As duas vidas de F.
Quarentão classe média fala sobre política, sexo e que não precisa se assumir pra ninguém
Era uma noite gelada (15°C) na Zona Norte de São Paulo. Para piorar, uma garoa engrossava. A região da Braz Leme estava parada — não era nem final de semana –; nenhuma turma rumando aos barzinhos da região (abertos àquele horário só por figuração): apenas um ou outro senhor indo à padaria, ao mercado. Trabalhadores correndo para pegar seus ônibus no horário de pico. Moradores de rua preparando suas camas, protegendo-se da chuva — e seus cães fazendo escolta.
Chego finalmente antes da chuva realmente apertar.
“Isso é chuva ou é suor?!”
“Essa subidinha que mata”, respondi.
“Mas você veio a pé até aqui?”
“Não, claro que não…” (menti, na verdade andei do Metrô Santana até a casa do entrevistado — mais de 2km e uma subidinha desgraçada).
“Água?”
“Por favor…”
Vou chama-lo de F. (ele não quer ser identificado, mas você entenderá o motivo mais adiante). Ele mora em um confortável, mas minimalista até onde vi, apartamento de quase R$1 milhão, com 125m², na região nobre da Zona Norte de São Paulo.
Possui sala pequena com varanda: nela há um sofá creme bastante confortável; um tapete que, de tão felpudo, abraça simpaticamente qualquer pé que o pise; rack com tevê na parede. À esquerda fica a sala de jantar, com uma bela mesa de seis lugares (mesmo morando sozinho) de madeira mais escura. Dois castiçais com duas velas cada um, dando um ar intimista e romântico.
Ao fundo há uma bancada. Sobre ela a bandeja com uísque, vodca e licor. Dois copos, um de boca para baixo e um para cima (talvez para manuseio mais rápido). Pela dosagem delas F. deve beber com certa regularidade (sozinho ou não). E, pelos rótulos, é um homem refinado. A decoração, tímida até, não diz muita coisa sobre sua personalidade. Apenas ao fundo, bem no canto na sala de jantar, percebo algumas miniaturas e maquetes da Torre Eiffel e outras construções. Ele é arquiteto e jornalista de formação (mas não trabalha com nada disso atualmente).
(Olhando aquele canto, veio uma imagem, um tanto noir na minha cabeça: ao som da chuva que já batia no vidro da sacada, um jazz de trilha sonora, aquele copo de uísque esvaziando a garrafa… um charuto harmonizaria o quadro com perfeição.)
Recém-chegado do trabalho, vestia social — camisa, calça, sapato, um cardigan por causa do tempo — quando me serve água. Mas enquanto bebia foi “ali rapidinho” e voltou mais à vontade. Um short preto, chinelo e camiseta cinza.
A cor cinza da camiseta não diz muita coisa, mas o de seus cabelos sim. É um quarentão com cara de quarentão. Os olhos azuis, a pele meio rosada (fruto da descendência europeia) e a voz mansa lhe trazem certo charme. A barriguinha aparecendo na camiseta não parece um ponto fora da curva, faz parte das características de um quarentão tradicional.
Sugiro que conversemos na mesa de jantar, porque o sofá de tão confortável me “engole” (possuo 1,80m, mas ao sentar nele meus pés até saem do chão). Além disso, a “ambientação” do lugar me deixou meio desconfortável: estávamos à meia-luz, uma chuva que já pesava lá fora, um sofá superconfortável e o tapete-abraça-pé… O clima estava mais para um encontro romântico do que algo jornalístico. Preferi a mesa.
Há vários meses, antes de parar nesta mesa, algumas questões me atormentavam sobre a bissexualidade. Sabe quando tem curiosidade sobre algo e parece que, de repente, aquele assunto começa a pipocar na sua frente? Foi exatamente isso.
Três notícias pulularam sobre mim recentemente, todas com o mesmo tema: uma pesquisa sugere que não existe heterossexualidade feminina, e sim apenas homo ou bissexualidade; um cientista italiano que afirma que a humanidade será bissexual no futuro; e uma reportagem recente também questionando se bissexualidade é uma tendência em um futuro próximo.
