Silence | O projeto mais pessoal de Scorsese

Martin Scorsese já está na industria cinematográfica faz meio século, e não é considerado um dos maiores diretores em atividade por acaso. Ele pode dedicar uma boa fatia de sua filmografia no gênero gângster (onde talvez ninguém jamais o supere, mas eu posso estar exagerando), mas também é um dos diretores mais versáteis que o cinema já teve.

Se em um ano pode lançar obras como Ilha do Medo (2010), não é problema algum seguir um rumo completamente diferente e dirigir algo mais animado e “infantil” como A invenção de Hugo Cabret (2011) na sequencia. Em 2013, surpreendeu com O Lobo de Wall Street, um drama de humor negro sobre o estilo de vida absurdo e extravagante de um dos maiores golpistas trabalhando em uma das maiores empresas do mercado de ações. O próximo filme de Scorsese só poderia ser uma jornada sobre fé e religião no século XVII.

¯\_(ツ)_/¯

Baseado no romance homônimo de Shûsaku Endô, Silêncio conta a história de dois missionários católicos à procura de Ferreira (Liam Neeson), um mentor e figura importante para sua igreja. Os padres Rodrigues (Andrew Garfield) e Garupe (Adam Driver) embarcam para o Japão, em uma época onde o catolicismo não era permitido e a presença dos seus pregadores era proibida.

Mais uma vez, Scorsese entrega uma direção quase impecável, desta vez com atenção ainda maior para longos planos e sequencias bem elaboradas. Por ser um projeto que passou por décadas sendo planejado, o diretor decidiu não se arriscar demais com algumas de suas técnicas recorrentes, como deixar os atores confortáveis para improvisar (respeitando o roteiro, é claro). Mesmo assim, o elenco está maravilhoso.

Adam Driver e Andrew Garfield

Adam Driver perdeu mais de vinte quilos para interpretar Garupe, e felizmente não fez um bom trabalho apenas fisicamente, mas trouxe um personagem que serviu como contraste perfeito para as constantes crises de fé de Rodrigues.

Garfield, que interpreta Rodrigues, pode ter agradado o público com seu papel em Até o Último Homem (Hacksaw Ridge, 2016), mas surpreende em Silêncio. Movido pela fé, Rodrigues é um homem cheio de questionamentos e desejos, com uma força de vontade inacreditável. É um personagem envolvente, nunca perde o motivo para ser uma das principais atrações do filme.

Com protagonistas instigantes, Silêncio também conta com alguns coadjuvantes que merecem destaque. Issei Ogata é um velho samurai com um propósito bastante simples, mas seu desentendimento com Rodrigues cria algumas das melhores cenas do filme, com diálogos consistentes e embates muito bem construídos. Mas talvez a minha surpresa favorita tenha sido Yôsuke Kubozuka, interpretando Kichijiro, o personagem mais complexo do longa. Kichijiro é um dilema ambulante, servindo algumas vezes como uma forma de alívio cômico ou calmaria durante um grande momento de tensão, mas é dele que vem o passado mais trágico. Sua relação com a fé e os padres é um dos pontos altos do filme.

Garfield e Yôsuke Kubozuka

Assim como fez em A Última Tentação de Cristo (1988), Scorsese deu uma visão pessoal para sua narrativa enquanto tenta manter o máximo de fidelidade ao material original. O próprio Endô chegou a reprovar a primeira adaptação do livro em 1971, Chinmoku, de Masahiro Shinoda. O respeito e a reverência de Scorsese para o assunto, com atenção extra para ligações e alusões bíblicas, como um efeito e o uso de um som específico durante a cena mais importante do filme, mostram o quão pessoal este projeto é para o diretor.

Com quase três horas de duração, o filme perde um pouco do seu fôlego, com a narração em excesso de Garfield e algumas decisões curiosas do diretor para um debate mais profundo sobre assunto. Felizmente, isso é compensado com a fabulosa direção de arte de Rodrigo Prieto, que conseguiu uma fotografia coberta por névoas, deixando um ambiente quase labiríntico, principalmente em alguns segmentos de navegação. Prieto encontrou as belíssimas paisagens do filme em Taiwan, onde o filme foi filmado, rendendo panorâmicas inesquecíveis.

Depois de décadas sem ir pra frente, Silêncio é um grande esforço de Scorsese, e mesmo que não tenha a fluidez de seu filme anterior (O Lobo de Wall Street, que teve uma duração maior), o resultado final ainda é uma obra gigantesca de qualidade inquestionável. É um dos maiores desafios da carreira de um diretor que já provou mais de uma vez que cinema é uma arte que compensa o desafio.

Scorsese acerta novamente.

Scorsese dirigindo Andrew Garfield
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