Espectros

Nossas cidades estão cheias e fartas. São carros em excesso, prédios em excesso, vermes em excesso. Poluição em excesso, desemprego em excesso. Desencontro em excesso.

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Vendo assim, começo a pensar que o mundo está em retrocesso. A saúde nos escapa e a medicina não nos cura, os jovens bebem desesperados e a censura, não os segura. Por quê? Porque nessa nossa sociedade os jovens só veem uma realidade: serão para sempre estagiários, secretários, auxiliares, assistentes, se sentem tão indecentes, estudam como loucos para preencherem empregos tão dementes. Por essa razão preferem matar a vida que os mata (e isso é plenamente compreensível ao meu ver).

Nossa segurança é uma ilusão que a porta trancada traz, sem impedir que a criminalidade te apresente teu capataz.

A humanidade está jogada à própria sorte, nós, humanos, apenas esperamos o dia de nossa morte, pois viver é um privilégio, um luxo, exclusividade. Como trabalhadores somos marginalizados em todas as camadas da sociedade, somos escravos da sobrevivência sem sentido, pois fazemos questão de manter nossos corpos animados, sem qualquer vestígio de vida, para que nossos patrões nos presenteiem todos os dias com novas reclamações, de como seu lucro, seu luxo e seus prazeres estão diminuindo pelas liberdades que você toma de ir ao médico sem avisar anos antes que viria a adoecer.

Por isso digo que as cidades estão cheias de espectros. De sombras andantes, de rascunhos humanos, de sons abafados, de gritos contidos, de sentimentos inexistentes, de pessoas não viventes e de sonhos jogados fora, pois aqui e agora, só se vive pelo próximo (rico, milionário) que lhe dará alguma esmola em troca de sua alma e coração.

Me sinto um estranho sem motivação perante a falta de importância que as próprias pessoas se dão, e por isso compreendo o motivo de tantos jovens mergulharem num mundo de vícios e decadência, pois maior indecência e decadência que encontrar um trabalho hoje, jamais existirá igual.

Não sou normal, sei disso, e não sou (nem nunca quis ser) insubstituível, mas nunca pensei que seria tão fácil ser substituível, e por isso vejo que quando várias pessoas se dão conta disso, param de sorrir, de partir, de ir e vir, de se permitir morrer, ou vir a ser qualquer coisa.

As cidades estão cheias de espectros fartos desta situação, onde a grande depressão que devemos enfrentar é perceber que acordamos mais um dia com vida, acreditando estarmos vivos, quando na verdade somos apenas escravos do sonho, de poder deprimir mais alguém, mais um ninguém, mais um escravo, futilizado.

Vinícius Risério Custódio