Então, estamos no Futuro! Bem vindo de volta

Uma das melhores trilogias de todos os tempos. É, já estamos no futuro. Neste exato momento em que este artigo é publicado, um DeLorean DMC-12 de placa com códigos de barra 136113966, atravessa os céus de Hill Valley (ou a pracinha em Gremlins, “Colina do Vale”. De verdade, é na Califórnia mesmo. E pelo fuso horário, “04:29 da tarde” lá, aqui é 8 e 29 da noite, “se meus cálculos estiverem corretos”.

A série foi uma das primeiras, dentre poucas, a gravar dois filmes ao mesmo tempo. E o final do segundo filme é incrível. Se você lembrar do começo, o comentário de Doc Brown sobre o correios, vai pegar a referência interna. Quem viu pela primeira vez, é daquelas coisas de explodir a cabeça. E explode de novo, quando há um encontro do Doutor com Marty. É assim que se encerra um filme de meio! E logo depois tem o trailer do terceiro. Seth McFarlane fez uma homenagem em sua paródia de Star Wars em Family Guy, de como se termina um filme.


Great Scott!

No primeiro filme, McFly vai para o passado, e o Doutor Brown o ajuda a voltar para o futuro [dele]. “Precisamos de te levar de volta para o futuro!” quase quebrando a quarta parede. O segundo, a Parte II, é quando ele vai para o futuro, nosso presente 2015, e volta para seu tempo em 1985 (nosso passado, hoje), e depois volta para o passado quando se passa o o primeiro filme, para depois de resolver os problemas, voltar para o futuro (daquela época). O terceiro, é que Marty não volta para o tempo dele (1985), mas vai para 1885. Aí, é outra história. Complicado? O filme é tão divertido, que você nem se prende a essas coisas, ao erros e incongruências, e entende tudo.

Engraçado que no filme, o personagem de Christopher Lloyd, sobre a data do baile em 1955:

Essa data deve ser algum ponto de convergência no espaço-tempo contínuo… ou então pode ser uma grande coincidência.
Emmett Lathrop Brown

Então, vamos rapidamente para 1955.

Em 1955, o Nobel de Literatura foi para Halldór Laxness, conterrâneo de Björk e da banda Sigur Rós. Esse islandês escreveu com 14 anos seu primeiro artigo, publicado num jornal. Foi autor de mais de cinquenta romances na carreira, além de poesia, artigos de jornal, peças de teatro, contos , com a grande maioria, desconhecida para nós brasileiros e outros nativos de língua portuguesa.

E em nossas terras, Onestaldo de Pennafort Caldas foi o ganhador do Prêmio Machado de Assis. Poeta e tradutor brasileiro, no ano seguinte ganhou outro prêmio (Associação Paulista de Críticos de Arte) pela tradução de Otelo (Shakespeare).

Em novembro de 55 foi o lançamento do Guinnes Book, além de outros livros interessantes. E melhor ainda, foi também o lançamento da Infinity Science Fiction. Que nome fantástico para uma revista. Vejam só essa primeira capa:

Primeira edição da Infinity Science Fiction, em novembro de 1955

Publicou histórias de Isaac Asimov, de Arthur Clarke e de William Tenn (Philip Klass), esses dois em novembro de 55, e Clarke ganhou um Hugo pelo conto “The Star”. E o conto de Tenn, The Sickness, se passa em Marte. E é uma história boa que merece um filme ou quadrinho.


1,21 Gigawatts!!!

Como possibilidade teórica a viagem no tempo foi pincelada pelo filósofo francês D’Alembert, em sua “Encyclopedie”. Era um conceito matemático, onde o tempo é uma quarta dimensão. Com equação e tudo! E não deixa de mencionar que pode ser contestado. Mas até Os Incas e outros povos do Andes consideravam o espaço e o tempo uma coisa só. Se referiam como Pacha. Outros cientistas foram trabalhando nesse conceito de dimensão extra, a antiga ideia de Cosmo sendo descrita por equações diferenciais e álgebra abstrata. Lagrange, Faraday, Maxwell, avançando até o Espaço de Minkowski. A definição do que é isso soa como ficção científica, mas resumindo, é o espaço quadridimensional . Para entender, veja o que o Doc explica para Marty no terceiro filme aqui e aqui.

“You’re not thinking fourth dimensionally.”

A ideia de um espaço-tempo também é afirmado por Edgar Allan Poe em seu ensaio pouco conhecido sobre cosmologia, Eureka, em 1848 que ‘Espaço e tempo são um’ (“Space and duration are one”). Schopenhauer, filósofo que introduziu o pensamento indiano e alguns dos conceitos budistas na metafísica alemã e nas músicas baianas atuais (ainda não acredito nisso…) fala bastante sobre o espaço e o tempo, e como percebemos o mundo.

Essa aura “científica” trouxe a possibilidade de encontrar uma verossimilhança procurada pelos escritores na literatura. Mais tarde Einstein afirma em sua Teoria da Relatividade que o Tempo não é um meio distinto do Espaço, e sim continuum espaço-tempo formando a Quarta Dimensão.

