Nicole Prestes: a vida na cidade, o amor e os filmes

Escolhi esta foto porque acho que ela está com um ar muito intelectual. =P

De todas as generosidades, aquela que faz alguém abrir a porta de sua casa para receber um quase-estranho é uma das que mais me comovem.
Foi isso que Nicole e Aline fizeram por mim.
Um dia, nosso amigo Darlon marcou Nicole e eu em uma mesma postagem e disse que deveríamos nos conhecer. “Você precisa conhecer Nicole”, ele disse.
E não poderia estar mais certo.
Nicole foi um dos maiores incentivos que recebi quando resolvi lançar meu primeiro ebook. Me ajudou com a capa, inclusive: fotos tiradas por ela foram as que eu usei como capa de “Cheiro de Tinta”. A modelo: Aline.
Mas um dia recebi uma mensagem de Nicole: “Wigvan, se eu te oferecer uma passagem, você vem a SP me conhecer?”
Claro, respondi. Acho que ninguém fez algo assim por mim na vida e só o fato de ela querer me presentear já me emocionou mais do que muitos presentes recebidos.
Acho que em questão de quinze dias eu já estava no ponto do metrô e ela me esperando depois de fumar o quinto cigarro: o voo atrasado e eu não tinha celular.

Por um mês eu dormi no sofá em sua sala ou na sua cama com Aline.
Por um mês nós comemos juntos.
Por um mês eu abracei seus amigos, tantos e tão maravilhosos, Camila, Fernanda, Marcos — e quis que eles fossem também meus.
Por um mês eu fiz carinho em Marjane, a gatinha pedante que adora dormir entre livros clássicos e dvds cult.
Por um mês dividimos o espaço e as palavras.

Nicole tem um humor ácido e uma curiosidade que a faz devorar todo o conhecimento que tem em volta. Ela fala com seriedade e euforia. Às vezes tropeça por não conseguir conciliar a velocidade do pensamento ao tempo necessário para formar as palavras que deseja.
Eu acho que todo mundo precisa conhecer Nicole.

Nesta conversa, falamos sobre a vida em São Paulo, as dificuldades iniciais, os prazeres e a violência sofrida, sobre cinema, sobre assexualidade e também conta algumas boas histórias de amor.

Escolhi esta foto porque todo mundo vai ver o quanto ela é sorridente. =P

WP: Há quantos anos você mora em SP? Por que resolveu se mudar pra capital? O Crioulo está certo: existe amor em SP?

Nicole Prestes: hahaha! Não sou muito fã do Criolo não… Acho que tem algumas letras meio machistas, fora o fato dele ser “palmiteiro”. Mas, enfim, usando o pouco otimismo sagitariano, diria que o amor não está em uma cidade, mas sim em nós =P.
Moro em SP há 4 e meio… Vim pra cá depois de desistir do Jornalismo. Com a cara e a coragem, porque sempre quis morar em SP e uma colega na época tinha passado na Unifesp e me chamou para morar com ela aqui. Topei e vim.

Foi uma loucura, porque eu vi a oportunidade e topei. Mas, sabia que não seria fácil. A colega com quem morei, tive inúmeros problemas, desde limpeza, até o limite dela ameaçar me bater (isso porque ela era da frente feminista da Unifesp!!!!!!). Mas, o principal foi trabalho né? Na época ainda fazia estágio como correspondente para um jornal do Rio, mas era uma grana ridicula… E ai comecei a procurar outros trabalhos para ajudar na renda. Então fiquei uns 3 ou 4 meses pulando de galho em galho até conseguir um bom e tranquilo (que estou até hoje, neste momento inclusive! hahaha).

Eu tinha terminado um relacionamento fazia tipo um mês. Fiquei tres/quatro meses fazendo trabalhos diversos, ganhando mal, comendo mal, sem dinheiro para cigarro, jantando salsicha nesse tempo todo, porque era o que conseguia comprar. Enfim, os 4 primeiros meses foram horríveis.

Mas depois que consegui o primeiro emprego (aqui), mais razoável… as coisas foram aos poucos se encaixando.

