Fitz #01

Uma vez me disseram que o problema em relação a morte era o meio termo. Se você acredita na vida após a morte, isso é libertador. Mas se você acredita que a morte é o fim de tudo, isso também é libertador. O problema está na dúvida. Não saber exatamente no que crer quando partimos desse mundo é um problema que te consome. Ter a consciência de que não mais existirei e que serei apenas uma memória que se perderá no tempo, como lágrimas na chuva. Estranho, acho que já ouvi isso em algum lugar. Mas enfim, não adianta. Só queria que fosse rápido como um buraco de bala na minha cabeça enquanto faço uma prece. Ih, esqueci. Não sou religioso. Será que ter uma fé seria libertador? Faria com que aceitasse meu destino com resignação? Eu não sei, nunca fui lá de acreditar na fé. Quando se acostuma demais a matar, as únicas coisas em que você acredita são na sua Beretta e num dedo mais rápido no gatilho. Engraçado, parece que ouvi isso em algum lugar também. Acho que vi filmes demais, li demais e tudo acaba vindo à minha cabeça como uma ideia original, mas são apenas ecos, ecos de informações acumuladas em diálogos no escuro de uma sala de cinema ou entre pontos e virgulas de um texto. E pra onde vai tudo isso? Foda-se.
Bom, a questão é: como eu acabei enterrado numa cova rasa, dentro de um caixão, sangrando lentamente com um ponto que se abriu, enquanto cada vez vai ficando mais difícil respirar? Filhos da puta. Uma bala, uma única bala e tudo isso já teria acabado. Agora o meu corpo servirá de comida para os abutres e os vermes da terra, largado numa vala qualquer. Sei bem como é a cena, já mandei muitos pra uma.
Eu sou o Fitzgerald, também conhecido como Fitz. Isso, Fitzgerald. Mas não sou um puta de um gringo, nem você está num conto americano. Isso foi arte do meu pai.(…)

Veja aqui a continuação, Fitz #02