
UM ESTRANHO NO NINHO (1975)
A maldição da rotina.
Dirigido por Milos Forman, responsável por filmes como Amadeus (1984) e o musical Hair (1979), Um Estranho no Ninho (1975) atraiu a atenção do público com um enredo intrigante e ótimas performances, tanto que chegou a receber várias indicações ao Oscar e ser um dos poucos filmes que conseguiu vencer em todas as categorias principais (Melhor Filme, Diretor, Ator para Jack Nicholson, Atriz para Louise Fletcher, e Roteiro). Mas este filme não continua comigo apenas pelo seu apelo cinematográfico, mas pelo seu comentário sobre como podemos ser afetados pela forma como nos inserimos na sociedade e administramos nossa vida.
No filme, McMurphy (interpretado brilhantemente por Jack Nicholson) é o novo paciente de uma instituição para doenças mentais, mas fez isso para fugir da prisão, após ser acusado de abusar de uma menor de idade. Mal sabe ele que ao contrário de uma pena definida pelo estado, estará sujeito aos médicos da instituição, que não parecem gostar muito de sua atitude rebelde e só vão liberar o rapaz quando bem entenderem.
Baseado no livro homônimo de Ken Kesey, o filme faz pequenas mudanças na sua adaptação, mas mantêm as suas características principais. Por ter sido escrito na década de 60, muitos dos tratamentos utilizados na época foram mantidos na versão cinematográfica para mostrar a realidade de como eram tratados os pacientes, que podiam sofrer várias penalidades de acordo com suas transgressões, sendo a maior delas a lobotomia.

McMurphy é um espírito livre, sempre tentando animar os outros pacientes que sofrem com a supervisão da diabólica e intimidadora enfermeira Ratched. Ele não toma os remédios, constantemente fala mais que o permitido e incita o tumulto. Em uma das melhores cenas do filme, McMurphy descobre porque a enfermeira possui tamanha influencia sobre seus pacientes, e não é pela condição mental deles e sim por escolha própria. Nem todos ali sofrem de alguma doença mental, mas se internaram voluntariamente por acharem que não conseguem funcionar fora daquele lugar. O protagonista fica indignado e diz que eles deveriam estar fora dali “dirigindo conversíveis e transando”, para ele as “pessoas reais” são as do hospício, enquanto a enfermeira e seus funcionários servem como uma figura autoritária, que não merece ser considerada como os outros, mesmo que ela realmente acredite no que faz e sinta que faz “o certo”.
Mais adiante no filme, o que deveria ser apenas um passeio guiado pela própria instituição acaba se transformando em outro ato de rebeldia de McMurphy, que consegue “sequestrar” o ônibus e levar os seus companheiros para pescar. Eles fogem e podemos ver como todos conseguem se comportar bem fora do instituto, mesmo com seus pequenos deslizes, parecem livres.
Sabendo que em algum momento terão que retornar, suas características anormais voltam a tomar conta. Mesmo burlando as regras e enganando o sistema de segurança, o maior obstáculo está dentro de cada um deles. E com o passar do tempo, até McMurphy começa a ser afetado. A rotina começa a destruir o herói, que fica cada vez mais nervoso e apreensivo, chegando a aproveitar uma noite para dar uma festa com bebidas e até mesmo convidadas (duas amigas que McMurphy que entram escondidas). É onde tudo dá errado.
Na manhã seguinte, a enfermeira Ratched encontra o local de cabeça para baixo. Tudo está fora do lugar e seus pacientes não estão do jeito que ela gosta. Sua ordem exige opressão e ela se aproveita disso para disparar contra os pacientes aquilo que eles mais temem. Um deles, Billy, após ser lembrado de como sua mãe ficaria completamente decepcionada com seu comportamento irresponsável, chega a cometer suicídio. Isso faz com que McMurphy deixe de lado seu plano de fuga e ataque a enfermeira, tentando enforcá-la, mas os seguranças o atacam e deixam-no inconsciente.
A cena seguinte mostra um dia comum, calmo, sem exaltações. Todos estão aproveitando a hora da medicação. A enfermeira continua no seu posto, os pacientes estão curiosos para saber o que aconteceu com McMurphy. A triste revelação é a de que o protagonista sofreu a lobotomia. Logo ele que entrou ali voluntariamente, alegando ser o único “normal”, acabou sofrendo as consequências de não conseguir se adaptar aquele mundo.

O filme possui vários comentários interessantes sobre a sociedade, questionando o que é ser normal, o que é a loucura e como podemos deixar de lado nossa própria liberdade em troca do conforto e do medo de se arriscar.
É uma das obras mais intrigantes do cinema e possui muito mais elementos interessantes que podemos analisar com outras assistidas, mas apenas esse já é o suficiente para nos fazer pensar em como não estamos tão longe de ser como os pacientes dessa instituição, como deixamos a rotina tomar conta de nós e como nos arriscamos tão pouco, vivendo com medo de um fracasso que talvez sequer chegue a nós. Estes medos que todos enfrentamos é muitas vezes irracional e por isso não faz mal correr o risco e tentar ser um estranho no ninho de vez em quando, afinal, só sofreremos a lobotomia se desistirmos. Edgar Alan Poe já dizia que nos tornamos insanos após longos períodos de terrível sanidade.

