A discussão das nádegas

O jardim das delícias — Bosch

A bunda e toda sua completude, charme e elegância estava virada para o alto. Era redondinha, mas grande. Suas ondulações lembravam dunas ou qualquer outro cenário sinuoso. Era uma bunda linda. Só que não era assim, promíscua, efêmera, leviana. Olhar para ela dava uma preguiça gostosa. Talvez também desse vontade de dar uma bitoca em uma das nádegas, só para ver o que acontecia, para sentir seus poros, seu calor e assim entrar em êxtase. E acho que foi exatamente isso que aconteceu quando cheguei próximo e fixei o olhar por alguns segundos nela. Pirei na batatinha. Não sei exatamente o que aconteceu, mas comecei a ver tudo um pouco mais colorido, cheio de vida. Lembrei de todas as bundas que já tinha visto na vida. Lembrei que, em todas as ocasiões, nenhuma era tão dourada, ondulada. Me fixei novamente nelas e aí, num movimento repentino, a bunda se mexeu. Ao que parece, as nádegas piscaram para mim de soslaio. Cheguei perto, bem pertinho. Provavelmente estivesse louco, drogado, mas uma delas virou-se e, curiosa, abriu um sorriso maroto e lançou:

─ Oi.

Espantado, esfreguei os dedos nos olhos e respondi:

─ Táporra, cê tá falando comigo?

─ Ué, nunca percebeu a presença da nádega das nádegas, desenvolta, sábia, elegante e inteligente?

─ Nunca imaginei que nádegas falassem…

─ Meu querido, a gente masca até chiclete.

─ Sério?

─ A gente adora chiclete, principalmente os de menta. Refresca.

Fiquei imaginando um chiclete sendo mastigado por uma bunda. Um cenário um tanto esdrúxulo, porém curioso.

Voltei minha atenção às nádegas e reparei que uma delas ainda estava acordando. Ela acordara no susto e de péssimo humor, com uma cara fechada de dar medo. Pensei: “Até bunda acorda de mau-humor, mano.”

Raivosa, foi logo querendo briga:

─ Eu ouvi bem ou a senhora disse que é a nádega mais inteligente?

Lomba questionadora.

─ Segura esse cu, né benhê? É claro que sou mais sábia.

─ Seguro o cu o quê? Ele é solto e livre, não é cu?

Um leve estrondo pairou pelo ar nesse momento. Um cheiro de defunto subiu e uma voz rouca ressoou:

─ Sou anarquista, caralho.

O cu não economiza palavrões!

E silêncio. O furico bocejou, fechou-se para dentro do reto e sumiu. O cu dorme até tarde. As meninas continuaram a discussão.

─ Nunca. Não sei em que horas você perdeu a noção, mas quem é a favor da Escola Sem Partido aqui sou eu. Ensino livre é o futuro!

─ Oras, mas é isso que estou falando.

─ Então, explique-se.

─ Só é a favor da Escola Sem Partido quem é machista, burro, pois ser contra o ensino da diversidade sexual é, no mínimo, coisa de quem é idiota. Transferir a orientação sexual das pessoas para a escola é bizarro, não? Veja, essa discussão, ao contrário do que muitos pensam, não é entre esquerda e direita. Vai além…

─ Ah, claro, fácil assim. Vou chamar o Serguei, então, porque só um pansexual para te entender.

─ Chame. Aposto que o Serguei não entraria nessa briga de polos…

Um breve silêncio tomou conta do ambiente novamente. Daí, a nádega revoltosa voltou à discussão.

─ Ok, mas e o Pré-sal, você é contra?

─ Contra o Pré-sal, não. Sou contra a venda dele!

─ E a PEC 241?

─ Vamos combinar, né? Congelar investimento na educação e saúde e não taxar grandes fortunas é sacanagem!

─ Agora você vai dizer que é a favor dos secundaristas também. Essa molecada que não sabe de nada, e está fazendo esse “auê” só para ganhar likes no Facebook.

─ Óbvio que vou. Eles representam a minoria transformadora. Assim como a gente, eles são oprimidos e exprimidos. A diferença é que saíram pela culatra e agora lutam por melhores condições, o oposto da gente, que briga, mas abaixa a bola para o primeiro cu que aparece.

─ …

Acordei e me ajustei na cadeira. E com atenção redobrada, fiquei refletindo. Como a gente vive se batendo igual nádega, né?

Continua…