arte em tempos de crise

De natureza econômica, política ou alérgica, arte pode ser mais que um bom calmante em momentos de colapso

Qualquer resfriado que nos coloca de cama por alguns dias é uma bela oportunidade de terminar aquele livro ou ficar em dia com a última temporada da série favorita.

No Reino Unido, isso já não é uma questão de aproveitar o tempo livre ou de gerar um prazer imediato em meio a medicações. Por lá, consumir arte já pode ser o remédio em si. Um estudo recente descobriu que 66% dos clínicos gerais acreditam que as artes desempenham uma função positiva na prevenção de doenças. Em um futuro próximo, poderemos ver artes visuais, literatura ou performances artísticas sendo receitadas como meio de prevenção ou até mesmo de melhora, em casos de depressão ou doenças crônicas.

Eduardo Srur, "A Arte Salva", 2011

Eu ainda não conhecia essa pesquisa na última vez que fiquei gripado, mas aproveitei para começar a leitura de um livro que me fez seguir a tendência britânica sem querer. O nome era sugestivo para a ocasião: “Your Art Will Save You”, da americana Beth Pickens. A prescrição do livro é um pouco mais específica que a pesquisa britânica: arte pode salvar a vida de quem já faz arte.

Beth é uma consultora artística que se dedica principalmente a artistas marginalizados: mulheres, negros, artistas queer e transgênero, artistas de baixa renda ou “esquisitos brilhantes que fazem coisas que desafiam o entendimento comercial”. Na maior parte dos casos, sua grande função é mostrar aos artistas que é possível fazer arte, independente das adversidades particulares de cada um. A partir de um plano de arrecadação de verba, de motivações personalizadas ou até da criação de residências artísticas específicas, Beth se compromete com a mudança de postura do artista, fazendo com que ele continue produzindo. As experiências pelas quais já passou são suficientes para criar incômodo e estímulo ao leitor; em meio aos relatos, Beth insere alguns exercícios para desarmar algumas das armadilhas típicas da carreira artística, como a falta de tempo, de dinheiro ou de inspiração.

Antes mesmo de se aprofundar nas suas histórias e métodos, Beth faz questão de esclarecer o porquê do nascimento desse livro agora, em 2018. Segundo ela, o contexto atual, no âmbito americano e mundial, pode não ser dos mais favoráveis para os artistas.

“Agora, muitos artistas podem pensar ‘talvez eu tenha que parar com isso, é um pouco egoísta da minha parte estar fazendo arte agora. Eu devia estar ajudando pessoas de uma forma mais efetiva’. Para fazer esse livro, eu li muito sobre produção artística em tempos de guerra, em tempos de violência ou até mesmo na época da pandemia da AIDS. Historicamente, são os bravos e os criativos que lideram, que resolvem os problemas, que incitam, inspiram, organizam, confortam, satirizam e refletem. Eu suplico: não pare de fazer arte. Eu preciso, nós precisamos. Você não está sozinho.”

As palavras de Beth têm poder para surtir efeito no mais iniciante dos escritores e no vencedor do Oscar ao mesmo tempo. À primeira vista, achei que pudesse ser uma visão inocente e ingênua. Resolvi ir atrás de outras leituras sobre arte em tempos de crise para ver se o livro não se passava de uma utopia ou se eu podia realmente acreditar que arte pode ser o remédio para as mazelas do mundo.

Em um artigo do escritor Austin Kleon chamado “Não é hora para desespero”, pude encontrar trechos de outros escritores que já refletiram sobre esse tema. Logo nas primeiras linhas, o artigo destaca um momento de insegurança de Toni Morrison, a primeira mulher negra a ganhar um Prêmio Nobel de Literatura. Enquanto contava a uma amiga pelo telefone como estava desestimulada a seguir fazendo arte em tempos sombrios, foi interrompida do outro lado da linha:

“Não! Não, não, não! Esse é o exato momento que os artistas tem que trabalhar — não quando tudo está bem, mas em tempos de temor. Esse é o seu trabalho!”

Na sequência do artigo, aparece um trecho do historiador Howard Zinn, no seu livro “Artistas em Tempos de Guerra”, onde ele destaca o termo “transcendente”, ao dizer que o artista transcende “o imediato”, “o aqui e agora”, e “a loucura do mundo”:

“O artista pensa, atua, canta, toca e escreve fora da estrutura que a sociedade criou. O artista não pode fazer nada além daquilo que nos oferece beleza, riso, paixão, surpresa ou drama. E eu não minimizo essas atividades dizendo que o artista não pode fazer nada além disso. O artista não precisa se desculpar porque está fazendo isso: está dizendo para nós o que o mundo poderia ser, mesmo que ainda não seja agora. O artista está nos tirando dos momentos de horror que vivenciamos diariamente — alguns dias piores que outros — nos mostrando o que é possível.

Em algum outro lugar da internet, Haruki Murakami, um dos maiores escritores da atualidade, sintetiza de forma direta a postura que os artistas podem assumir nesse momento:

Responder criativamente à tragédia é enfatizar o que há de bonito sobre humanidade. Esse é o nosso tipo de ativismo.
Você pode escolher expressar sua esperança pela humanidade — ou seu desespero sobre o estado do mundo — pelos seus dons, não necessariamente políticos. Você não precisa marchar ou se não estiver disposto e ainda assim você pode contar com a sua contribuição criativa no combate.

Se alguns discursos motivacionais já não são suficientemente estimulantes, o mesmo artigo ainda traz alguns números sobre um dos lugares mais instáveis do planeta. Existem 625 centros culturais nos territórios palestinos: 545 na Cisjordânia e 80 na faixa de Gaza, além de 32 museus — 27 na Cisjordânia e 5 na faixa de Gaza. "Tem muita cultura num território de 2200 m² onde a própria existência é um grande esforço".

Na tradição judaica, o conceito de tikkun olam, ou “reparando o mundo”, é muito simples: qualquer atividade que conduz para um estado mais harmônico é válida e valiosa. Para o enfermo, pro aprendiz e para o artista consagrado, arte não é paliativo: é uma alternativa real e eficaz para arrumar o mundo. Não se vende na farmácia nem se aprende da noite pro dia, com meia dúzia de leituras de relatos. Mas a história pode servir de alento, de ânimo e de coragem.