A Grande Abóbora

“A véspera de Todos os Santos tá aí. Durante a noite, a Grande Abóbora sai do campo de abóboras e leva presentes, para todas as crianças boazinhas”

A Enciclopédia Católica define o Dia de Todos os Santos como uma festa em “honrar a todos os santos, conhecidos e desconhecidos”. Dia de Cailleach é o dia de Todos os Santos original, de uma divindade ancestral. Neste dia, no Samhain, acendiam-se velas dentro de nabos para a celebração do fim do verão. Existe a história do Jack, um bêbado que não pagava suas bebidas, enganou o Diabo, não entrou no céu depois de morto, obrigado a carregava tais lanternas. A tradição dos irlandeses ganhou um upgrade aqui nas américas, perceberam umas frutas rasteiras que era melhores e mais abundantes. A abóbora.

A palavra Cailleach significava “a mãe anciã” ou “a velha”, mais tarde “a anciã que está de véu”. por vezes usado como sinônimo de bruxa na Irlanda e na Escócia. Já Bheur, a sua origem é desconhecida. Berry, uma das suas variantes, significa “baga” em inglês. Não sei porque, lembrei de Baba Yaga. Que é a bruxa de Jõao e Maria. Pelo menos, em algum conto original, ou em alguma coisa de Gailman.

Bom, depois da ocupação romana, o que era o ritual de Samhain (“fim do verão”) foi adaptado, mudado e transfigurado para o Dia de Todos os Santos no Cristianismo / Catolicismo, aquela religião quase politeísta. Houve uma fusão com o dia dos mortos, que para brasileiros é o Dia de Finados. Em várias culturas há um tipo de celebração ao mortos, os que nos deixaram. Com os celtas também. Mas com a mistura de festividades e mudanças de datas, por conta da intervenção política-religiosa do cristianismo, atrelado às autoridades romanas, durantes os séculos transformaram o que conhecemos hoje por Dias das Bruxas, Dia de Todos-os-Santos, e Dia dos Mortos.

Em países de língua inglesa, 31 de outubro não é dia das Bruxas, é apenas Halloween, que cada vez mais é difundido aqui. E no Brasil, 2 de novembro é Dia de Finados. Não é uma data lá muito alegre, culturalmente aqui. Foi o Papa Bonifácio (Bibbidi-Bobbidi-Boo) que cozinhou isso tudo num caldeirão. Inclusive pegou um templo dedicado ao deuses romanos e transformou-o num tempo cristão e o dedicou a “Todos os Santos”, e já havia uma espécie de comemoração de “Todos os Mártires”.


Mas veja como o ser humano é troll. Na Idade Média havia o costume de se pedir nas casas bolo em troca de oração pelos familiares falecidos. Isso era no dia dos mortos de lá, o Souling. Isso evoluiu para a entrega de um doce sob ameaça de fazer uma travessura. “Doce ou Travessura”, minha senhora.

Mas isso vem de uma época complicada, que tem perseguição protestante contra os católicos (1500–1700), Conspiração da pólvora, e nisso ocorreu visitar as casas dos católicos para exigir deles cerveja e pastéis, dizendo-lhes: trick or treat. É, essa parte poderia ter ficado…

De qualquer forma é entre o pôr-do-sol do dia 31 de outubro e 1° de novembro, que ocorre a noite sagrada, onde o véu entre o mundo dos vivos e dos mortos está mais tênue.

“De tais seres ou potestades superiores pode ser concebida uma sobrevivência… uma sobrevivência de um período fantasticamente remoto onde… a consciência se manifestava, talvez, em vultos e formas desde então repelidos pela maré montante da humanidade… formas das quais apenas a poesia e a lenda captaram uma memória fugaz e as chamaram deuses, monstros, seres míticos de todos os tipos e espécies…”

Algernon Blackwood

Como as almas estão passeando pela Terra, as pessoas estranhamente saem fantasiadas. Deve ser por solidariedade. Os monstros também. Os ícones são vampiros, lobisomens, Frankenstein, bruxas, múmias, entre outros.

