stricto sensu

Diego, você está me devendo uma rodada de uísque

Encrenca

Você nasce, cresce, treina, treina, treina, se reproduz e morre. Assim é a vida, assim é a biologia. Mentira? A biologia que ensinam no colégio é errada. Hoje a ciência da biologia, e outras, são derivadas das teorias de evolução e seleção natural. Problemas na gestão da educação no Brasil a parte, certas coisas só se aprende na faculdade.

Caricatura de Darwin retratado como macaco na revista Hornet, em 1871. #somostodosmacacos tamo junto Darwin!

Bem, os problemas não ficam só no ensino médio, nem no parágrafo anterior, nem no desenho do Darwin macaco. No Brasil tem uma cultura de que é necessário ter um curso superior, uma graduação, para ter um emprego, é crescente desde a ditadura. É uma ideia meio errada, porque também é feita da maneira errada. Bom, prosseguindo, depois da faculdade, tem que fazer uma ‘pós’, para poder ter emprego [de novo] melhor. Tudo balela.

Aproveitando, esse novo ensino médio brasileiro… melhor não falar disso agora…


Vamos trabalhar na hipótese em que você já é graduado e… E agora?

A pós-graduação, tem por finalidade desenvolver e aprofundar a formação de diplomados em cursos de graduação qualificando-os nos graus de Mestre e/ou Doutor. A maioria das pessoas querem apenas um canudo, acaba por sendo a definição de pós-graduação “obter apenas um título”. Seriamente são cursos voltados à formação científica e acadêmica, fortemente ligados à pesquisa. É PESQUISA. Na verdade a pesquisa deveria ser o meio-fim dos cursos. Mas há muita variação nisso.

Logo de início, o então ex-estudante da graduação, agora portador de um diploma, trabalhando [ou não] na área de sua formação, precisa ter em mente algumas coisas quando for fazer uma ‘pós’:

Pára, pára, pára! Pára tudo, aê!
Não separei ainda…

Lato sensu é quando a pós-graduação está voltada para um público atuante no mercado de trabalho, que serve como atualização, aprendizado ou aperfeiçoamento de alguma ferramenta ou especialização.

strictu senso é a formação científica e acadêmica. Uma coisa a ser dita aqui é que quem faz mestrado e doutorado não são “apenas” estudantes. Ou são MAIS QUE estudantes. São pesquisadores, são cientistas. Por vezes o camarada faz um MBA, uma pós em gestão por exemplo, para aumentar o salário ou as chances de uma vaga de trabalho, são estudantes, mas são profissionais em busca de aperfeiçoamento profissional. Os pesquisadores de mestrado e doutorado irão desenvolver alguma pesquisa em uma área, que em algum momento volta à sociedade como um avanço na ciência. As pessoas de MBA e afins irão aprender conceitos e ferramentas muitas vezes desenvolvidas no strictu senso, além do próprio ‘meio’ lato sensu, que também desenvolve ciência.

Resumindo:
lato sensu: cursos de aperfeiçoamento, cursos de especialização, cursos de MBA;
strictu sensu: Mestrado e Doutorado.

Um lembrete: todo trabalho de pesquisa é um recorte. Desenvolver é uma pegar uma parte do todo e esmiuçá-la, expandí-la, estudar nos detalhes. Não é sinônimo de evoluir. Entenda desenvolver como desenrolar, desdobrar. A Ciência como um todo será o acúmulo de conhecimento gerados nas pesquisas desenvolvidas, em suas respectivas áreas.

Voltando, o que você precisa saber para fazer um ‘sensu’ desses: quando se vai fazer uma pós, é necessário ter em mente que se vai fazer uma pesquisa e desenvolver um trabalho. Não vejo isso muito direcionado pelos professores nas graduações. Deveriam. Pelo menos uma parte da orientação apresentar o caminho do ensino e pesquisa. O aluno então vai maturando alguma ideia, ou ideias, do que pode fazer além do trabalho final de graduação.

