Um Poema à Marte

Primeira imagem feita pela Viking

A NASA anuncia a evidência mais forte da existência de água em Marte, determinante para confirmar a existência de algum tipo de vida no planeta vermelho e também para viabilizar nossas futuras missões por lá. Futuras missões? Sim, vamos. Um dia. Assim como um dia grupos humanos ousaram atravessar os continentes e oceanos.

Assim como terras e mares desconhecidos foram desbravados, também se escreveu como seriam esses reinos, fantásticos, aterrorizantes e maravilhosos. Lugares previstos ou puramente especulativos. Lembremos do que foi a Lenda do Eldourado no meio da Amazônia. Atlândida, perdida nos textos de Platão. O próprio Brasil já foi especulado, planejado e contado em histórias pré-Cabral.

Da mesma maneira, o céu é desde sempre a fonte de imaginação de muito povos de muitas eras. De deuses à astronautas, dramas humanos e cósmicos foram contados através das gerações. O Errante Deus da Guerra nos é próximo e visível o suficiente para fazer parte de várias de nossas culturas.


Giovanni Schiaparelli, astrônomo italiano que ficou famoso por popularizar a ideia de canais artificiais em Marte. Uma certa confusão na tradução, canais artificiais de irrigação. Como um dos primeiros, senão o primeiro a fazer um mapa da superficíe do planeta, ele nomeou os “mares” e “continentes” de Marte. O astrônomo norte-americano, Percival Lowell, alimentando as especulações dos canais, passou grande parte da vida tentando provar a existência de vida inteligente em Marte. Mas não pensem que ele era louco. A descoberta de Plutão se deu graças a seus esforços e pesquisas em vida. Lowell publicou três livros: Mars (1895), Mars and its Canals (1906) e Mars as the Abode of Life (1908), baseados em as suas observações. Lowell era tipo um de Carl Sagan de sua época e a sua visão sobre vida inteligente, apesar de refutada, influenciou fortemente a ficção cientifica. Talvez até hoje.

Mapa da superfície de Marte, por Schiaparelli; 31 December 1876

Guerra dos Mundos, de H.G. Wells, narra a invasão da Terra por marcianos inteligentes (mas nem tanto) com raios da morte e quase fim do mundo em 1898. Quarenta anos mais tarde, Orson Wells causou um certo pânico.

O criador do Tarzan se aventurou em terras sem árvores ou florestas, ambientando também um lugar em declínio, John Carter e Dejah Thoris e Tars Tarkas.

Mas, antes desses caras, um alemão chamado Athanasius Kircher ficou famoso por sua versatilidade em ciências naturais e em algumas outras um tanto duvidosas. Padre jesuíta, alquismista e inventor, criou a Lanterna Mágica, o primeiro projetor de imagens. E também escreveu dezenas de livros, entre eles, Itinerarium Exstaticum, em 1656. Aqui ele rejeita a visão aristotélica e ptolomaica em favor do modelo cosmológico proposto por Tycho Brahe e Copérnico. É uma narrativa numa visão de sonho guiado por um espírito chamado Cosmiel.

Atenção aqui para uns nomes. Tycho, astrônomo dinamarquês famoso por seu nariz. Há uma cratera na Lua com seu nome, localizada nas colinas próximas ao pólo Sul da Lua. Nessa cratera foi encontrado o monólito batizado de TMA-1, no livro 2001,uma Odisséia no Espaço, de Artur Clarke.

Ainda antes de antes de Wells, de Lowell e de Schiaparelli, em 1787 Emanuel Swedenborg escreveu Mars in The Earths In Our Solar System. E em 1874, Wladislaw Lach-Szyrma escreveu Aleriel, or A Voyage to Other Worlds. Este último sobre uma venusiana chamada Aleriel que viajou para Marte e outros planetas. Aqui uma das primeiras publicações a usar o termo “marciano”.

Alguns anos antes de Schiaparelli, um escritor inglês chamado Percy Greg escreveu Across the Zodiac, The Story of a Wrecked Record, em 1880. Aqui temos o primeiro romance como um subgênero da ficção científica, chamado Sword and Planet, algo como Capa e Espada em outro planeta. Geralmente com terráqueos como protagonistas. E isso veio antes de John Carter através de Edgar Rice Burroughs. Outra coisa pioneira nesse livro do Greg é a primeira linguagem alienígena literária. Tem até uma gramática.

6/8 Searching for life, planning the next mission to Mars | Ars Technica ( https://goo.gl/5rg5Uz )

Muitas dessas histórias, no contexto e espírito da época, poderiam ser consideradas como ficção científica. Nos tempos atuais, se não considerarmos isso, podemos diminuir o valor das obras tal qual como foi a recepção para o filme John Carter de Marte (2012). Não que seja um excelente filme, mas não houve um cuidado em transmitir para o público essa fantasia com cenário interplanetário. Star Wars não é ficção científica. Mas isso é outro assunto. Interessa à cultura Pulp que estava crescente nessa época e sem a qual não chegaríamos onde estamos. Mas as Pulp Ficctions ficam para outro dia também.

Interessante a descoberta de como há água em Marte, anunciada pela NASA em 28 de setembro de 2015. Devido à pressão atmosférica baixíssima, mesmo com a temperatura lá embaixo, a água evapora rapidamente. De certa forma, é uma construção quase poética, indo de encontro com à visão de Lowell onde os canais são como um artefato de uma antiga civilização fazendo um último esforço desesperado para sobreviver num mundo moribundo.


Publicado originalmente no quarto planeta em 8 de outubro de 2015;

Flavio B. Vila Verde

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[…] Quando arquiteto, […] enfim, me ferrei. Às vezes escrevo; A vida é uma dívida

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