Tempos diferentes, almas iguais

Descoberta de uma sintonia arquitetónica

Bruxelas, na Bélgica, 1898. Victor Horta dá início ao projeto de construção da Casa Horta, onde viverá e na qual funcionará o seu atelier durante as quase duas décadas seguintes. Com este projeto, a Arte Nova, estilo fugaz da História da Arquitetura, atingiu um dos seus pontos altos na Bélgica.

Utreque, na Holanda, 1924. Gerrit Rietveld executa o seu primeiro projeto arquitetónico: a Casa Schröder. Com esta encomenda, o espírito questionador de Rietveld oferece ao mundo uma obra fundamental para as conceções que moldariam a evolução da arquitetura.

À esquerda: Casa Horta (1898–1901), Bruxelas, de Victor Horta (1861–1947) (foto: Steve Cadman/Flickr); à direita: Casa Schröder (1924), Utreque, na Holanda, de Gerrit Rietveld (1888–1964)

Um qualquer lugar deste mundo, 2015. A omnipresença da informação dispensa-nos de uma visita às casas para percebermos quão formalmente opostas são. Basta-nos a observação de fotografias do seu exterior para se perceber o que distingue as obras destes dois grandes arquitetos.

Traduzindo o que faz da Arte Nova um movimento de rutura, Horta aplica no seu projeto, muito embora sobre estruturas e volumetrias que desafiam mas não escapam à matriz da arquitetura civil oitocentista, uma linguagem — essencialmente decorativa — que recusa a mera imitação de modelos do passado e procura novas fontes de inspiração. Na construção, é certo, emprega as técnicas construtivas de sempre e os materiais tradicionais (a pedra, a madeira, o ferro), mas molda-os em novos valores que põem a tónica na elegância de linhas sinuosas de inspiração naturalista. Na atitude, assume o papel de arquiteto total que dedica a todos os pormenores — construtivos, técnicos e decorativos — uma atenção meticulosa e sem rival.

Já na Casa Schröder, Rietveld rompe com o passado num corte mais radical do que nunca. O arquiteto reflete nesta casa a estética experimentada, ao longo de anos, no desenho de móveis que aliavam funcionalidade e beleza a processos produtivos económicos e passíveis de serem aplicados em massa. Essa nova conceção é percetível no abandono do uso de materiais tradicionais, como a pedra (e a tentativa de experimentar o uso intensivo do betão), e na estrutura e volumetria geométricas que, através da justaposição de planos simples, conseguem a quase diluição da fronteira entre o interior e o exterior. E, no respeitante ao espaço interior, propõe no primeiro andar uma organização arrojada ao substituir a habitual distribuição estática de espaços bem delimitados por um espaço uno que, mediante a articulação de paredes dinâmicas, se divide, unifica, subdivide em múltiplos espaços de funções variadas e variáveis.

Bruxelas e Utreque, verão de 2015. Em pouco mais de 150 quilómetros, percorro a distância que separa a Casa Horta e a Casa Schröder numa verdadeira viagem no tempo que, de um salto, me leva a conhecer de perto dois monumentos correspondentes a outros tantos momentos determinantes para história da arquitetura contemporânea. Uma viagem totalmente fortuita que me permite aceder ao que de mais surpreendente têm estas casas e as suas histórias: o facto de, por diferentes que pareçam, esconderem vários aspetos em comum que generosamente revelam quando visitadas a par.

E revela-se, então, perante o meu olhar, uma paixão palpável pelo detalhe que leva a dedicar ao desenho de um puxador de uma porta, de uma grelha de escoamento ou de uma grade, o mesmo zelo que é depositado na distribuição de espaços ou na escolha de materiais.
E torna-se-me, então, notória a partilha de uma mesma atitude de olhar para a frente, de encarar o futuro e deixar para trás um passado de arquitetura que não se adequa aos novos tempos, uma arquitetura que coloca no seu centro, antes de mais, a pessoa. E não o poder ou o estatuto.
E é-me dado testemunhar — e não por acaso — que em ambas as casas se assiste ao insinuar, na arquitetura, de um século XX que quer vir a ser o século do povo, ao vermos que duas das obras que hão de tornar-se icónicas desse século são justamente habitações de gente comum (não obstante burgueses) e não castelos ou palácios de reis, duques e condes; não catedrais e mosteiros erigidos em nome de um ente superior.

Até então, nunca, na História da Arquitetura, casas de pessoas comuns conquistaram tal protagonismo. Iniciou-se essa era sob o signo destas duas obras e merecem por isso — para além de todas as razões já justamente identificadas pela Unesco — figurar na lista de monumentos Património Mundial da Humanidade.


Obrigado por leres. Se gostaste, não te esqueças de clicar no botão “recommend” (ou no coração, que isto está sempre a mudar de forma) e de partilhar!