Até quando vamos continuar a nos perder dos nossos amigos?
Precisamos nos reencontrar com nossos amigos e quem queremos bem antes que eles próprios não possam mais fazer o mesmo.


Era uma sexta-feira, 13, do ano de 2012. Eu precisava ir até a faculdade entre o fim da tarde e o começo da noite para assistir a uma aula de Direito Administrativo. Uma daquelas chuvas torrenciais caía sobre o Centro do Rio. Daquelas que a “sombrinha” feita na China e saindo na promoção “Familião é DEZ!” não resistiria a dois temporais, mas somente a um: aquele temporal.
Saí corajosa da estação do metrô da Central, com um par de botas pretas, minha mochila e a sombrinha que mal me abrigava. Quando dei por mim, a chuva havia feito um buraco na meio da minha sombrinha e alguns jatos de água começaram a me encharcar durante a parte do caminho a pé até a faculdade. Estava na metade do caminho, quando um ônibus passou na contramão da pista colada à calçada onde eu estava. Ele passou com tal força que espirrou uma quantidade considerável de água que descansava numa poça ali perto. Eu estava suja e molhada da mistura de água de rua e chuva da cabeça aos pé (após a tentativa falha de bloquear a onda com a sombrinha destroçada).
Mesmo assim, segui o meu caminho até a faculdade, não exatamente por ser “caxias”, mas por não querer perder o dinheiro da passagem que usei para ir até lá. Antes de pegar o elevador para a sala onde haveria a aula, uma mão fina e branca me pegou no braço:
“Oi, Karol” — disse a dona da mão em tom de surpresa e encarando minhas vestes molhadas. Era Emily*, uma moça atarracada que foi minha colega quando puxei uma disciplina no turno da manhã no começo da faculdade. Emily era uma colega que eu considerava “amiga” pela proximidade que ela tinha com outras duas grandes amigas minhas. Ela havia desistido de Direito, mesmo sendo a melhor aluna que a faculdade já pode ter tido. Suas notas, raramente, eram abaixo de “dez”. Mas ela tinha vocação para o desenho e, por isso, resolveu trancar o curso de Direito e ir para Design Gráfico ou Desenho Industrial (infelizmente, a memória cansada de quem escreve não consegue lembrar esse detalhe).
“Oi, Emi! Como você está?!” — respondi, em tom exasperado. Eu, realmente, não a via há muito tempo. E, pelo que me constava no Facebook, também há muito não recebia notícias dela.
Ela não falou muito sobre si. Parece que nossa conversa de três minutos só se resumiu a mim explicando por que eu estava ensopada. Dei um abraço nela e segui meu rumo:
“Manda notícias! Bom te ver” — encerrei a conversa, seguindo para o elevador. Não sei se porque, hoje, tenho ciência de fatos posteriores àquele momento… Mas algo me faz crer que eu percebi um quê de tristeza no rosto de Emily quando a deixei. A última memória que tenho dela é de alguém cabisbaixo, encarando por trás dos óculos os próprios sapatos.
Foi a última vez em que vi Emily na vida.
Eu estava mexendo a barra de rolamento do Facebook, quando apareceu a mensagem intitulada como “NOTA DE FALECIMENTO” no grupo online dos alunos. Emily tinha se ido. Só não era dito o porquê, nem como. Procurei na listagem de grupos o da antiga turma da manhã da qual fiz parte por um semestre ou dois. Lá, alguém alertava: “vamos ter respeito com o que aconteceu. Há boatos de suicídio e a família precisa da nossa ajuda…”.
Eu não acreditava no que via. Parecia que, não fazia muito tempo, ela estava ali, encarando as minhas vestes molhadas contra as quais eu tanto praguejava! “É isso que a gente ganha…”.
Fizeram o anúncio do enterro. Eu não tive coragem de ir. Ou a vontade. O cemitério era longe. E parecia que, se eu o fizesse, eu receberia o atestado de realidade do que estava ali escrito no mundo cibernético. Alguns tantos bytes de desolação.