A sensação de ter tomado a decisão certa veio… Hmmm, acho que um ano depois, quando já estava financeiramente estável, com um bom emprego, namorando e tudo estava indo bem e mudei de apartamento também. E foi quando eu realmente já me sentia parte da cidade, sabe?

WP: E como foi a fase de conhecer novas pessoas? Demorou muito? Geralmente, essa é a parte mais difícil para mim quando mudo de cidade.

Nicole Prestes: Passei por umas situações meio toscas, de conhecer gente que só conhecia pela internet e chegar lá ser uma bomba, tipo a pessoa nada a ver, ou só chata mesmo saca. E esses “encontros” na real era só para fazer amizade mesmo, não queria nada “amoroso” com ninguém porque não estava no momento.

Mas, na real, foi difícil, porque eu ainda estava muito ligada aos amigos de Campinas (cidade que morei antes de vir pra cá e fiz faculdade). Sempre que tinha uma graninha eu ia para lá, eles vinham bastante pra cá…

WP: Posso perguntar como você conheceu a Aline ou é uma pergunta muito TV Fama para você? haha

Nicole: HAHAHA, pode ser… Ela foi uma parte bem importante na minha sensação de estar bem em SP. =) No terceiro mês em SP, a colega com quem morava me indicou para um trabalho no Parlapatões (teatro independente na Roosevelt), era para ser bilheteira, haha, topei porque a grana era boa… Conheci a Aline lá, ela trabalhava no bar.

Mas, eu fiquei um mês só no trabalho, porque depois, lá mesmo, conheci meu atual chefe, que me ofereceu um emprego e topei. Porque não queria ficar trabalhando de final de semana e o dinheiro era ainda melhor (ainda mais depois que perdi o estágio porque não estava mais na faculdade — sim, mantive dois empregos nesses três primeiros meses).

Nesse um mês, eu e Aline nos aproximamos, nos conhecemos, saímos, fomos ficando e um dia do nada ela terminou comigo porque disse que estava a fim de outro cara. Eu estava gostando dela, mas não era minha prioridade no momento, precisava agilizar minha vida, então disse que ok. Na semana seguinte a convidei para sair, como amiga mesmo, afinal ainda não tinha muitos amigos em SP. Ela topou, ficamos e perguntei do cara, ela disse que terminou com ele porque preferia estar comigo. Continuamos ficando, namoramos, casamos (no papel), vivemos um casamento aberto, terminamos e hoje moramos juntas como amigas (isso em um pouco mais de 4 anos).

WP: É tão bonito ver um amor que se mantém apesar de mudar a configuração do relacionamento. ❤ Isso me fez lembrar da história dos seus pais, mas entre eles houve um hiato, não foi? Não me lembro direito.

Nicole: Sim, eles se conheceram em 88 (acho) namoraram um ano, casaram e eu nasci em 90 =) Eles ficaram mais um ano juntos, e se separaram… Em 2014 voltaram a namorar e no final desse mesmo ano casaram de novo! Agora no começo desse ano, eles se separaram de novo. Mas ainda moram juntos como amigos e acho que vão continuar morando assim por um looooongo tempo. Realmente, a história deles tem muitas semelhanças com a minha e da Aline! hahaha

WP: A gente — que mora no interior ou em outros estados menos “cosmopolitas” — tem a ideia de que em cidades como São Paulo as pessoas convivem melhor com aquilo que foge da norma e que sabem respeitar as outras. Como é a sua percepção disso? Você enfrentou algum tipo de violência verbal e simbólica em SP por ser mulher e por amar outra mulher?

Nicole: Sim, há dois anos sofremos um ato de violência verbal e física em um terminal de ônibus. A priori por sermos mulheres, depois as agressões verbais voltaram-se a nossa sexualidade

Mas, acho que em SP, as pessoas estão mais acostumada com as diferenças. Apesar de vivemos constantemente em uma zona de conflito, entre os progressistas e os conservadores.

As violências contra minorias estão em todos os lugares né… Aqui não seria diferente

O que aconteceu aqui, poderia ter acontecido em qualquer lugar do país.

