I lesbians “Scott Pilgrim Contra o Mundo”

Quando um filme começa com a logo da universal e a trilha em 8 bits, a nostalgia te atinge com um soco na cara e seu coração está investido automaticamente no que está por vir.

Scott Pilgrim Contra o Mundo” é uma das adaptações de HQ mais respeitadas do cinema, não apenas por manter o humor e muitos elementos gráficos da obra prima, mas por conseguir ao mesmo tempo ter uma linguagem própria, que deixou vários fãs apaixonados (me inclua neste grupo).

Mas vamos começar pelo começo.

A primeira história em quadrinhos de Brian Lee O´Malley, Lost at Sea, já mostrou que o rapaz era promissor. Com uma narrativa divertida e original, uma arte inocente e cativante e personagens carismáticos, a ansiedade para a próxima obra de O´Malley só aumentava. Não demorou muito e ele presenteou a nona arte com uma obra autoral de tamanha singularidade que não consigo sequer expressar o tamanho do meu amor — mas vou tentar.

Scott Pilgrim foi lançado em 2004 e recebeu aclamação crítica. A história do jovem canadense que dá nome ao quadrinho conquistou os leitores por tudo aquilo que Lost at Sea conseguiu, mas foi além, inserindo um formato único em sua narrativa, se destacando de outras HQs do gênero.

Se você assistiu o filme ou leu a obra original, já deve estar familiarizado com a trama, então vou passar bem rápido nesta parte: Scott é um jovem canadense de 23 anos que vive com seu colega de quarto, Wallace Wells. Nosso protagonista faz parte de uma banda chamada Sex Bob-Omb, está “namorando” uma colegial (o que gera piadas por parte de seu colega de quarto, de sua banda e bem, basicamente todo mundo) chamada Knives, mas começa a se apaixonar pela menina de seus sonhos (literalmente), chamada Ramona Flowers, que é basicamente a personificação da garota perfeita (ainda mais na adaptação cinematográfica, onde escolheram Mary Elizabeth Winsted, ou seja, melhor escolha de elenco impossível). Mas nem tudo é perfeito, já que Scott tem que derrotar os sete ex-namorados do mal de Ramona para que possam viver felizes para sempre. Ou algo do tipo.

Tem mais, mas deu pra resumir legal.

E como toda HQ de sucesso, uma adaptação cinematográfica é o próximo passo.

Quem recebeu a tarefa de adaptar foi um dos poucos diretores com competência para traduzir a narrativa, o visual, as piadas e as referências da HQ, o britânico Edgar Wright. Se você não o conhece, está perdendo trabalhos excelentes como a série Spaced e os filmes “Chumbo Grosso”, “Todo Mundo Quase Morto” e “Heróis de Ressaca” (os títulos originais são bem melhores, mas deixei como são mais conhecidos por aqui), que formam a “Trilogia Cornetto”. #Fica a dica.

Mas voltando para a adaptação.

Wright fez questão de ter ao seu lado o próprio O´Malley para auxiliar em alguns aspectos e supervisionar tudo para que fique fiel. Ou o mais fiel possível. Ou o mais fiel necessário.

Quando? 2010. Onde? San Diego Comic Con. Um dos paineis mais aguardados era o de Edgar Wright apresentando o elenco de “Scott Pilgrim Contra o Mundo”. O´Malley estava presente, o público estava louco, a ansiedade era gigantesta, o hype era maior que o mundo, rolou Michael Cera fantasiado de Capitão América…

Agora alguém pode me explicar como este filme não foi bem na bilheteria?

Esse é um dos maiores mistérios da humanidade, já que a crítica foi mais do que positiva e o filme acertou em tudo que deveria ter acertado. É um conforto saber que hoje, assim como outros clássicos ótimos que foram mal na bilheteria, Scott Pilgrim se transformou em uma das adaptações mais cultuadas, respeitadas e amadas de qualquer HQ.

Mas o que faz este filme tão fascinante?

Desde a cena de abertura, depois daquela intro da Universal que mencionei lá em cima da matéria, durante os créditos iniciais, você consegue ver o trabalho que Edgar Wright dá aos detalhes, como inserir desenhos que representam a personalidade dos personagens em uma forma de prever o futuro (um tipo de foreshadowing). Note as cordas quando o nome de Michael Cera surge, ou o skake durante o nome de Chris Evans (Lucas Lee), as marcas de café no de Anna Kendrick (Stacey) ou o coração partido de Brie Larson (Envy). Sem contar os X marcados toda vez que um ex malvado é mencionado, seja nos créditos ou durante o filme. É só prestar atenção, o X e o número de cada ex malvado estão sempre espalhados durante as batalhas.

Wright é conhecido por ser meticuloso com easter eggs e referências, então sempre recompensa o público que assiste o filme mais de uma vez. É só prestar atenção no que geralmente não damos importância.

Além das referências, o maior diferencial do filme é a direção de Edgar, que é um mestre na sala de edição e consegue brincar com as camadas do filme para deixar as situações ainda mais engraçadas. Poucos diretores conseguem trabalhar com uma comédia física de qualidade como este trabalha.

Wright queria que o filme seguisse a estrutura de um musical, mas ao invés de quebrar o drama com um número de dança, teríamos uma batalha entre Scott e algum ex malvado — sem abandonar a música (o protagonista tem uma banda, não vamos esquecer), é claro.

Falando na música, a decisão de chamar o cantor Beck (❤) e bandas como Metric para compor as canções foi outro enorme acerto. E também, quantas pessoas dedicam tempo realmente ensinando os atores a tocar ao invés de usar dublês ou algum efeito especial?

Mas não é só de ação e música que é feito um filme. A premissa pode parecer bem simples, mas a trama se desenvolve muito bem, mostrando o lado negativo de toda relação, que deve resistir vários testes e saber encarar o passado. Wright consegue cativar com a nostalgia de misturar seus jogos clássicos favoritos como Zelda e Pac Man, e ainda sobra tempo para explorar o formato de animes, se arriscar com a tipografia e os efeitos sonoros inseridos no momento certo e construir os personagens através de algo tão simples como cartões de apresentação. São estes elementos — entre vários outros- que deixam Scott Pilgrim cada vez melhor.

E sempre que sentir falta, pode escutar um pouco de Beck.