Para tanto, é necessário a definição do TEMA. A partir daí, é só usar a Lei de Hemingway e então, tudo é corte.

Eu tenho uma visão particular em relação à cursos de pós. No início mencionei, que, claro que é importante e possível de aumento salarial e de cargo com curso além da graduação, além do aperfeiçoamento da carreira profissional. Mas meu desejo é que fossem mais em prol da ciência e por fim, da sociedade, da civilização. Não sou positivista (talvez seja um pouco, se isso existe). Mas o que acredito é que — e não sou só eu quem diz, estou apenas repetindo — o avanço científico pode trazer muitos benefícios à sociedade, e um meio para que isso aconteça é a pesquisa e desenvolvimento que ocorrem em mestrados e doutorados, e porque não, MBAs, onde artigos técnicos e científicos possam gerar um novo conhecimento, uma nova patente, um novo ou melhor produto. Aqui, falo patente, que poderia ser apenas um invento, um processo, mas a patente cria a possibilidade de movimentar a economia. Mesmo ela sendo livre ou aberta.

Elaboração

Assim, a definição e pesquisa para desenvolvimento de projeto , a grosso modo, é:

  • Tema
  • Subtema (se houver)
  • Problemática / Justificativa
  • Título
  • Objetivos
  • Palavras Chaves
  • Artigos ou projetos similares

Tema

Escolha da área temática, área do conhecimento, seja sob arquitetura sustentável, direito constitucional, em que será o projeto ou pesquisa.

Exemplo de tema: Componente para sistemas de vedações verticais para construções sustentáveis; Lei anti-fumo e direito a liberdade; Acesso à Justiça e alternativas à Justiça; Bioética e Reprodução Humana;

Título

O título de um trabalho ou projeto deve apresentar a área e/ou subárea da ciência na qual o problema se encontra. Uma dica que aprendi quando fui aluno especial no mestrado em engenharia: a quantidade não poderá exceder em 15 palavras. Fica bem assim. Façam o teste.

E subtítulos, somente se você indicar um local ou fechar o recorte da pesquisa numa coisa em específico.

Exemplo:
- Parâmetros para Vidro de Controle Solar em ambientes climatizados com fachada norte envidraçada;
- Parâmetros para Vidro de Controle Solar em ambientes climatizados com fachada norte envidraçada. — O caso Fritz, no subúrbio da Cidade Transversal;

Subtítulo

Denota o caso em foco. Geralmente se aponta o local do projeto ou do objeto em estudo. Ou ainda pode ser sobre alguém em específico, dependendo do tipo de projeto ou pesquisa.

Referência para especificação para edifícios comerciais em Salvador com orientação

Problemática

Ou a famigerada Justificativa. O projeto ou pequisa será proposto para resolver um problema. Qual é esse problema? Quais são os indicadores, ou qual a realidade local, ou situações que precisam de uma solução? 
O problema é uma pergunta. Basicamente é responder: Que problema irei resolver ou qual necessidade irei sanar? A pergunta precisa ser clara e precisa. Corte os excessos.

Exmplo de Problema:

Como especificar vidros de controle solar para fachadas envidraçadas orientadas para o norte em edifícios comerciais para a cidade de Salvador, na Bahia?

Além de contribuir para o entendimento das propriedades dos vidros de controle solar, este trabalho irá ajudar arquitetos na escolha de vidros para serem usados em fachadas, não somente pela estética, mas de forma à compreender o desempenho térmico e sua relação na eficiência energética durante a ocupação de ambientes climatizados;

Coisas assim.

Objetivos

Aqui tem dois itens a serem pensados: o geral e o específico.

Objetivo Geral?

Ao responder as seguintes perguntas, deve elaborar um texto onde as respostas apresentadas formem uma ideia coesa.

É aquela velha fórmula: o quê, como, onde, porque… Estabelecer parâmetros, é isso.

