Despertar
Despertou.
Ainda naquele estado em que começamos a recuperar a consciência.
Foi rápido. Bastaram milésimos de segundos imersos nessa situação de exploração mental do espaço, de recuperação dos sentidos, para que um estranhamento se instalasse e pouco a pouco fosse tomando conta de seu corpo. Como um formigamento que começava na extremidade mais distante, na ponta do dedão do pé direito, e seguia de lá seu caminho, subindo, rastejando, se aproximando, lentamente, enquanto seu corpo acordava.
Se estivesse completamente acordado teria pensado: são os segundos que a alma leva para retomar o corpo.
Acreditava que durante o sono a alma vagava por aí e, ao acordar, nem sempre retornava prontamente. Vinha aos poucos, com calma.
Nessa hora já estava dominado.
Aquele estranhamento que havia começado no mais superficial dos seus sentidos já o possuíra por completo:
Os olhos ainda estavam fechados, mas sabia: aquela não era sua cama.
Aquilo que começou como uma sensação esquisita, no breve intervalo de tempo entre um tic e um tac do relógio de cabeceira que havia herdado de sua avó materna, sem valor comercial ou emocional algum, vale dizer, se transformou em medo.
Essa repentina mudança foi paralisante.
Os olhos, que não haviam sido abertos até então, fruto de uma preguiça matinal contra a qual sempre lutava, agora não se abriam para não enfrentar o que havia lá fora.
Tentou, de olhos fechados, se mexendo o mínimo possível, reconhecer onde estava.
Explorou a cama com o tato de todas as partes de seu corpo. Cada centímetro de pele que estava em contato com o colchão foi estudado mentalmente.
Definitivamente não era sua cama.
Se esforçou para ouvir ruídos que lhe soassem familiares.
O relógio estava lá, mas era só um relógio. Quantos outros similares, fabricados na China aos montes, não deveriam haver no mundo?
Buscou cheiros conhecidos. Ou melhor, desconhecidos.
Sua casa era de uma assepsia quase hospitalar. Produtos de limpeza com cheiros fortes eram banidos, tornando o trabalho da faxineira um tanto mais complicado. Nada.
Em vão procurou outros sinais. Tic. Silêncio. Tac.
Por um instante chegou a acreditar que o intervalo entre o tic e o tac estava maior.
Estava maior, esse não era o seu relógio.
Reuniu coragem.
Abriu os olhos.
Breu.
Era desses que fazia questão de dormir no escuro absoluto.
Já havia visto laboratórios fotográficos com mais frestas de luz.
Tateou o criado mudo de onde vinha o tic e tac dissonante e encontrou o interruptor da luminária de cabeceira.
Com a luz pôde ver. Tudo estava lá.
Não que existissem muitas coisas lá para estarem. Uma cama de casal, um criado mudo com os 4 livros que lia simultaneamente para não se cansar de nenhum, o relógio de sua avó e um par de chinelos gastos, porém queridos.
Reconheceu tudo o que viu, porém nada parecia pertencer-lhe.
Olhou para os lados, permaneceu deitado, olhando para o teto, luz acesa.
- Essa não é minha cama. Onde caralhos estou?
Afirmação e questão, ambas, percorreram cada neurônio de seu cérebro pelo que pareceram infinitos minutos.
Até que teve de se levantar.
Precisava mesmo era mijar.
Foi o que bastou.
Sentou-se na cama. Pés no chão.
Adorava os chinelos. Não os usava.
Velhos demais para serem usados na rua. Já em casa passava a maior parte do tempo descalço.
Os chinelos eram mais companheiros de apartamento do que objetos de uso pessoal.
Olhou para o relógio.
Estava atrasado. Bastante atrasado.
Levantou-se. Ainda sonolento e possuído pela certeza de que aquela não era sua cama.
Caminhou, cambaleou, até o banheiro. Mijou no escuro, somente a luz que vinha do abajur do quarto desenhava sutilmente os contornos de tudo ali dentro.
Voltou-se para a pia para lavar as mãos.
Precisava dar início ao dia fazendo com que começassem a girar as engrenagens de sua máquina de viver.
Lavar o rosto, preparar um café preto, escovar os dentes, vestir-se, encontrar as chaves do carro. Todas as manhãs era uma briga consigo mesmo a respeito desta última, naquela, surpreendentemente, encontrou-a rapidamente.
Não tinha um espelho de corpo inteiro em casa há muitos anos, não se lembrava mais o que acontecera ao último. Criara o hábito de conferir a roupa no elevador.
Quando a porta do elevador se abriu para que ele entrasse, se viu por inteiro no espelho pela primeira vez naquele dia.
A certeza que o perturbara horas antes se transformou em terror.
Não era a cama que não lhe pertencia.
Ele próprio parecia não sê-lo. A imagem que via não era a dele. Esse não sou eu, pensaria se o terror que o congelava permitisse qualquer pensamento.
Paralisado por alguns instantes, despertou de seu estado contemplativo quando a porta do elevador começou a fechar.
Interrompeu-a com uma das mãos. Arrumou a gravata com a outra. Entrou no elevador, apertou o botão que o levaria ao subsolo. Convenceu-se de que era apenas uma manhã ruim.
Como um autômato de si mesmo, dirigiu, trabalhou, comeu, mas algo havia mudado.
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