
MOONLIGHT (2016)
Dirigido por Barry Jenkins
Pelo seu comentário social, Moonlight poderia ter caído facilmente na categoria de filmes feitos com a pura intenção de agradar os votantes da Academia (os conhecidos oscar bait) este ano. Felizmente, aqui temos apenas um ótimo filme.
Dirigido por Barry Jenkins, Moonlight atravessa três períodos diferentes da vida do protagonista: sua infância, adolescência e vida adulta. O filme cria estes períodos em seguimentos que podem ser vistos cada um como algo próprio, um episódio da vida do personagem, mas é assistindo estes momentos em sequência que nos dá uma experiência ainda mais intensa.
A primeira seção é intitulada “Little” (apelido do protagonista), onde o encontramos na infância. Retraído e assustado, por ser considerado “diferente” pelos outros de sua mesma idade, está sempre de cabeça baixa e quase nunca fala, nem mesmo quando encontra na figura de Juan (Mahershala Ali) o conforto que nunca sentiu. Juan é um traficante, mas quebra muitos estereótipos se mostrando a figura mais acolhedora e compreensiva na vida de Little. Servindo como uma figura paterna e sendo um grande companheiro, ele sabe como interagir com o protagonista, que não consegue o mesmo de sua própria mãe (Paula, interpretada por Naomie Harris), que precisa se prostituir para poder pagar o vício em drogas.
Em seguida, quando chegamos ao segmento que leva o nome de batismo do protagonista, “Chiron”, a situação está cada vez pior. O adolescente está ainda mais sozinho, sofre bullying constantemente, sua mãe está cada vez pior por conta do vício e seus conflitos internos se tornam um peso grande demais para carregar. Esta parte da história traz um acontecimento que faz com que os questionamentos de Chiron sobre sua sexualidade se intensifiquem.
“Black” é o nome do último capítulo e o novo apelido de Chiron, agora adulto. Ele segue os mesmos passos de Juan, mas com um visual mais intimidador e uma atitude mais resistente, de alguém que desistiu de tentar se abrir para o mundo. Mas depois de um acontecimento inesperado, se encontra frágil mais uma vez, sem saber se pode ou não confiar até mesmo nas pessoas mais próximas.
A jornada de Chiron é dirigida por Barry Jenkins de forma sensível e envolvente. Mesmo em partes sendo bastante concentrada e bem objetiva, sem muitos rodeios, as habilidades técnicas de Jenkins não deixam de lado o cuidado com momentos de silêncio e reflexão, e isso faz com que o filme respire como poucos. Com cores intensas e vibrantes, o trabalho fotográfico é exemplar e as insinuações visuais são mais uma das surpresas que este filme traz. A composição original de Nicholas Britell, utiliza violinos e pianos para contrastar o ambiente de tensão das ruas e no caso de Chiron, dentro de sua própria casa.

A consciência em saber quando omitir algo ou expor um sentimento da forma mais poderosa possível é uma das maiores conquistas deste filme, é a câmera descansando e examinando o rosto de um Chiron tentando se manter reservado enquanto escuta uma música na jukebox que claramente toca ele profundamente. Você não precisa de palavras, está tudo lá e você consegue entender cada sensação que Moonlight confere.
Mesmo sendo interpretado por três atores diferentes, Chiron nunca deixa de ser interessante. Alex R. Hibbert, Ashton Sanders e Trevante Rhodes são o protagonista em cada segmento, respectivamente. Cada um tem uma tarefa diferente com o personagem, e na soma de todos está uma figura que merece cada segundo em tela. Vale a pena destacar o esforço de Naomie Harris, que precisou gravar suas cenas em apenas três dias e o resultado foi surpreendente, rendendo até uma indicação ao Oscar.
Nas mãos de outro diretor, poderia ter sido mais uma obra indulgente e sem emoção, apenas um olhar vazio sobre o tema. Felizmente, Jenkis entrega um filme poderoso e um estudo de personagem que ultrapassa a película e em momento algum deixa de ser provocante.

