e nem fico explanando minha vida pessoal pra eles. Caso eu me relacione a sério com outra mulher, levaria ela pra conhecê-los sem nenhum problema. Tenho um irmão e uma irmã adolescentes (são gêmeos, têm 16 anos) e como boas crias que cresceram ao meu lado, toda a reação deles frente a minha bissexualidade foi fazer um hang loose: eles não estão nem aí pra essas coisas.

As afetividades dentro do processo de autodescoberta

Eu era super reprimida quando mais nova por ser tímida e insegura demais, então todo o meu processo de aprender a me relacionar com pessoas foi considerado meio tardio nos grupos de amigas que eu fazia parte.

Fui a última a perder a virgindade, última a começar a namorar, essas coisas. muita coisa na minha vida, inclusive essas, mudaram nos últimos tempos porque comecei a me consultar com psicóloga.

Tive que parar pq me mudei e fiquei sem grana, mas fiz terapia por cerca de um ano e meio e não poderia ter acontecido em hora melhor: terminei um relacionamento que tava me fazendo infeliz, troquei de área profissional, me descobri bi e melhorei 100% minha relação familiar. hahaha

Não tá tudo maravilhoso mas os desafios hoje são BEM diferentes. Ter começado a me relacionar com mulheres fez com que eu me redescobrisse sexualmente. Eu já não era super experiente com homens (tive poucos parceiros), e transar com uma mulher foi tipo ser virgem de novo, eu parecia nem saber me mexer numa cama. Foi bem bacana porque eu passei a explorar todo um outro lado de mim que talvez eu nunca teria acesso me relacionando apenas com homens, ou talvez demorasse muito tempo pra isso. Também revi muito as minhas concepções de relacionamento, vi como muito do que eu queria numa relação tinha que sempre estar PARTINDO de um homem e me tendo como beneficiária apenas, ou que determinadas coisas tinham sempre que ser providas por mim, por ser mulher.

Descobrir que sou bi me forçou a encarar que muitas dessas coisas eram estereótipos totalmente sem fundamento e eu trabalho pra me livrar disso porque acho nocivo e bobo.

Uma mensagem para si mesma, no passado

Eu diria pra ser menos dura com meus pais porque eles fazem umas merdas mas eles realmente estão fazendo o melhor que podem. Ser adulto é difícil pra caralho. Tenho hoje quase a idade que minha mãe tinha quando eu nasci e afirmo tranquilamente que eu não teria IDEIA do que fazer no lugar dela. Também teria tentado procurar ajuda psicológica mais cedo porque eu tinha muita coisa pra resolver na minha cabeça e talvez não tivesse passado por episódios depressivos tão novinha se eu tivesse algumas coisas melhor trabalhadas dentro de mim.

Eu sempre tive o pulso firme pra tudo, mas principalmente em relação a mim mesma, sempre fui muito rígida comigo. Se pudesse falar comigo mesma há dez anos eu pediria pra ser mais tolerante, não levar tudo até as últimas consequência e ser mais paciente porque as coisas vão se ajeitar.

Acho que acima de tudo, se eu pudesse fazer diferente, eu não tentaria me encaixar em perfis que eu não sou. Não tem nada de errado com minha personalidade, meu jeito e meus anseios, só queria ter demorado menos tempo pra perceber isso. Mas né, antes tarde do que mais tarde.