Só isso me fez olhar o tema com outros olhos. Será mesmo uma tendência? Se estamos tendo mais parceiros antes de vivermos uma vida inteira com alguém (e nos separando mais, no caso de “escolhermos errado”), porque não tentar se relacionar também com alguém do mesmo sexo, já que estamos escolhendo mais?
F. também vê esse comportamento como uma “tendência”. Principalmente essa geração dos 16 aos 26. “Eles não se preocupam com rótulos, bandeiras ou marcas. Levam a vida como deve ser vivida.” Se eles têm curiosidade de sair com alguém do mesmo sexo, vão lá e saem. Sair com o sexo oposto? Também. E se quiserem não são obrigados a escolher nada. “Acho que as coisas ficam mais fáceis assim.”
Duas pesquisas ilustram essa tendência, uma americana realizada pela Agência J. Walter Thompson Innovation em que apenas 48% dos jovens da Geração Z (nascidos após 1995) se assumem como “100% heterossexual”. E uma brasileira realizada pelo Núcleo de Tendências e Pesquisa do Espaço Experiência FAMECOS/PUCRS realizado com jovens de 18 a 34 anos indica que quase 30% dos jovens brasileiros não se consideram heterossexuais, são bi ou homossexuais.

Essa questão de “será-que-sou”, embora hoje aparentemente não preocupe F., o angustiou até seus 25 anos mais ou menos. “Eu tinha essas cobranças que as pessoas fazem, né? De ‘escolher um lado’. Mas eu me relacionava bem, com os dois. Tinha prazer com os dois.” Mas depois que entrou na universidade para cursar arquitetura, percebeu que ali ninguém o cobraria de nada.
Sua primeira relação foi aos 15. Embora namorasse mulheres, acabou transando com um colega. Mas e aí, descobriram? “Ninguém ficou sabendo. A gente se relacionou algumas vezes [dos 15 aos 17], mas nada muito ‘fixo’.” Nessa época ambos também saíam com mulheres, então era mais fácil não serem flagrados ou cobrados por suas escolhas. (Hoje não tem mais contato com o amigo, mas sabe que “ele está casado”.)
F. também juntou os panos. Viveu ao lado da mesma mulher por seis anos. Mas separaram-se de forma “amigável” em 2004. Sua bissexualidade não teve nada a ver com isso, antes que você pense besteira. “Simplesmente a relação acabou se tornando mera amizade”, lembra. “Então antes que a coisa começasse a desandar — e até porque minha filha ainda era pequena — decidimos de comum acordo nos separar.”
A filha hoje tem 14 anos. E é o xodó do pai. Religiosamente a pega às sextas-feiras; e até domingo, sua vida não é outra coisa senão ela. Ficam em casa, saem… Segundo F. “nos dois somos grudados”.
Mas nem isso, nem o fato dela ser oriunda da Geração Z (“a geração mais nova, é muito mais ‘aberta’ e com menos preconceito do que a nossa”) fazem o papai Geração X (natos dos anos 1960 ao final dos 1970) ter “aquela conversa” de pai para filha.
As situações apresentadas por mim são várias… Mas as respostas custosamente saem do “não”. Perguntei se ela comentasse da própria sexualidade com ele, se aproveitaria para falar da sua: “Não (repete o não mais três vezes)”.
Mas não pensa em ter uma conversa com ela? “Não tem por que.”
Tem medo de que ela se assuma e sofra preconceito por isso? “Hmmmm (pensa), não vejo assim. Se for alguma coisa que ela decida, vai ter que entender que existem situações que não são fáceis de enfrentar. Ou, por mais evoluída que a sociedade esteja com relação a isso nos últimos anos, são situações que ainda existem. Certo preconceito.” Mesmo assim, o pai coruja afirma “pelo que eu vejo hoje” que a filha não parece ser nem homo nem bi. “Ela tem uns namoradinhos por aí.” (Embora isso, ainda mais por conta da pouca idade, não seja algo imutável — a exemplo do próprio pai.)
Insisto uma última vez: e se ela vier e perguntar a opção sexual do pai. Mesmo assim não diria a ela? “Se ela perguntasse assim na lata eu teria que conversar com ela.”
(Mas nem assim ele diz “sim, eu falaria”.)