WP: Por falar em minorias e já entrando em outro assunto: como você vê a representação das minorias no cinema e na tv? Poderia indicar alguns filmes que tratam dessas questões políticas de forma verossímil?

Nicole: Curioso perguntar isso, estava lendo sobre o que as algumas pessoas bissexuais acham da representação da bissexualidade naquela série How To Get Away With Murder. Como não sou bi, estava apenas lendo e pensando sobre… Porque né, a gente não dá palpite em opressão que não sofre!

Acho que no cinema e na tv nacionais, estamos engatinhando ainda (pra ser até otimista)

Tem pouquíssimas obras interessantes (pelo menos na questão lgbt)

Se comprar por exemplo por o cinema/tv estadunidense…. puffffff! Eu amo o cinema nacional, mas infelizmente estamos começando a tratar sobre minorias com boas representatividades

No cinema nacional, temos aquele filme “Vera” que fala sobre transexualidade nos anos 80 (acho), claro que tem problemáticas ali… Mas, porra em 80, era muito progressista. Ainda mais sendo uma história real e tal. Depois disso travamos.

Poderíamos ter caminhado para um cinema super progressista, mas por problemas financeiros e políticos o cinema nacionais parou

Até a “retomada”… Então, numa época em que era difícil fazer filmes, por falta de recursos, as minorias ficaram com uma lacuna.

WP: E como foi que você começou a pensar sobre a sua própria sexualidade?

Nicole: Eu vivi uma heterossexualidade compulsória até os 19 anos!

Nunca tinha questionado minha sexualidade, era hétero e pronto. Até que conheci minha primeira namorada, me apaixonei e achei que era bi. Aos poucos fui revivendo minhas coisas da minha vida e entendi que algumas mulheres que achava que admirava, não era admiração e sim paixões reprimidas.

E aí, aos poucos fui entendendo que era lésbica e não bi.

E infelizmente, para algumas lésbicas, a bissexualidade é sim uma fase, para facilitar a aceitação. Por isso hoje bato tanto na tecla da bifobia… Porque é algo que acontece muito e a gente nem percebe.

Mas, não foi um choque pra mim, nem pra ninguém quando falei que era lésbica.

Todo mundo meio que esperava por isso, hahahha, mesmo que ninguém nunca tivesse me questionado sobre.

O grande choque pra mim, na verdade, foi entender minha demi-sexualidade.

WP: E como foi esse processo de autoaprendizado? Porque há muito estranhamento quando uma pessoa admite que para ela o sexo não é algo tão importante quanto parece ser para as outras. geralmente quem fala é patologizado e diagnosticado por quem sequer tem diploma em área da saúde. “É trauma”, “Faz terapia”, “Não é normal não gostar de sexo”, “É que você não conheceu alguém que soubesse transar”… e isso vindo, muitas vezes, de quem defende outros pontos de vista bastante libertários.

Nicole: Infelizmente isso é MUITO normal.

Agora é de boas, as pessoas que gosto muito e são próximas sabem e as que não entendem, “por respeito”, acabam que não tocam no assunto, sabe? Mas, para gente que não tenho intimidade não falo não. Rio das piadinhas sexuais e tal e finjo que tá tudo bem. Por exemplo, no trabalho todos sabem que sou lésbica. E as vezes fazem piadinhas com algumas clientes e tal, tipo “ela tava te paquerando e blás”, dou risada e sigo fazendo minhas coisas.

Ou seja, no trabalho não sofro homofobia (ou lesbofobia), mas sofro por ter que aguentar piadinhas de cunho sexual (de quem é sexual e acha que ser sexual é o normal/certo).

Esse entendimento se deu depois de três namoros com mulheres (e dois com homens). Eu achava que não gostava de sexo com homem por era lésbica (os dois namoros com homens foram um martírio! HAHA). Mas, depois das relações lésbicas, fui aos poucos entendo que o meu desejo sexual não era como o de outras lésbicas e isso sempre me incomodou, sempre naquela coisa de achar que tenho algum problema e tal… Fui no ginecologista, falei disso e ele disse que eu tinha uma disfunção sexual”, que era normal e muitas mulheres tinham. Por um tempo essa explicação me satisfez, até um dia me deparar com o termo assexual, e fui pesquisar, descobri que existiam pessoas demi, fui lendo sobre, conversando sobre com algumas pessoas em grupo e tudo fez sentido para mim! (risos!)

