Zé do Gato

Zé Maria era um tipo supersticioso. Aos 27 anos, levantava da cama sempre colocando o pé direito no chão primeiro e assim fazia em todos os cômodos da casa que entrava após acordar. Ele não passava embaixo de escada e se benzia quando via gato preto na rua. Era um tipo engraçado, magrelo, alto, com bigodes negros e uma boina preta. Trabalhava como alfaiate na alfaiataria do pai que ficava na Cidade Baixa, próxima ao mercado Modelo. Zé aprendera o ofício de alfaiate com o seu pai, acompanhando-o na loja desde menino, num trabalho que passava de geração em geração.

O avô de Zé Maria — português robusto que viera da cidade de Porto para a Bahia lá pelos idos de 1870 — instalara-se na capital da província e, anos depois, casara-se com a filha de um comerciante da cidade. Fora nessa época que surgira a Alfaiataria Oliveira, sobrenome do avô portuga de Zé. Nosso herói alfaiate nasceu em 1913 — um ano antes de eclodir a Primeira Guerra Mundial — e assumiu, com a morte do pai e antes de completar os 30 anos, os negócios da família. Morava com a mãe numa casa no Santo Antônio, mas possuía um sobrado sobre a alfaiataria, onde reunia uns amigos toda semana para jogar cartas.

Tão metódico quanto supersticioso, Zé seguia uma rotina estrita. Acordava cedo, tomava o desjejum com a mãe e descia para a loja, com o almoço dentro de uma marmita embrulhada num pano xadrez. Abria a Alfaiataria Oliveira pontualmente às oito da manhã e trabalhava com afinco até às quatro da tarde, com um intervalo geralmente entre 12h e 13h para almoçar, voltando em seguida aos seus ternos, camisas, linhas e botões.

Às 16h, quando encerrava o expediente, Zé Maria mantinha a alfaiataria aberta apenas para atender emergências e ia para o outro lado da rua, mais precisamente para o boteco do Seu Alfredo. Lá, encontrava os amigos comerciantes e jogava dominó, tomava uma dose de vinho e cheirava rapé comprado na feira de São Joaquim.

Nas terças à noite, era dia de cartas. Ele fechava a loja e não aparecia no boteco do Seu Alfredo, indo, portanto, para o sobrado no andar superior. Nessa jogatina sempre usava a mesma camisa, dizendo ele ser sua camisa da sorte, na qual sempre tinha um broche de ouro no bolso. No dia em que perdeu o broche, disse que era o seu fim, que nunca mais ganharia e, coincidência ou não, ficou quatro semanas sem vencer nas cartas. Sua sorte voltou quando encontrou o tal broche no bolso de uma calça no meio de tantas outras na loja. Assim era Zé Maria: supersticioso.

Um belo dia, jogando dominó no boteco do Seu Alfredo, eis que ele sente em seu sapato um jato molhado. Ao olhar para baixo da mesa, vê um gato amarelo correr em debandada para a rua e percebe que o felino mijara em seus pés, sujando sapato, meia e barra da calça.

- Que diabos! — Praguejou o alfaiate magricela, bufando de raiva pela ousadia do felino.

Porém, tanta fúria foi acalmada quando um dos jogadores lhe disse seriamente:

- Não diga isso, homem! Não vê que é sorte? Na minha terra, um homem pisou na bosta de um gato e no outro dia ganhou na loteria. E teve o outro caso, igualzinho ao teu, em que uma gata mijou no colo de um mancebo que a tinha como bicho de estimação. O rapaz estava doente, pálido, padecendo dos pulmões. No dia seguinte, acordou bom! Em uma semana estava curado! Dizem que foi a gata.

Os olhos de Zé brilharam ao ouvir aquela notícia. Então estava tudo certo! Estava com sorte e deveria aproveitar o momento. Mas primeiro testaria a sua sorte. Se ganhasse todas as partidas de dominó, estaria provado que ele fora abençoado pelo mijo do gato. E não deu outra. Zé esquentou o banquinho do boteco onde estava sentado e não levantou da mesa uma vez sequer. Ganhara todas as partidas e voltara para sua casa no Santo Antônio sorridente. Amanhã tomaria providências para concretizar sua sorte; jogaria no bicho.

Mas logo um pensamento lhe alertou a mente: tinha que ficar calado e não contar sua sorte a ninguém. O povo tinha olho grande e isso poderia atrapalhar sua sorte, interferir na sua glória. Tinha que tomar cuidado nesse ponto. Jogaria gato no bicho no dia seguinte. Mas, ele nunca jogara no bicho. Como funcionava? Zé então lembrou do Clóvis, um senhor que jogava todos os dias e que frequentava o boteco do Alfredo. Perguntaria a ele amanhã.

O dia seguinte chegou e Zé cumpriu o seu ritual matinal de levantar da cama com o pé direito, sair do quarto com o pé direito, entrar no banheiro com o pé direito, assim como na cozinha e na saída de casa. Chegou sorridente ao boteco do Alfredo e logo encontrou Clóvis:

- Bom dia senhores! — Cumprimentou, dando um sorriso que alargava seu bigode. — Como vão?

Os poucos presentes cumprimentaram Zé. O boteco do Alfredo — que tinha o nome de Belvedere — possuía um piso com pedras portuguesas, um longo balcão de madeira e bancos com estofado de couro marrom. Sentado num desses bancos, Clóvis lia o Diário de Notícias, jornal soteropolitano da época. Zé se aproximou do homem e foi direto:

- Seu Clóvis, o senhor joga no bicho, não é?