Um ano depois da morte de Emily, eu jurei cuidar dos meus amigos. Mesmo não sendo a pessoa mais atenciosa do mundo com os outros. Vi um desenho de Emily em sua conta (estática) de Facebook… Acabei compartilhando o desenho na minha, como se fosse a última homenagem que eu pudesse prestar. O que faltou a ser dito? O que faltou a ser feito que pudesse ter impedido uma alma boa, inteligente e caridosa se ir porque ela mesma se perdeu?
What if there was no light
Nothing wrong nothing right
What if there was no time
And no reason or rhyme
What if you should decide
That you don’t want me there by your side
That you don’t want me there in your life
Primeiro semestre de 2015. Eu estava feliz de estar concluindo a faculdade. Último período. Peguei, mais uma vez, uma disciplina no turno da manhã em que revi grandes duas amigas. Uma delas, eu também sabia, estava se formando em Direito apenas por se formar. Ela também tinha um grande talento que não era o da área jurídica. Contudo, também era inteligentíssima e aluna notável do curso de Direito. Eu não a perdi para o suicídio, mas de outra forma:
“Você sabia que eu estou tomando anti-depressivos há um ano? Você sabe o nome do meu namorado?” — reagiu ela, num dia de pressão em que meu grupo, em que ela estava inclusa, deveria entregar um trabalho a pedido do professor.
Sim, eu sabia o nome do namorado dela — bem mais com a ajuda do Facebook do que por um esforço meu em procurá-la para conversar. Mais uma vez, eu persistia no mesmo erro: em não cuidar dos meus amigos. Mais focada em mim do que qualquer outra coisa.
Hoje, eu sei: às vezes, tudo que uma alma perdida precisa é de alguém que a encontre e retire-a do ambiente de escuridão, de desatenção… De falta de cuidado.
Final do ano de 2015. Eu estava fazendo as unhas no Praia Shopping, em Botafogo. Pego o celular e, como de costume, manipulo-o na mão que não está com as unhas sendo feitas. Engasgo-me.
A vontade era de gritar. A última vez que eu tinha visto Leo* havia sido em meu aniversário naquele ano, quando o convidei para tomar um café da tarde na Colombo do Centro com mais uma dezena de amigos. Ele estava muito feliz de gastar sua remuneração do estágio naquele lugar suntuoso. “Futuros grandes frequentadores da Colombo”, eu disse a ele. Mas essas palavras não se concretizaram, pois Leo se foi. E, mais uma vez, eu saberia disso por uma postagem de Facebook: um dos nossos amigos em comum digitou um texto de adeus.
A notícia do enterro veio e demarcava-o para um cemitério bem longe de onde eu morava no Rio. Mas, f*da-se, eu iria. Sim, dessa vez, eu iria. Chego ao enterro, no dia seguinte ao recebimento da notícia, e qual não é a minha surpresa quando ouço o burburinho de nossos colegas:
“A gente não sabe como ele se foi… Ele estava muito estranho ultimamente. Falava de ansiedade, de dúvidas… Dos pais que não o aceitavam como ele era. Ele se afogou, mas, naquele mesmo dia, ele havia começado a tomar um remédio pesado…”.
Leo morreu no mar. Deixou seus colegas jogando vôlei na areia, foi nadar e nunca mais voltou. Não teve tempo de dizer nem para quem dizer se ele mesmo assim quis.
A nós, amigos pesarosos, só nos restava imaginar…
A nós, só restava pensar: quantas vidas ainda se irão se eu não ajudar ou não olhar atentamente aquele que está ao meu lado, às vezes, sorrindo, às vezes, aparentemente bem?
Se não apertamos bem o olhar para aquele que está ao nosso lado, quem o salvará quando ele mesmo perdeu a fé em algo maior ou em si para se salvar ou para seguir com a própria vida?
*Os verdadeiros nomes foram substituídos por denominações fictícias de modo a preservar a memória desses amigos queridos, a família e demais conhecidos dos mesmos.