Rosana Hermann: porta afora, alma adentro

Eu estava no hospital quando vi a Rosana Hermann pela primeira vez. Tinha acabado de sofrer um acidente e ficar todo arrebentado, daí liguei a tv. Ela me fez rir. Eu não tenho muita disciplina para ver tv e acabei deixando de acompanhá-la por uns tempos. Passei, então, a ler o que ela escrevia nos blogs e descobri que ela era muito mais do que riso: era pensamento profundo, sensibilidade apurada, conhecimento sobre tecnologias e redes sociais, viagens feitas e caminhos percorridos. Ela era imensa.
É impossível ler algo que ela escreveu ou ver algum vídeo seu sem aprender alguma coisa, sobre o mundo que tem dentro de mim, sobre o mundo nos cerca e que recriamos todos os dias e sobre os muitos mundos que ela construiu dentro de sua vida.
Saber que você existe alguém como Rosana me faz lembrar de que sempre existe um amanhã.
Nesta conversa, Rosana fala sobre a relação com outro, com o Eu e com ensino em tempos de redes sociais. E, claro!, também sobre uma de suas viagens preferidas.
WP: Na introdução ao seu e-book “Minha vida comigo”, você escreveu: “Escrever uma autobiografia é a coisa mais fácil do mundo; difícil é encontrar quem leia.” Como você analisa essa relação complexa que nós temos com a vida alheia, relação que nos faz ter fascínio e acompanhar cada passo de celebridades, mas que nos torna tão insensíveis e indiferentes à vida do outro que está ao nosso lado?
Rosana: O único grande interesse de cada um é seu self. o EU, a familia desse EU, feitos desse EU, amigos e conhecidos do EU, lugares que esse EU frequenta ou frequentou, tudo o que tem a ver com esse EU. O simples horóscopo desse EU interessa mais que uma guerra na Síria para quem não tem nenhum elo com esse lugar. Infelizmente para o ego desse EU, ele não se basta. Como o EU vai ser melhor que ele mesmo? Então, precisamos do…OUTRO! O outro serve pra gente se comparar, se inspirar, se moldar, copiar, parametrizar. O resultado é esse que vemos hoje, produtores de assuntos sobre EU e críticos da vida do OUTRO.
WP: Já que começamos falando de autobiografia e de redes sociais, você poderia tentar resumir a sua biografia em 140 caracteres? Sei que é um desafio, a considerar todos os caminhos que você trilhou até aqui.
Rosana: Terráquea alquimista focada em maximizar uma vida próspera e feliz, para mim e todos os seres viventes, pelo uso contínuo do humor.
WP: Você é bacharel em Física, pós-graduada em Física Nuclear, jornalista, radialista, escritora, roteirista, apresentadora… Como você avalia a importância de se repensar a educação em tempos de novas mídias e de gadgets para que ela estimule a vontade de aprender e não a vontade de “ficar livre da escola”?
Rosana: Acredito que a revolução do ensino aconteça quando conseguirmos colocar o conhecimento nas plataformas amadas pelos potenciais alunos, sejam elas games de ação, jogos de construção, redes sociais, histórias de zumbis, séries de TV. Se é verdade que todo artista tem que ir aonde o povo está, o conhecimento deve ser inserido no foco onde olhos e corações estão.
WP: Uma vez você escreveu algo que me tocou profundamente. Era sobre o incômodo que sentimos em relação a determinadas pessoas como oportunidade de aprimoramento de si. Em vez de pararmos no incômodo, você disse, seria muito mais oportuno se investigássemos as razões pelas quais o incômodo aparece. Você pensa que a nossa dificuldade de comunicação esteja relacionada a essa falta de reflexão e a essa transferência ao outro de um incômodo que é responsabilidade de quem sente? A dificuldade de se ter um bom diálogo com o outro pode ser sintoma de uma ausência de diálogo consigo mesmo?
Rosana: Você tocou no ponto mais profundo de todos os nossos problemas contemporâneos. A falta de diálogo interior, de reflexão, de ouvir a voz da própria consciência. Aquele momento em que paramos pra pensar nos nossos erros, nas nossas falhas e fraquezas, na nossa estupidez. Quando tentamos melhorar nossa conduta e aceitar os outros como são. Quando nos perdoamos. Jogamos toda a carga sobre o outro para EVITAR a qualquer preço esse encontro com nossa humanidade.
WP: Você gosta muito de viajar e agora apresenta um programa com o Fábio Porchat sobre isso. Um filósofo, Vilém Flusser, diz que só o fato de estar em outro lugar já é uma oportunidade de aprendizado porque isso retira dos nossos olhos os véus do hábito. Você concorda com eles? Você conseguiria elencar, entre as muitas viagens que você já fez, aquelas que foram mais transformadoras?
Rosana: Viajar é a melhor coisa do mundo. É ficar marinado em conhecimento, resgatar a vida em 360 graus, o olhar giratório que homenageia o globo ocular.
É sair da zona de conforto, zerar o que sabia para reviver a ingenuidade da ignorância. Porque todo turista é sempre um bobão, o peixe fora dágua, o sapo de fora. Viajar ajuda a aceitar o diferente, combate preconceitos, amplia horizontes. Ensina, humaniza, colore a gente por dentro. De todos os lugares que conheci o que mais me transformou foi o deserto do Atacama.
O deserto real não é o deserto que eu imaginava. É cheio de cores, lindo, extremo, impensável, indescritível. O deserto deixa você energizado, assusta e deslumbra. Nunca vi tanta vida, gelo e fogo e água e ar e areia e verde e águas azuis e pedras vermelhas e vulcões gelados e lagoas no cume e poços de água de cristal e céu violeta e mares de sal e…. meu D’us o lugar mais estrelado do planeta Terra. Chorei ao ver as estrelas, o céu que nunca concebi.
A imensidão, a cidade de habitantes. Lugares onde o tempo nunca passou. Hoje mesmo, voltei a ver as fotos do deserto. É como se, uma vez tendo ido, eu jamais pudesse sair mais de lá. É um tipo de amor.
WP: Por fim, gostaria que você indicasse uma música como tema para esta conversa.
Rosana: Enquanto eu respondia suas perguntas uma amiga muito querida me chamou pra dizer que estava escolhendo as músicas do seu casamento e que lembrou de mim, porque sempre choro ao ouvir a música mais linda e triste do mundo, Sunrise, Sunset do Violinista do Telhado. É o pai vendo a filha casar e pensando que os dias e anos passaram tão depressa e que agora os dois vão aprender sozinhos e construir uma nova vida, essa vida que afinal é uma sucessão de dias em que o sol nasce e se põe… nasce e se põe e que fazem as estações passaram… junto com as alegrias e as lágrimas. Linda demais. https://www.youtube.com/watch?v=nLLEBAQLZ3Q
Você pode encontrar a Rosana em seu blog no Estadão: http://vida-estilo.estadao.com.br/blogs/querido-leitor/
Conheça também o canal Porta Afora: https://www.youtube.com/channel/UCdgCNb87T4I-303KHF6FBhw