“Falaria que as pessoas possuem gostos, mas isso não significa que elas sejam melhores ou piores do que outras por esse tipo de coisa — das suas escolhas… Pelo contrário elas têm esse direito: o que importa é o caráter. Não o que ela faz entre quatro paredes.”
(Faz uma pausa e retoma.)
“É muito mais importante a pessoa ser honesta, íntegra e ética do que ficar se preocupando com outras coisas. Isso é algo que eu falaria pra ela se me perguntasse.”
Durante toda a conversa F. mantêm-se calmo, voz mansa… De tão baixa é quase sonolenta. Olha fixamente para mim, para as poucas anotações que faço… O corpo mostra vida vez por outra, quando cruza os braços, ou coloca uma mão sobre a outra em cima da mesa. Uma vez apenas atende ao iPhone, porque havia recebido duas mensagens e poderia ser algo importante (“Coisas de trabalho, desculpe”).
A essa altura, consigo assimilar na decoração — antes descrita como “tímida” — a personalidade de seu dono. Sua casa, embora aconchegante, parece querer esconder mais do que mostrar. O seu lado jornalista (trabalhou como assessor de imprensa um tempo) diz as coisas meio-não-dizendo… Como que a se defender de alguma coisa… Não notei nenhuma foto de família no ambiente (mas confesso que também posso não ter olhado direito).
Até que uma questão me veio à cabeça: porque diabos F. não diz logo que é bissexual? Medo, vergonha? Para ele, nada disso. Usa, mais de uma vez, o argumento de que “não tenho que ficar falando pra ninguém o que eu faço ou deixo de fazer”. E concordo com ele, até certo ponto. Quando me diz sobre quando sua família quase o descobriu.
Logo quando terminou o casamento, começou a encontrar-se com um rapaz. E alguns parentes viram. Depois disso, começaram as perguntas sobre “quem era fulano” — já que ninguém o conhecia. Resumiu toda questão e burburinhos futuros em uma simples frase: “Era um amigo”.
Essa questão nem chegou aos ouvidos do pai ou da mãe. Ficou só nos parentes que viram. Preocupado? Claro que não. Diz que não mudou os lugares por onde andava, nem ficou mais discreto. Preocupado sobre a ex-mulher (então recém-separada) descobrir? “Também não.”
Seus não’s constantes me irritam a certa altura. Começo a imaginar se fosse comigo. Pelos seus não’s, sua calma, parece o ser humano mais bem resolvido que existe — e realmente acredito que ele o seja. Então não entendo como a pessoa, de tão bem resolvida, não se assuma com naturalidade.
Não seria mais fácil ter dito logo para a família toda quando houve o questionamento e livrar-se logo disso ao invés de mentir para eles? “Não menti nem falei a verdade, apenas falei o que foi visto, ou seja, absolutamente nada. Era apenas um encontro comum sem qualquer outra implicação.”
Politicamente, nenhum LGBT o representou nessas eleições. Acha que questões políticas e militância “feito esse programa eleitoral que estou vendo aí, pelamordeDeus, um pior que o outro”. Parada Gay? Nunca foi, mas tem opinião formada a respeito: “Aquilo é uma bobagem, um Carnaval fora de época. Não serve para nada.” E conclui com a frase de uma amiga: “A partir do momento em que você é representado por gente de sunga, bota e pena (risos) você deixará sempre a desejar”.
Gente, calma, ele não é contra os gays ou algo assim… Porém a militância xiita e as cobranças em cima dele também deixaram marcas e mágoas. “Acham que você na verdade é homo e não tem coragem de se assumir. Então tem cobrança — pelo menos no lado homo — de colocar que você tem que optar por A ou B.” E parece que não é desinformação sobre a bissexualidade, segundo ele: “É questão de postura mesmo (da sociedade como um todo). Que exige de você uma definição.” “Se as pessoas se preocupassem menos com rótulos e bandeiras acho que o mundo seria 50% melhor.”
Por causa disso, a menos que perguntem, não diz ser bissexual. Questiono se o outro não tem direito de saber, ou se ele — se fosse o contrário — não gostaria de saber? A resposta é meio mal criada por um lado, e extremamente conservadora por outro. “Por quê? (Três segundos de silêncio.) Se eu estou com a pessoa, por que eu tenho que falar? Se estou me dedicando 100% a ela, estou levando — no caso de um relacionamento — a coisa séria, com seriedade, compromisso, ética, por que eu tenho que dizer?”
