O espírito do lugar

Há localidades que revelam a sua essência ao primeiro olhar. E há localidades que teimam em querer passar despercebidas, como mais uma entre tantas. É o caso do Teixoso.

Muitos saberão — pois que esta é terra célebre em alguns meios —, mas para aqueles que ainda não tiveram o prazer, o Teixoso é uma vila do concelho da Covilhã, da qual dista poucos quilómetros. Vila há quase cem anos, nasceu há muitos séculos e desenvolveu-se placidamente instalada no topo de uma colina, aos pés da Serra da Estrela e admirando a Covilhã altaneira. Ali, deu azo à sua vocação agrícola, como o testemunha grande cópia de quintas de antigos nomes à sua volta. Uma granja para abastecer a cidade-fábrica.

O teixo centenário. Quinta de São João, Teixoso, Covilhã

O topónimo ‘Teixoso’ denuncia que as origens da povoação remontam a tempos em que o ambiente natural tinha bem mais importância na vida quotidiana do que estes em que vivemos. Afinal, refere-se à que seria a característica natural mais marcante do local: ser um lugar com abundância de teixos. O teixo, uma árvore muito comum na Idade Média, é hoje muito raro, inclusivamente aqui, onde se conhece um único e centenário espécime. Por estar tão intimamente ligado à génese da identidade local, este teixo — ‘oteixo — , por um lado, é objeto de solene reverência por parte dos teixosenses, que se lhe referem normalmente com o orgulho de quem fala do Fundador, e, por outro, adquiriu contornos de quase-mito porque poucos o terão visto ao vivo. Paradoxalmente.

Contrariamente ao que seria de supor, visto tratar-se do último exemplar subsistente, o teixo não se encontra em destacado espaço no centro da vila. Está plantado no jardim da casa da Quinta de São João, um lugar que é praticamente dentro da vila mas que até há não muito tempo era fora de portas. Rodeia-o um cenário bucólico dominado por dois plátanos, quais sentinelas de guarda ao tesouro, e enquadrado pela casa da quinta, que, pese embora ter-se apagado o esplendor que terá conhecido outrora, continua a ser um mais do que adequado complemento arquitetónico.

Ruína é, infelizmente, a palavra que acode à mente para caracterizar esta casa. No entanto, permanece ainda o suficiente para nos deixar perceber que terá sido, nos tempos áureos, um belo exemplar da arquitetura rural tradicional da região das Beiras, com o rés-do-chão reservado ao armazenamento e guarda de produtos e alfaias agrícolas, e o primeiro andar, com as suas escadas e varanda (outrora) de pedra, destinado à habitação. Deste já pouco resta, com telhado e soalho colapsados há já algum tempo.

O lagar de varas, com o tronco repousando sobre os tanques de pedra

É no andar de baixo, justamente, que se esconde um vestígio do passado agrícola do Teixoso — um lagar de varas. Este tipo de lagar distingue-se principalmente por fazer uso de um tronco de árvore como elemento de pressão para esmagar a azeitona e, após terem caído num abandono quase total, estes lagares têm conhecido nos últimos anos um renovado interesse por parte de quem se dedica a salvaguardar e reabilitar o património. O exemplar que se pode visitar em Idanha-a-Velha é um dos bons exemplos de recuperações levadas a cabo. Na Quinta de São João, sobre uns sólidos tanques de pedra, resiste ainda ao passar do tempo e à inclemência dos elementos o tronco maciço de uma árvore de grande porte que veio terminar os seus dias a ajudar os homens a extrair o maná dourado da azeitona.

A casa oferece-nos ainda ao olhar as ruínas de uma pequena capela privativa. Por ser a quinta atribuída à proteção de São João, podemos supor que fosse a capela de invocação do mesmo santo, embora o retábulo que no-lo poderia confirmar tenha desaparecido da sua parede. É composta por uma só sala quadrangular com abóbada de canhão em madeira. A decoração consiste nas pinturas murais que ocupam todo o espaço disponível (à exceção do espaço onde existia o referido retábulo) e na pintura da abóbada.