Clóvis, um pançudo moreno com um palito na boca, olhou de soslaio para Zé:

- Jogo.

- Será que poderia me ajudar? — Perguntou timidamente Zé.

- Prossiga.

- É que essa noite eu tive um sonho. Um sonho estranho, mas que só pode ser um sinal.

Clóvis não respondeu e Zé entendeu que deveria prosseguir:

- Eu sonhei que estava num campo verde, muito bonito e de longe via meu pai, meu falecido papai. Corria ao seu encontro, mas quando chegava à árvore que papai estava próximo, ele sumia. No seu lugar, detrás da árvore, aparecia um pavão. Um belo e vistoso pavão! Acordei suando e só pensei numa coisa: é um sinal de papai para mim.

Zé mentiu. Não sonhara com o pai, muito menos com pavão nenhum. Ele jogaria no gato! Mas não podia contar a Clóvis sobre seu palpite. Vai que o homem joga no gato também e ganha o prêmio junto com ele. Não, ele não podia correr esse risco. O gato mijara nele e só nele! Se fosse para o Clóvis ter essa sorte seria mijado pelo gato também.

- Você sonhou com isso mesmo? — Perguntou Clóvis, num misto de seriedade e curiosidade.

- Sonhei sim. Pela alma de papai que descansa em paz. — Era uma mentirinha boba, a alma de Seu Manoel, pai de Zé, não se importaria com isso. — Como jogo?

Clóvis, que era um apostador viciado e como todo jogador via sinais em tudo quanto era parte, descansou o jornal sobre o balcão e passou o braço sobre o ombro de Zé:

- Vou lhe contar. Você tem que jogar uma boa quantia e jogar na cabeça.

- Na cabeça?

- É! No primeiro prêmio! Jogue milhar e centena.

- Milhar e centena?

- É! Cada animal tem quatro dezenas. Combine as dezenas do pavão e faça sua aposta. Vá na banca do Farias que o jogo é lá. Se quiser, posso ir com você também e….

- Não, não. Não precisa, Seu Clóvis. Tenho que abrir a alfaiataria. Mas lhe agradeço muito.

Zé saiu e foi para sua loja. Antes de almoçar, desceu para a banca do Farias e lá fez seu jogo, pedindo ao velho que não comentasse com ninguém que havia apostado. Mas apostou nas dezenas do gato. Fez sua combinação e voltou sorridente para a loja. Trabalhou com disposição, só esperando o momento de ser contemplado com a sorte. Depois de um dia inteiro de trabalho, finalmente chegara o momento de fechar a loja e ir ver o resultado do jogo lá no Farias.

Ele desceu a rua sorridente, fazendo planos com o dinheiro que ganharia. Talvez fizesse umas viagens. Tinha vontade de conhecer a capital, o belo Rio de Janeiro. Ficaria um mês sem trabalhar na alfaiataria, apenas desfrutando de sua sorte. Seria bom aplicar alguma coisa, fazer um investimento financeiro, modesto, nada de muitas somas nessa tal de bolsa de valores. Mas se permitiria especular um pouco. Se sua sorte continuasse assim, tudo daria certo.

Quando chegou à banca, perguntou sorridente, com cara de quem sabia o resultado:

- Seu Farias, deu o que no bicho? Primeiro prêmio.

Seu Farias olhou para ele e disse:

- Deu pavão.

- Ãh? Pavão?! Mas não era gato?!

- Gato? — Perguntou Seu Farias, achando aquilo estranho. — Não, rapaz. Deu pavão. O Seu Clóvis que gostou. Ganhou o prêmio. Apostou no pavão por causa do sonho de um amigo. Ele até perguntou se você tinha aparecido para jogar, mas, como me pediu segredo, disse que não. Muita sorte a dele.

Sorte?!, pensava Zé. Sorte desgraçada! Miserável! Deu pavão! Pavão?! Pensava ele angustiado, enquanto subia para o boteco do Alfredo, onde afogaria suas mágoas com a sorte num copo de vinho do Porto. Ao se aproximar podia ouvir a algazarra de vocês felizes. Era Clóvis que comemorava com os amigos. Ao ver Zé, ele foi anunciando:

- Alfredo, o que o Zé quiser hoje vai ser por minha conta! O sonho dele deu certo! Na cabeça! Venha meu jovem! Você é um homem de sorte! — Disse Seu Clóvis, passando o braço sobre os ombros de Zé. — Só achei estranho que você também não jogou!

Zé deu um sorriso amarelo ao homem:

- Tive muito trabalho na loja hoje e esqueci. Mas pelo menos o palpite estava certo. — Disse, num tom triste.

- Vamos, homem! Não fique assim! Venha beber! Por minha conta!

Zé foi até o balcão e pediu um vinho do porto. Ao ser servido, bebeu tudo de um só gole e pediu outra dose. Quando a bebida chegou, ele se virou para a rua, observando os homens na entrada do bar. Foi quando viu. Passando pela entrada, o gato amarelo que mijou em seu sapato parou e o encarou rapidamente, dando um leve miado. Ninguém entendeu quando Zé saiu correndo do bar atrás do gato, gritando para os quatro ventos: Miserável! Miserável! Você me paga! Me paga!

E Zé, que se chamava José Maria Mourinho de Oliveira, virou daquele dia em diante Zé do Gato.

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