E a questão da demissexualidade (junto com a ancestralidade indígena) são os grandes dilemas, porque tenho que lidar com apagamento o tempo todo né? Na maioria das vezes relevo e vida que segue… Mas tem momentos que machucam mesmo e ai desabo.

WP: E o que mudou na sua forma de se relacionar com os outros e consigo mesma depois que se identificou como demi-sexual? Há quem ache que é só “uma palavra” nova, um “modismo”. Mas, como disse Oscar Wilde, “entre eu e a vida há uma névoa de palavras”.

Nicole: Agora a gente sabe o que é, rótulos são necessários para essa compreensão inicial. Vivemos num momento de nos descobrirmos ou nos entendermos, seja com a nossa raça, nossa orientação sexual, de gênero ou de sexualidade. Por isso acho que agora os rótulos são bons, nos ajudam a nos entender e fazer com que algumas pessoas nos entendam minimamente. Espero que num futuro próximo não precisemos tanto desses rótulos.

Mudou mais internamente né? É quase sempre uma libertação interna mesmo! Parece que a gente tira um peso de dentro quando se entende e/ou se assume.

Não me obrigo mais a ter sensações/vivências sexuais sabe? Porque o Brasil é muito sexual, a gente que não é sexual, meio que se obriga a ser…. E quando você se liberta disso, nossa, tudo fica um pouco mais leve.

Mesmo com o apagamento.

WP: Para terminar, você pode indicar uma música como tema para esta conversa?

Nicole: Wig, você pode esperar 10 min? Preciso fumar! HAHAHHA

(assim que voltar eu indico a música e os filmes/séries que pediu antes, tá?, rapidinhooooooooooo!)

Música, tô ouvindo tipo MUITO o novo cd da Elza… Posso indicar o cd todo? hahahha

Filmes nacionais difícil indicar, porque se tem personagem trans é feito por cis, lésbicas e gays são brancos, bis sempre retratam mal…. enfim, amo o cinema nacional, mas como disse em relação a lgbt’s estamos engatinhando.

Sobre personagens negros, indicaria “Ventos de Agosto”, é um filme bastante existencial, e infelizmente não é normal ver personagens negros em filmes assim. Tem bastante nudez, mas não é uma nudez de “sexualização” da mulher negra, ambos os personagens aparecem nus, e acredito eu que tem um contexto pra isso. Falando sobre personagens indígenas ou indiodescendentes para além de documentários, eu indico os poucos (por enquanto) filmes do cineasta amazonense Sérgio Andrade.

Séries estrangeiras, a Netflix tem produzido coisas bem interessantes, mesmo que ainda exista algumas problemáticas: Sense8, Grace & Frankie, Orange Is The New Black e Master Of None. As séries da Shonda Rhimes também tratam da questão da negritude e lgbts de formas interessantes, Grey’s Anatomy, Scandal e How To Get Away With Murder.

Mas, a série (pra mim) que atualmente melhor trata de questões mais diversas sobre direitos humanos, (com o mínimo de problemáticas), é uma série pouco conhecida no Brasil, chama-se The Fosters. E nos EUA é uma série feita para família mesmo (mais ou menos como as novelas são vistas no Brasil). E ai a gente consegue perceber a diferença do momento em que a tv estadunidense vive em comparação a brasileira. A série é produzida pela J.Lo e traz um casal lésbico interracial com uma família multirracial composta de filho biológico e adotivos. Falam de LGBT’s, negritude, questões latinas, racismos, religião, drogas e gravidez na adolescência, etc etc etc. Os atores que fazem os filhos adolescentes são em sua maioria ex-Disney, ou seja, é uma série que atrai os adolescentes, e também pais/mães pelos enredos.

Sobre personagens no espectro ace, ainda não sei de nenhum declaradamente… E isso é muito triste, pela falta de representatividade. =(

Mas, quem sabe num futuro próximo eu não mudo isso né? hahahhaa