Considerada uma das primeiras ficções científicas, em 1771, o francês Sebastien Mercier, nos conta a história do personagem principal, sem nome, após debater sobre as injustiças de Paris, adormece e se encontra numa Paris do futuro. Não existem mais exércitos, nem escravidão, nem impostos, nem religiões, nem tabaco(!). Apesar das extrapolações geopolíticas do autor, onde o México é o maior país da América Setentrional com imperador tal como Canadá e outro países e Londres é unificada com Irlanda e a Escócia, neste futuro não houve evolução econômica, a França voltou-se para a base agrícola e ignora a revolução industrial. Em O ano 2440, título do livro, ainda há um rei na França. E o interessante, “motores voadores com mola aperfeiçoados”. Mas essa ficção trabalhou em cima de sono do personagem. Outras histórias vão por essa linha, usando hibernação, animação suspensa, e criogenia. Agora com máquinas auxiliando no processo.

Falando em máquinas, com o desenvolvimento da indústria, foi H.G. Wells quem popularizou o uso de veículos para viajar no tempo, julgado sendo o primeiro a fazer isso, onde o personagem escolhe para onde/quando vai. Alguns anos antes houve um conto, The Clock That Went Backward, que antecipa o uso de uma máquina do tempo, mas aqui é um relógio, de Edward Page Mitchell, importante no início do gênero scifi. Esse cara antecipou Wells em mais de uma vez, com os temas de ficção científica. Mas, de qualquer forma, o romance The Time Machine é o mais lembrado quando se trata de viagem no tempo. De forma semelhante ao conto francês o personagem principal não tem nome. Mas essa foi a obra mais importante para a constituição e evolução do tema. Nessa obra é que temos uma crítica social maior, embora quem vê os filmes não tenha essa percepção. Wells, através de seu personagem, que não é tão interessante do ponto de vista literário, mostra ideias desencorajadoras sobre o progresso da humanidade.

Em 1895, em, H.G. Wells escreveu:

“Não há diferença entre o tempo e qualquer uma das três dimensões do espaço, exceto que nossa consciência se move ao longo dela”, e que “qualquer corpo real deve ter extensão em quatro direções : ele deve ter comprimento, largura, espessura e Duração.”


This is heavy.

E não só de Back To The Future vive 2015. Temos Asimov com Runaround (Círculo Vicioso, Brincando de pique). Quando em 2015, os personagens Powell, Donovan e o robô “Speedy” são enviados para Mércurio para reiniciar as operações em uma estação de mineração que foi abandonado anos antes. Essa dupla é famosa em outros contos. Nesse 2015, fazemos mineração até em Mercúrio. Além, é claro, da presença dos robôs autômatos na sociedade.

Saci Lloyd, escritor britânico, fez The Carbon Diaries 2015, que narra um ano da vida de Laura, uma estudante de dezesseis anos de idade, numa Londres do futuro, agora distópico, contada em entradas de diário, quando é imposto racionamento de carbono, em um mundo onde o desastre se tornou a norma é contada em entradas de diário curtas.. O livro disponível na Amazon tem uma capa bem teen. O autor é professor de adolescentes. Há uma sequencia, The Carbon Diaries 2017. Estes estão na chamada Ficção Climática.

Em videogames, Doom, de 93, a história se passa em Marte. Só lembrei aqui, porque jogava muito esse maldito. Achava melhor que Wolfstein. Voltei no tempo agora, no Windows 3.x. É a nostalgia dos anos 80.

Mais umas coisinhas para 2015: para este ano, estamos esperando a passagem do cometa Kopff no dia 25. A NASA também anunciou que o asteroide TB145, que surgiu mais ou menos de repente (que medo!), vai passar raspando, e será no Dia das Bruxas, no próximo 31 de outubro. E expirará o copyright do livro Mein Kampf, de Adolf Hitler. Tema para outra oportunidade também.

Não é difícil de encontrar os erros e acertos em relação às previsões dos filme (a Parte II) sobre o futuro. Por mais mazelas e problemas que tenhamos hoje, crescemos muito e viemos tentando ser melhores. Muitos filmes e outras mídias nos anos 80 flertavam com um futuro entre sendo brilhante ou catastrófico. Prefiro a visão mais positiva. Muita coisa da minha infância tem essa perspectiva otimista. Star Trek, Galaxy Rangers, quando a humanidade em si, está bem, apesar dos vilões afora. De Volta Para O Futuro, a Parte II em especial, nos entrega um futuro muito interessante onde a tecnologia era exuberante, incrível. Claro que não era perfeito. Nem a nossa realidade hoje é. Mas se parar para pensar, estamos no futuro. Atravessamos o ano 2000, passaram-se asteroides e outros anúncios de fim do mundo, e estamos aqui. Mesmo aos trancos e barrancos, estamos indo para frente.

Este não é o futuro que imaginamos. Mas pode vir a ser. Vamos voltar para ele.

“Please fly safely”

Publicado originalmente exatamente quando o DeLorean surgiu na skyway! Eu estava naquele táxi!

Flavio B. Vila Verde

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[…] Quando arquiteto, […] enfim, me ferrei. Às vezes escrevo; A vida é uma dívida