Porque você deveria estar lendo “Hawkeye” (Gavião Arqueiro), de Matt Fraction

Pode ir parando por aí se for falar que “ele é o vingador mais inútil”, porque ele… bem, ele é — Mas é exatamente isso que faz dessa HQ uma das melhores criações da casa das idéias.

Matt Fraction é uma das aquisições mais inteligentes da Marvel. Depois de trabalhar com alguns dos principais personagens da editora (X-Men, Homem de Ferro, Thor, a saga Fear Itself…) e sempre estar desenvolvendo algum material autoral para Image Comics (Sex Criminals), Fraction começou a ser reconhecido pela versatilidade e a habilidade narrativa, além de trabalhar ao lado de outros ótimos talentos como Leinil Francis Yu e Olivier Coipel (que esteve na CCXP esse ano). Mas foi ao lado de David Aja que Fraction conseguiu surpreender muitos leitores, ao criar a nova série do Gavião Arqueiro.

O Gavião nem sempre foi visto como o “vingador mais inútil” (claro que essa fama veio dos filmes, já que nem todos querem saber como é uma HQ, infelizmente). No começo, lá na década de 60, quando o personagem foi criado, o mesmo foi concebido como um vilão, depois passou para herói, conseguiu integrar os vingadores, chegou até a assumir a identidade do Capitão América, e sempre foi visto com respeito por todos, até que saiu o filme e as piadas na internet. Esta foi a sacada de Matt Fraction, que decidiu usar a fama do personagem para desenvolver uma HQ inteligente sobre o dia-a-dia do vingador que mais sofre e recebe menos reconhecimento do que uma ex-espiã assassina, um monstro verde que destrói cidades com um bater de palmas e até mesmo um vilão que traz uma invasão alienígena para o planeta (não é nada fácil ser honesto hoje em dia).

Na série Hawkeye, temos mais Clint Barton do que Gavião. Isso era pra ser uma coisa boa? CLARO! Você sabe que a história é boa quando temos tudo o que essa HQ oferece, como personagens interessantes, tramas envolventes e divertidas e uma arte que combina perfeitamente com o roteiro. Agora vou te dar alguns motivos, razões e circunstâncias para você entender tudo o que está perdendo se não estiver seguindo a série.

Os personagens

Para começar, temos o protagonista Clint Barton, que vive se machucando, sendo ameaçado (seja pela máfia ou pelas ex namoradas), tendo problemas com dinheiro, reclamando da vida e sofrendo até mesmo com a instalação do aparelho de DVD (quem mais chamaria Tony Stark, o importante e ocupado vingador, para instalar um aparelho de TV?) na sexta edição, “Seis Dias na Vida”

Além disso, temos os coadjuvantes (mas que poderiam facilmente ter sua própria HQ), como Kate Bishop, a Gaviã, que depois de abandonar a casa do pai e o dinheiro do mesmo, decide se mudar e atuar como heroína de aluguel.

Temos também o cachorro de Barton, apelidado de Lucky, que sofreu bastante na mão da máfia, chegou até a perder o olho esquerdo, mas foi salvo pelo herói e já foi protagonista em uma edição.

E muitos outros, como o irmão do Gavião, alguns heróis que aparecem aqui e ali, alguns vilões como a madame Máscara e até um vizinho que está sempre na churrasqueira ganha um espaço interessante.

Mas como estas situações tão “não heroicas” e personagens comuns podem fazer de Hawkeye uma HQ indispensável? Graças ao…

O roteiro de Matt Fraction e a arte de DAVID AJA

Fraction conseguiu desenvolver uma narrativa inteligente, aproveitando cada página para construir um formato divertido e dinâmico para contar os dias da vida do vingador. Não basta ter personagens interessantes, eles devem ter seus momentos, situações bem elaboradas e contribuir para uma trama que funcione, e aqui a trama funciona como poucas conseguem hoje em dia. É só ler algumas edições que inovaram no formato e chamaram a atenção dos mais críticos no assunto (sem contar das premiações, como o Eisner). Algumas edições memoráveis e indispensáveis são a 11, “Pizza is my Business“, que tem o cão Lucky como protagonista. O cão usa seu faro apurado para desvendar o mistério de um assassinato (a narrativa é desenvolvida de um modo tão inteligente e diferente, que nem a maior das batalhas ou sagas poderia desviar sua atenção).

Outra é a edição 19, feita para deficientes auditivos. Aproveitando a perda de audição temporária do protagonista, a HQ usa o formato silencioso e interage de um modo brilhante.

Esses são só alguns exemplos em uma série de apenas 22 edições, que ainda tem momentos solo de Kate Bishop (merece uma hq só dela ein), e quanto mais Kate, melhor

Mas uma série dessas não chega a ser tão boa assim apenas com um roteiro inteligente, ela precisa de arte, e a arte do espanhol David Aja (o colaborador principal) é simples, animada, alegre e é sempre comparada com a do renomado artista da era de prata, Jim Steranko. O traço e a arte final dão o tom da HQ, que também recebe ocasionalmente a participação de outros talentos como Javier Pulido, trazendo uma incrível habilidade em captar o movimento em cada painel. Fraction soube se envolver com os melhores, cada artista trouxe sua própria palheta mas compreendeu bem a atmosfera da série.

Diálogos inteligentes, trama divertida, arte de primeira, personagens bem construídos, açúcar, tempero e tudo que há de bom fizeram com que um dos personagens mais interessantes da Marvel deixasse de ser pouco aproveitado e acabasse sendo considerando um dos melhores lançamentos da editora e dos quadrinhos em geral. Hawkeye aproveitou que o Homem-Aranha agora é “Superior” e acabou sendo o novo cara normal com o qual todos nós nos identificamos.

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