O que estudar, o que pesquisar, o que fazer?

É sempre um verbo.
Analisar, descrever, comparar, construir, reconhecer, projetar, criar, sensibilizar, etc.

Como?

É método, técnica ou série de procedimentos a ser utilizados. Através de pesquisa de campo, ou pesquisa bibliográfica, ou entrevista, de coleta de dados ou análises estatísticas, de um projeto arquitetônico, planejamento urbanístico?

Para que?
Qual o benefício, em termos de ciência, na realização social, ambiental ou econômica, ou no contexto físico-territorial, que justifica o investimento de tempo e dinheiro para realização do projeto ou da pesquisa?

Para quem? 
Quem são as pessoas, locais, espécies, etc. que serão beneficiadas com o projeto? Comunidades, famílias, bairros, cidade(s), fauna ou flora, sociedade, empresa ou governo, humanidade, etc.

Onde? 
Esmiúça o local onde será implantado o projeto. Se aplica num caso de pesquisa, com amostra ou um endereçamento que exija identificação para o projeto da dissertação ou tese.

O Objetivo Geral de um projeto é uma forma híbrida, constituída a partir da junção entre missão e visão. Assim, deve responder as seguintes perguntas: Para que? Para quem? Onde? E em quanto tempo? A ordem das perguntas não altera o resultado, desde que o texto fique claro.

As perguntas “O que queremos? Como faremos?” podem ser aplicadas, mas geralmente são usadas para definir projetos mais amplos, com ação social. Pode ser usado em projeto de arquitetura.

Onde? 
Esmiúça o local onde será implantado o projeto ou onde será realizada a pesquisa.

Objetivos Específicos

Os objetivos Específicos são os passos, são as metas necessárias para cumprir, para chegar ao objetivo geral. Com o objetivo geral estabelecido, precisamos responder a seguinte pergunta: Qual o passo a passo para chegar onde desejamos?

As metas são instrumentos importantes para identificar as etapas necessárias à obtenção dos resultados. O objetivo geral será alcançado quando todas as metas forem alcançadas, assim, o objetivo geral é igual a soma das metas. Os objetivos específicos, ou as metas, devem ser mensuráveis, específicas, temporais, alcançáveis, e significativas.

Exemplos de Objetivos Específicos: 
-Aumentar o fluxo de turistas durante a semana; 
-Incentivar a realização de pequenas feiras durante a semana e sábados, com extensão até o período noturno; 
-Melhorar as condições de segurança, para estender o uso do espaço até o período noturno; 
- Elaborar projeto de divulgação para atrair investimentos do setor empresarial em infraestrutura hoteleira e de serviços; 
-Construção de quiosques de serviços e de venda de produção local; 
-Instalação de passeios que invadem as ruas e dar prioridade ao pedestre;

E no desenvolvimento do trabalho, cada objetivo específico tem ações (ou metas, o nome não importa) para realizar cada um deles.

Metodologia

É uma maneira científica de abordar, analisar, desenvolver um tema e obter uma resposta à problemática apresentada. Método é o conjunto das atividades sistemáticas e racionais que, com maior segurança e economia, permite alcançar o objetivo — conhecimentos válidos e verdadeiros — traçando o caminho a ser seguido, detectando erros e auxiliando as decisões do cientista.
 
Outros conceitos importantes: Amostra e Universo. 
Universo é o total de indivíduos foco da pesquisa, existentes na abrangência geográfica que se pretende estudar. Quando analisamos todos os indivíduos a pesquisa é censitária. 
Amostra é uma parcela do Universo. Quando pesquisamos apenas uma parte logicamente e estatisticamente definida do Universo a pesquisa é no tipo amostral.

