
IT FOLLOWS (2015)
Corrente do Mal
Vou ser bem honesto. De todos os gêneros cinematográficos, o terror é que andou me decepcionando mais vezes nos últimos anos (não me entenda mal, existe terror clássico que ainda não entendo a razão de serem tão cultuados — Mas vamos deixar isso para outra matéria). É por isso que quando chega um “Corrente do Mal” (ou It Follows, no original) na minha vida, aquele sentimento de alívio toma conta.
O filme começa com uma sequência de dois minutos. Uma jovem sai pela porta da frente, desesperada, vestindo sua camisola e salto alto, olhando para todos os lados a procura de algo que está claramente deixando-a cada vez mais assustada. Os vizinhos não entendem e seu pai está preocupado. Ela continua correndo. Pronto, fim da sequência.
Até aí, o que acabei de descrever poderia ser apenas mais uma cena qualquer de um filme qualquer. Mas é aqui que entra o diretor David Robert Mitchell. Nesta mesma sequência de abertura, toda cinematografia é muito bem trabalhada, desde a fotografia até os movimentos de câmera. Sabe quando nos primeiros minutos de um filme você para tudo e se sente realmente investido na trama sem mesmo que o plot maior seja revelado? Foi isso que aconteceu comigo. E a melhor parte é que estas características são mantidas ao longo da obra, o que faz de “Corrente do Mal” o filme do gênero com uma das composições mais belas que já assisti, tudo feito com um orçamento de dois milhões (considerado pouco), mas com aspecto de muito mais. É sério, a direção é uma maravilha, e não apenas pela parte técnica.
Mitchell consegue tratar o público com respeito, sem deixar a trama mastigada e explicar cada detalhe (coisa que até filmes bons como “Sobrenatural” fazem). É por isso que não vou entrar em muitos detalhes e apenas deixar o trailer, onde fica bem clara a premissa.
Em um filme onde o “vilão” é alguém (ou algo) que te segue constantemente, sem desviar o caminho, a tensão deve ser muito bem construída. E mais uma vez, o filme não decepciona e dá um tom claustrofóbico, quase incômodo para a obra. A própria câmera colabora com a proposta do filme, seguindo os personagens com zoom ou movimentos laterais que tentam desviar do perigo. Até mesmo o slow motion, uma ferramenta mal usada por muito diretor do gênero, é inserida nos momentos certos.
As referências também são muito boas. O ambiente que lembra filmes de terror da década de 70–80 é evidenciado pela excelente trilha sonora. Qualquer semelhança com o começo da franquia Halloween é mera coincidência (algumas sequências são até parecidas), ou não.
A intenção do diretor de brincar com alguns clichês do terror, mas não zombá-los, inseri-los naturalmente, deu ainda mais credibilidade ao filme. Isto pode ser perigoso, já que uma parte do público pode não entender a proposta e acabar taxando o longa como “sem sentido”. Falando no público, uma grande parte está reclamando da falta de “terror” em um filme de “terror”, se esquecendo que o gênero possui vários subgêneros e que um susto rápido através de um jumpscare ou uma criatura bizarra nem sempre são tão memoráveis quanto o incômodo, o desconforto e o psicológico da trama, que acaba criando muitos clássicos. Um jumpscare é geralmente mais irritante do que assustador (assista qualquer cena que usa a técnica mais de uma vez e a mesma perde todo o impacto) e uma trilha mal executada, berrante e chamativa costuma ser uma desculpa para muito diretor que não conseguiu uma cena impactante o suficiente. Tire a trilha de filmes como O Espelho e O Babadook — outras produções que foram uma alegre surpresa -, por exemplo, e ambos continuam atraentes visualmente. #Tivequedesabafar.
É claro que a obra de Mitchell não é impecável. Ainda existem alguns problemas em relação à inconsistência das motivações do “mal” do título ou das condições e regras que devem ser seguidas. Outro aspecto que me incomodou um pouco foram algumas atuações caricatas, que podem ser — assim como a decisão de abraçar os clichês do gênero — uma das intenções do diretor. Se bem que a parte da inconsistência também pode ter sido simplesmente uma licença poética e uma brincadeira com os clássicos de 70–80. Quem sabe? Ok, posso estar exagerando.
Mesmo com estas ressalvas, o longa melhora a cada assistida. A proposta de “Corrente do Mal” é bem simples, mas a execução é o diferencial. Toda a estrutura e a fórmula básica do gênero estão ali, mas desenvolvidas de forma convincente. Nada é aleatório, nada pretende enganar o público, e por isso a complexidade está nos detalhes. Detalhes inseridos em fotografias, no próprio enquadramento, nas ações dos personagens, na brincadeira com o anacronismo, no simbolismo em cenas e situações revisitadas de forma sutil e quase imperceptíveis na primeira vez que o filme é assistido, a crítica e a abordagem da discussão levantada sobre sexo, juventude e depressão, por exemplo, são algumas das várias razões deste terror estar sendo tão elogiado.
Espero estar errado, mas prevejo reclamar de muito lançamento do gênero muitas, muitas vezes mais (é só ver a lista ainda para este ano), mas é sempre satisfatório encontrar um “Corrente do Mal” entre tanto Ouija, Atividade Paranormal e Premonição enchendo sala de cinema.