O vampiro mais famoso da literatura foi criado por Bram Stoker, no livro publicado em 1897. Mas no livro não há o termo ‘’vampiro’’. É usado ‘’ Nosferatu’’. A narrativa da obra é escrita em diários e cartas escrito pelos personagens principais.

Frankenstein, na verdade O Monstro de Frankenstein, ou Frankenstein, o Moderno Prometeu. Romance de terror gótico, escrito por Mary Shelley quando tinha 19 anos.

(…) Sua pele amarela mal cobria o relevo dos músculos e das artérias que jaziam por baixo; seus cabelos eram corrido e de um negro lustoso; seus dentes eram alvos como pérolas. Todas essas exuberâncias, porém, não formavam senão um contraste horrível com seus olhos desmaiados, quase da mesma cor acinzentada das órbitas onde se cravavam, e com a pele encarquilhada e os lábios negros e retos (…)

Lobisomens já vem da mitologia grega, e permeia muitas outras culturas pelo mundo. Diretamente do Wikipédia: “O Licantropo dos gregos é o mesmo que o Versipélio dos romanos, o Volkodlák dos eslavos, o Werewolf ou Dracopyre dos saxões, o Werwolf dos alemães, o Óboroten dos russos, o Hamtammr dos nórdicos, o Loup-garou dos franceses, o arbac-apuhc da Península Ibérica, o Lobisomem dos brasileiros e da América Central e do Sul, com suas modificações fáceis de Lubiszon, Lobisomem, Lubishome; nas lendas destes povos, trata-se sempre da crença na metamorfose humana em lobo, por um castigo divino.

Em romances medievais, como Bisclavret, e Guillaume de Palermo, a figura do lobisomem é relativamente benigna, aparecendo como vítima de magia negra e auxiliando cavaleiros errantes. Já passei por isso em algum RPG. Aí, com a influência de religiões (adivinha?) o lobisomem passou a ser uma besta satânica faminta por carne humana. Muito mais tarde, em 1839, em um episódio no romance Navio Fantasma, que explora a lenda do Holandês Voador, é apresentado um lobisomem. Spoiler: é uma mulher!

O Médico e o Monstro, mesmo quem não leu, conhece a história, do doutor que bebe uma fórmula e se transforma num “monstro”. Dr. Jekyll e Mr. Hyde foi escrito por Robert Louis Stevenson publicado em 1886.

Stephen King considerou três grandes clássicos do gênero, sendo os outros dois Frankenstein, Drácula e O Médico e o Monstro.

“É desolador, pensar que tem alunos que não acreditam na Grande Abóbora.”
Linus Van Pelt

No momento, Linus, estamos aguardando sim, a chegada da Grande Abóbora. Mas dessa vez ela se erguerá do grande canteiro de abóboras que é o espaço sideral. Basta lembrar de Plano 9 do Espaço Sideral, o pior e melhor filme de todos os tempos (obrigado Ed Wood). Tinha Bela Lugosi, eterno Drácula, além de Vampira (Maila Nurmi, a primeira Elvira) e mortos vivos, e Tor Johnson, que virou uma máscara de Halloween!

Tor, muito menos assustador que o Batista que atropela pessoas de bicicleta

A ideia da bomba ainda tá valendo? Não importa, porque está chegando o TB145, que vai por tudo isso aqui abaixo, levantar os mortos, abrir o portal para os infernos e tirar aquela menininha da televisão. Mas de verdade, vamos voltar para casa, cansados e com a sacola cheia de doces.

Se os irlandeses tivessem vindo para a América do Sul, o Halloween poderia ter lanternas de outra fruta, introduzida aqui no século XVI, mesma época da colonização dos Estados Unidos da América e estaríamos festejando a chegada da Grande Melancia.


publicado originalmente num cemitério em 30 de outubro de 2015

Flavio B. Vila Verde

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[…] Quando arquiteto, […] enfim, me ferrei. Às vezes escrevo; A vida é uma dívida

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