Classificações de método

  • Método Indutivo: baseado na INDUÇÃO que é um processo ‘mental’, que parte de informações particulares, suficientemente constatadas, para se inferir uma verdade geral, generalista. 
    “Todos os cães que foram observados tinham um coração”
  • Método Dedutivo: baseado a DEDUÇÃO, que é um processo de constatação de verdades ‘absolutas’. Tem como ponto inicial um axioma ou postulado. 
    (1) Todo mamífero tem um coração. (2) Todos os cães são mamíferos. Então, todos os cães têm um coração.
  • Método Hipotético-Dedutivo: É um método de tentativas e eliminação de erros. 
    (1) Todo mamífero tem um coração. (2) Todos os cães são mamíferos. Então, todos os cães têm um coração. Teste de hipóteses, por Falseamento.
  • Método das Ciências Sociais: Histórico; Comparativo; Monográfico; Experimental; Estatístico; Tipológico; Funcionalista; Estruturalista; Etnográfico; Clínico; etc. É bem extenso esse campo de metodologia.

Cursos

Voltando a outras definições

Os cursos de Aperfeiçoamento destinam-se a profissionais que estejam no exercício de uma determinada ocupação (correlacionada com a formação acadêmica de origem na graduação), que pode até não significar uma profissão, mas cargo ou função. Duram 9 a 12 meses. Por exemplo, existe curso de aperfeiçoamento na área de Direito em Ciencias Jurídicas e Direito da Família, com duração de 120h.

Já a Especialização dá oportunidade, ao graduado, de prosseguir seus estudos ao se habilitar à docência e se especializar em áreas do conhecimento voltadas ao mundo do trabalho, podendo ser uma área diretamente ligada à primeira graduação ou não. Em alguns países, os créditos dos certificados lato sensu podem contar como o primeiro ano de um mestrado na mesma área.

Formatação

Em geral, a formatação segue a norma ABNT. Muita gente fala da ABNT como se apenas ela existisse para isso, para trabalho acadêmico. Conheci pessoas que falaram isso e ficaram surpresas ao saber que a norma técnica está em quase tudo. Já disse em algumas ocasiões que norma da ABNT é como GURPS: tem regra até para cavar buraco.

Apontei aqui que “em geral” seguem a norma ABNT; existem instituições que não cobram 100% das normas como formatação ou até possuem seus próprios critérios, as vezes, para ser inserido em algum sistema digital.

Com certeza, papel em formato A4. Nada de folha Ofício ou Carta. Esqueça isso. E impressão preferencialmente frente e verso. Outra coisa básica são as margens. Regra 3 e 2:
Margem Superior e Esquerda: 3cm;
Margem Inferior e Direita: 2cm.

A fonte, mesmo que você não goste, Times New Roman. Estão admitindo agora em alguns lugares Cambria ou Calibri. O tamanho, no geral é 12. Títulos podem ser 14. Há instituições que são mais flexíveis, não somente nisso. Pelas normas da ABNT, somente Times New Roman OU Arial. As duas num mesmo documento não é permitido.

A formatação de parágrafo tem recuos zero, deslocamento da primeira minha em 1,25cm, espaçamento superior é zero, espaçamento inferior com 10 pts e entrelinhas com 1,5.

Os capítulos deverão ser iniciados em nova página com a palavra “Capítulo” e seu número. Um jeito fácil de controlar isso no word é usar quebra de página. Muitas vezes é permitido que a formatação de texto dos títulos seja livre. Não se usa o termo ‘introdução’ depois do capítulo, o texto deve iniciar diretamente.


Esse texto originalmente era para ser outra coisa, por conta até de uma conversa com Diego (não o Han Solo do mal, nem o das aserejés, esse Diego Francisco Oliveira, que infelizmente não é um rastafári afrocigano), mas aí me atrapalhei, parei, voltei, parei de novo, fiquei de saco cheio, enfim.

Diego, vai lá, faz essa dissertação!

Roteiro para projeto de pesquisa, bactérias no corpo e a falta de comunicação tecnocrata? Fica para, quem sabe, um futuro. Prometo revisar.
Paz!