Então ele começa a explicar um pouco sobre diferenças do homem e da mulher: homens perguntam mais se ele é bi, gay, assumido, etc.; mulher não (afinal, se ele não diz que é bi, as mulheres não têm porque perguntarem).
Desde seu fim de casamento, relacionou-se duas vezes com mulheres (somando quatro anos totais de relacionamento). Um não deu certo porque ela foi estudar nos EUA, e o outro foi “incompatibilidade”. Desde 2008 só sai com homens. Mas “não passou de um ano” com eles.
Não durou não é porque homens são mais promíscuos, é porque ele está se dedicando mais ao trabalho agora. “Eu sei que um relacionamento exige muito. Por isso estou mais com relacionamentos casuais do que coisas mais sérias.”
O que F. gosta de deixar claro, é que ele tem fases: ora sai mais com homens, ora mais com mulheres. Às vezes as duas vontades veem juntas. Mas nada é automático, “ligue e desligue a chavinha, sabe?”.
As mulheres, por mais desinibidas que sejam, são mais “cheias de dedos”, segundo ele. Já homens são mais “assertivos ao que querem e porque querem”. “Sabem onde pegar; sabem onde dar prazer.”
Por falar em fases, se quiser saber as dele, é fácil. Varia de dois a quatro. “Hoje estou mais pro 4 do que 3 e 2. Mas fico nessa faixa.” Não entendeu? Há uma famosa escala de sexualidade criada pelo Dr. Kinsey, um entomologista norte-americano e fundador do Instituto de Pesquisa sobre Sexo, que varia de zero a seis. Zero é “unicamente heterossexual” e seis “unicamente homossexual”. F. varia de Heterossexual, mas homo com frequência (2); Bissexual (3); e Homossexual, mas hétero com frequência (4).

Com relação às suas “fases”, isso não faz os parceiros terem receio de não o satisfazerem totalmente? Ou terem medo de, com o passar dos anos, a vontade dele sair com parceiros de outro sexo aumente? “É a mesma chance”, diz com afinco. Ele pode estar namorando e se interessar por outra(s) pessoa(s), mas isso não aumenta ou diminui por sua sexualidade. Se fosse assim “todos os gays seriam 100% fiéis? A gente sabe que não é. Senão não teriam todos esses aplicativos que existem por aí de pegação”. Mas afirma que quando está em um relacionamento sério se dedica exclusivamente ao parceiro; e — sim eu fiz essa pergunta indelicada — “não, nunca” traiu sua esposa.
Mostrar um bissexual com vários parceiros não acaba mostrando uma imagem negativa da comunidade LGBT — por isso o argumento do “ter que escolher um lado”? A resposta vem na ponta da língua: “Ah, como se eles fossem muito castos, né? Só um passeio por baladas gays aí você já vê o que rola”.
Medo de apanhar nas ruas do país mais perigoso do mundo para gays e transexuais? Não, nunca teve. “Até porque não sou do tipo que fica desfilando por aí.” Diz que os que batem em LGBTs “são minoria dentro da sociedade”. E as pessoas de pensamento conservador é “que são o problema”.
Segundo F., os setores mais conservadores são os menos intelectualizados. (Peço que dê um exemplo e diz: “o ambiente universitário aceita mais o tema [homossexualidade] do que o de motoristas de ônibus, por exemplo”.) E a visão dessas “camadas mais baixas” ainda é a do gay caricato… Praça é Nossa e Zorra Total. De vestes carnavalescas que estereotipam a classe.
Isso faz eu e ele entrarmos num debate de ideias:
Mas eles talvez não façam isso para serem aceitos?
F.: Aceitos por quem? (Responde com certo deboche.)
Então eu já pensei sobre isso (sem embasamento algum, claro). Será que eles não fazem isso para não serem vistos como estranhos… Mas sim como…
F.: Estranhos. (Finaliza.)
Mas se ela entra assim e faz um show, todo mundo bate palmas.
