Criação

Olá, leitores malditos e escritores amaldiçoados! Começando uma cronologia onde o tempo flui e se constrói a partir do agora. Cronologia como ciência insere-se numa maior, a História. Mas não é essa a História que teremos. Serão outras histórias que serão contadas, discutidas, apresentadas…

Cada conjunto de palavras, cada livro, é um universo próprio ou, na verdade, uma representação do universo de alguém. Desde Mein Kampf, passando por Senhor dos Anéis, fazendo uma voltinha de avião com O Pequeno Príncipe. Muitas cabeças, muitos mundos, muitas histórias. Uma pesquisa rápida e você descobre que devemos ter uns 130 milhões de livros já publicados. Não sei se está incluído nessa conta os livros digitais. Ou ainda, blogs, sites… Exitem ainda coisas como Wattpad e Projeto Gutemberg. E a população humana está crescendo, incluindo número de leitores e escritores. Tá certo que a maioria de escritores não é um Dante da vida, um Shakespeare, Tom Wolf ou um Guimarães Rosa. Nos contentamos com J. K. Rowling, Paulo Coelho. Até José Sarney e Bruna Lombardi escrevem! Mas, sempre podemos fazer negócio tal como em Fausto — Goethe nos perdoe.

Mas não duvide de que a maioria das coisas por aí são mal escritas. Livros, contos, e-mails, propagandas… Erro de vírgula, putz! Pode olhar. Nesse texto aqui mesmo. E lembro de uma história que envolve vírgulas, impostos e bananas. Mas conheço uma boa sommelier de vírgula que poderia ajudar muitos governos.

Zinsser reafirma que a essência da boa escrita é a re-escrita. Quem aprende programação sabe que é preciso ler código, escrever código. Uma frase verdadeira de Clarisse Lispector é “Que ninguém se engane, só consigo a simplicidade através de muito trabalho.” E uma língua é um código. Precisamos ler e escrever, ler muito e escrever muito. A programação de computadores reflete isso.

Leitura, read (em inglês; rædan, inglês arcaico): a maioria das línguas usam uma palavra enraizada na ideia de “recolher” como sua palavra para “ler” (françês lire, ou latim legere). Literatura, do latim litteratura, que quer dizer “aprendizagem, uma escrita, gramática,” originalmente “escrita formado com letras”. Cartas, Letter de littera, que é símbolo gráfico, sinal alfabético, carácter ‘escrito’. Provavelmente uma corruptela do grego diphthera, couro, tábua (tablet?). Littera também significava “uma escrita, documento, registro,” e em plural Litterae “uma carta, epístola”. A palavra em latim também é a fonte de Literatura em espanhol, Letteratura em italano e Literatur em alemão.

Então, literatura, em seus diversos tipos de narrativas, servem para contar histórias, trazer conhecimento. Como em Dom Quixote onde — aqui, um pouco de metalinguagem — a narrativa dá a conhecer o interesse literário que move o cavaleiro. Jack Kerouac em sua técnica em prosa espontânea, parecida com a do fluxo de consciência. Ou, o contrário. E Ana Maria Machado, com entrecruzamento de espaços, tempos e histórias. De qualquer forma, podemos ter inúmeras maneiras de contar uma história.

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A narrative or story is any report of connected events, actual or imaginary, presented in a sequence of written or spoken words, or still or moving images. (Oxford English Dictionary (online): Definition of “narrative”).

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A narrativa e a criação dos mundos que transpassam da mente do indivíduo escritor para o papel (ok, sou do tempo do papel) para a mente do leitor. E, para mim (não poderia deixar de ser) literatura também é história em quadrinhos. Estamos deixando a carga cultural de que quadrinhos é coisa para criança ou de que não-é-coisa-de-criança (um abraço por trás, Carlos Zéfiro).

Quadrinhos transcende as palavras, levando ao leitor mais uma arte para os olhos da alma. E novamente, assim como existe escrita ruim, existe desenho ruim. Admita aqui desenho incorporando o traço, o estilo, as cores.

Por último, o produto que qualquer escritor tem que vender não é somente o objeto o qual escreveu, mas quem ele é. Provavelmente faz isso movido pelo entusiasmo de quem está criando, a alma de artista, pela arte do texto, seu conhecimento, criando seu estilo.

Existem vários tipos de escritores com diferentes métodos para escrever. E qualquer método que ajude o escritor a dizer o que quer dizer é o método certo (ou quase). Uns gostam de fazer durante o dia, outros durante à noite. Uns precisam de silêncio, outros de barulho, outro ainda se sentem melhor com música, ou mesmo um tema musical ou ainda ouvindo rádio. Outro ainda gostam de estar em praças ou shoppings, para ouvir o que as pessoas falam, de que jeito elas falam. Ou simplesmente, observar o comportameto humano. Uns escrevem muito de uma única vez e depois fazem a revisão. Outros não conseguem passar para o segundo parágrafo antes refazer o primeiro umas cinco vezes. O problema é que todos os métodos estão sujeitos a erros, a provocar tensão em quem escreve. Acontence a quem senta para escrever ficar em um nível de tensão tão grande que se manifesta até no que põe no papel. Nesse estado, terá dificuldades para se expressar com naturalidade. Porém, pode-se orar pela benzendrina.

Essa é a maldição que aprisiona os escritores. E também os leitores, aqueles cativos e ansiosos pela próxima página, pelos capítulos seguintes, pelo novo livro.

Até a próxima!

*Originalmente publicado em 5 de setembro de 2015