A Roupa dos Caçadores de Sombras e a Importância da Descrição na Literatura

Gustavo Garcia
Sep 3, 2018 · 3 min read

Ufa, que título longo, mas vamos lá.

"Preto para caçar de noite e dar sorte,
Pois o branco é a cor do pranto e da morte.
Dourado para a noiva em seu vestido,
E vermelho para invocar um feitiço.
Seda branca quando nossos corpos queimam,
Bandeiras azuis aos perdidos que retornam, pois teimam.
Chamas para o nascimento de um Nephilim,
E, para apagar nossos pecados, és um fim.
Cinza para o conhecimento que não deve ser dito,
Cor de osso para aquele que não envelhece, bendito.
Açafrão ilumina a cor da vitória,
Verde para um coração partido, almejando a glória.
Prata para as torres demoníacas, cor de adamas,
E bronze para invocar poderes malignos, nada mais."

Essa é uma rima infantil que aparece no livro "Cidade do Fogo Celestial" da Cassandra Clare. Ele é de uma saga chamada "Os Instrumentos Mortais", que faz parte de um universo muito maior, com outras trilogias, contos e spin-off's. Atualmente são 15 livros publicados ao todo e um sucesso internacional.

É um mundo do gênero literário baixa fantasia, ou seja, acontecimentos irracionais que não são casuais uma vez que ocorrem no mundo real, onde tais coisas não deveriam ocorrer. Resumindo: coisas sobrenaturais que se passam no mundo real.

O que são essas coisas sobrenaturais nesse caso? Demônios, anjos, vampiros, lobisomens, feiticeiros, fadas, e, no meio disso tudo, os caçadores de sombras (ou shadowhunters como ficaram conhecidos aqui no Brasil após a adaptação para uma série da Netflix). Os caçadores de sombras são metade anjo e metade humano e eles têm como objetivo de vida proteger a sociedade e os mundanos (pessoas comuns) dos demônios.

Marcados com símbolos específicos pelo corpo como se fossem várias tatuagens, eles se diferem dos mundanos fisicamente através de outra característica marcante: suas roupas. Eles seguem um esquema de cores no dia a dia que se difere no quesito significado.

Esse esquema é contado na rima infantil e, resumindo, significa que: usam preto para lutar, branco para o luto, ouro para casamentos, vermelho para cerimônias, seda branca na cremação após a morte e por aí vai.

As diferenças com o comum é grande, usar branco como manifestação do luto e vestido dourado no casamento por exemplo, mas é uma forma de classificar esse grupo, de dar uma identidade própria à eles.

É aí que entramos em um assunto muito interessante: a importância de descrever e criar esses detalhes nos personagens. Isso vale não só para livros, mas filmes e séries também.

Quando alguém fala de Star Wars, por exemplo, qual imagem se forma na sua cabeça? A roupa única do Darth Vader? O cabelo clássico da Leia? E se falar em Harry Potter? Lembra do óculos redondo e o raio na testa? As cores da grifinória em seu uniforme?

A caracterização de um personagem é uma ferramenta maravilhosa para dar vida à ele. Fica mais fácil para o leitor, no caso dos livros, criar uma imagem mental mais próxima da realidade que o escritor quer passar, e roupas específicas intensificam isso.

Quem leu essa saga e vê alguém com símbolos específicos no corpo usando uma roupa verde já vai saber que a pessoa é uma caçadora de sombras e está com o coração partido.

Essa é uma das magias da moda e da escrita juntas, o poder da identificação e do reconhecimento.

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