F.: Sim, mas, ela será aceita pela sociedade? Não sei tenho minhas dúvidas. Acho que quando uma pessoa chega a assumir esse personagem, essa persona, tem que viver exclusivamente dentro do meio. Nunca verei uma Drag Queen na bolsa de valores. Até pode existir, mas eu não vejo um cara todo espalhafatoso como caixa de banco. Acaba vivendo dentro daquele meio, que também acaba virando um gueto entre eles.
Acha que bissexuais também vivem em guetos?
F.: Acho que até por essa questão de sempre estar “pendendo” de um lado pro outro não formamos guetos. Que é diferente como você falou: do cara espalhafatoso. Ele acaba vivendo dentro de uma comunidade. E se prende ao negócio. Até sair em cima do carro alegórico numa parada gay.
Acredita que o Brasil já avançou bastante sobre a visibilidade LGBT, inclusive por influência de outros países, da internet, dos programas de TV, filmes e novelas que cada vez mais tratam do assunto. E que, os homossexuais terem direito de casar em cartório e terem os mesmos direitos civis que um casal heterossexual — inclusive sobre adoção — “já é uma grande evolução”. A questão de gostos e gêneros tem que ser vista “com naturalidade” e não como “tapa-na-cara”. Mas acredita não ter mais para “onde evoluir depois disso”: “Casar na igreja? A igreja nunca vai abrir suas portas para uma cerimônia cristã — ou judaica ou muçulmana — para um casal homossexual porque eles têm seus dogmas. Também acho que é algo que não deve ser discutido. A comunidade LGBT também tem que respeitar as outras instituições”.
Bom, F., estamos com mais de uma hora de conversa. Quer deixar alguma última mensagem aos leitores que estejam passando por alguma situação difícil. Que precisem de um conselho?
“O mais importante é a autoaceitação. A pessoa se autoaceitando, independente do que faça, vai ser feliz com ela mesma e com o meio em que vive. Não necessariamente sendo militante ou carregando bandeiras, mas tem que ter uma vida boa. Tem que estar feliz consigo mesmo. Acho que é a coisa mais importante que possa existir.”
Com o fim da entrevista, percebo que a chuva deu uma parada. Apronto minhas coisas e vou ao banheiro. Quando saio ele está sentado no sofá, tenta puxar assunto:
“E você?”
“Eu o quê?”
“Já pensou em sair com rapazes?”
“Hmmm, não; nunca me atraí por homens.”
Sinto aquele desconforto novamente, falo que vou aproveitar antes que uma nova chuva venha e vou embora.
O machismo é tão enraizado na comunidade masculina que é geralmente isso que acontece: os homens são criados a serem “caçadores” desde sempre (principalmente na relação homem x mulher), que quando sentem alguma abordagem (ou apenas algo que “possa insinuar” isso) de outro macho (outro “caçador”, em suma), sentem-se caça — posição até então submetida sempre às mulheres e à qual ele nunca esteve. A reação instintiva resume-se em “fugir” (como vergonhosamente fiz) ou “atacar” (como vergonhosamente vários homens fazem).
Sentindo-me mal comigo mesmo, mando uma mensagem agradecendo a entrevista e avisando que já estava no ônibus. Por fim, como resposta, recebo o convite:

O dia seguinte
Embora F. defenda que a sociedade precise ver essa questão com naturalidade, ela não parece se refletir na prática. Nem na própria vida. O próprio fato de não querer ser identificado acaba passando isso.
Estar dentro de uma gaiola aberta, apesar da “sensação” de liberdade, ainda é estar engaiolado. Que esse relato ajude — um pouquinho que seja — a construirmos um mundo sem gaiolas.
Mesmo depois de esquivar-se durante a conversa, espero 24h e faço mais algumas perguntas via aplicativo de mensagens e a última questão sobre sua relação Família x Sexualidade: Hipoteticamente, acredita que seus pais o aceitariam melhor se você se assumisse bissexual ou homossexual?
Pela primeira vez, seu lado assessor cai… E descubro um pouco da opinião (ou preocupação?) de F.:
“Acredito que não aceitariam sob nenhuma hipótese, mas não é algo que pagarei para ver… rs”.
Interpretei esse “… rs” como um sorriso amarelo…