Onde outrora houve um retábulo, contempla-se hoje o vazio (à esq.); à direita, a abóbada em madeira que deixa perscrutar os céus, figurativa e literalmente

No teto, prepondera o Agnus Dei no centro de uma oval decorada com elementos simples, ainda que barrocos, que se abre ao céus. Nas paredes, oito painéis representam oito santos, também eles inseridos em molduras ovais, e, sobrepujando a porta, regista-se a intenção do comitente da capela e respetiva data — Capitão João Gregório Tinoco Vieira, no ano de 1816. O Neoclassicismo ainda tardaria a chegar a estas paragens, por isso não surpreende que a decoração seja de um Barroco sincero, bastante ingénuo ainda que bem-intencionado. Lamentavelmente, o desaparecimento do telhado da capela permite uma acelerada degradação da decoração: algumas tábuas da abóbada já caíram e jazem no meio de entulho e de restos deixados por quem achou por bem fazer deste espaço retrete, e as pinturas murais, sujeitas à chuva e humidade e ao calor extremo da região (quando não também sujeitas a servirem de suporte para artistas de outra estirpe), vão pouco a pouco apagando-se. Entre a minha visita de 2015 e outro registo fotográfico feito em 2009 as diferenças são óbvias: dos oito santos, apenas quatro são ainda identificáveis: São Pedro e São José ladeando o retábulo e Nossa Senhora da Conceição e Santo António na parede oposta.

É justo recear que, se nada for feito — mais que não seja uma cobertura provisória e encerramento das janelas e portas —, não serão precisos muitos mais anos para que a perda seja total. Porém, mesmo com as perdas atuais, esta capela não deixa de ser um pequeno tesouro da arquitetura religiosa do Teixoso e mais uma evidência da religiosidade das gentes desta terra que merece ser preservado. Um tesouro mesmo ao lado daquele outro que é o último teixo do Teixoso.

Em cima: São Pedro e São José; em baixo: Nossa Senhora da Conceição e Santo António

Reconheço hoje, passados tantos anos a ouvir falar desta quinta e tendo passado por ela incontáveis vezes, que a Quinta de São João é um sítio especial no Teixoso. É o sítio especial. Aquele sítio que algumas localidades têm, em que toda a sua essência se concentra, onde se podem sentir de uma só vez os aspetos fundamentais da sua história e da identidade das suas gentes.

Guardiã do teixo, com o seu lagar de varas e dotada ainda da sua capela, a Quinta de São João é a materialização das três facetas que caracterizam a vila. Teixoso, vila-teixo, vila-granja e vila-barroca.

Esta quinta é um pouco da alma desta terra e, como tal, deve ser cuidada e merece ser revigorada. O teixo, pelo valor simbólico de que se reveste, não devia estar divorciado da comunidade. Os teixosenses de hoje deviam poder desfrutar da sua presença, por exemplo, transformando-se aquele espaço num parque público ou, quem sabe até, numa quinta pedagógica para a Covilhã aproveitando a existência do lagar de varas cujo restauro faria jus à herança agrícola da vila. E, por seu lado, o restauro da casa, e em particular da capela, enriqueceria o núcleo de património arquitetónico da Época Moderna que o Teixoso possui. Um núcleo a explorar em rota que, a começar na Igreja Matriz e na Capela do Santo Cristo, percorresse toda a vila e passasse por outras capelas (como a do cemitério, que ainda está por explorar), pelas várias fontes e por mais alguns exemplos de arquitetura civil dos séculos XVIII e XIX, para terminar à sombra do teixo.

Muito há ainda a dizer e a descobrir sobre a História do Teixoso. E a cada dia e cada ano de descuido é todo um património que se delapida, um património que tem muito para contar. A teixosenses, a covilhanenses e a todos quantos visitarem a vila. Um património histórico que é imperativo salvaguardar num concelho em que este não abunda como noutros concelhos da região.