Como abandonar o Instagram me fez apreciar arte novamente

*Artigo original: "How Quitting Instagram Made Me Appreciate Art Again"
Artsy; 6 de fevereiro de 2019
Autor: Scott Indrisek
Tradução:
André Porto


Minha esposa ria ao se espremer dentro de uma gaiola, e lá estava eu, parado e só observando, nem mesmo tentado a registrar esse momento para publicá-lo (#brucenauman #momaps1 #doublesteelcagepiece #apertou). Nós estávamos na retrospectiva de Bruce Nauman no MoMA e, na época, eu estava praticando um detox temporário de Instagram, o qual acabava envolvendo um pouquinho de auto sabotagem. Em vez de abandonar completamente o aplicativo, pensei, por que não apenas definir alguns parâmetros? Sou um adulto, afinal. Eu me limitaria, faria uma deliciosa e demorada curadoria com cada publicação. Restringir-me a postar uma única imagem por semana seria a solução para reduzir meus terríveis impulsos. (Foi desse mesmo jeito que eu já havia tentado — e falhado — parar de fumar e beber: "só cinco cigarros por dia! Só sete garrafas e meia por semana!") Enquanto isso, eu não manteria o aplicativo do Instagram no meu celular — eu o apagaria e baixaria novamente a cada cinco ou seis dias, para que eu ficasse mais atento e pleno. Esse vai e vem inútil seria a chave da mudança, abriria novos caminhos e novas formas de ser.

E isso já era um grande passo, já que eu sou o tipo de pessoa pra quem o post no Instagram se tornara um tique, o equivalente fotográfico da logorreia. No momento em que eu parei, já tinha postado um total de incríveis 14.479 imagens ao longo dos anos. Em um dia qualquer, eram várias as coisas que eu precisava desesperadamente compartilhar com o mundo: uma foto chique do meu gato, Chloe Zola Volcano; um detalhe da nova exposição da Dana Schutz; uma foto de um colchão sujo largado no meio-fio, legendada de forma pomposa como se fosse uma peça de arte em uma instalação. Eu tinha 6.241 seguidores, o que até era alguma coisa. Minha marca era a irreverência, entende? Eu até comecei, mesmo sem querer, a entrar na onda dos stories, principalmente porque eu li em algum lugar que esse tipo de “engajamento” era a forma mais rápida de conseguir novos seguidores.

Mas, no geral, eu usava essa rede social de maneira extremamente anti-social. Ao invés de percorrer pelo feed interminável, com suas imagens de vidas alheias que eu provavelmente não conhecia e provavelmente não ligava, eu verificava obsessivamente o aplicativo para ver como as minhas próprias postagens estavam indo. Por que essa foto de um manequim estranho de Isa Genzken não deu curtida nenhuma? E o que era tão popular na placa acidentalmente obscena pendurada do lado de fora da lavanderia local?


Eu suspeitava há muito tempo que o Instagram estava matando a minha relação com a arte, o meu jeito de andar por museus e galerias.

É fácil zombar dos turistas que apontam seus smartphones no MoMA ou no Met, cegamente mirando nas obras-primas e tirando fotos borradas delas.

Por que? Minha prática no Instagram parecia de alguma forma mais madura — um close em um detalhe mostrava que eu tinha uma sensibilidade refinada. Claro, você poderia pesquisar o mesmo quadro do Grant Wood e vê-lo em uma gloriosa alta resolução, fotografado profissionalmente, mas eu estava me estreitando em um momento particular de Grant Wood, porque é algo que meu olho idiossincrático percebeu, e eu espero que você curta. Sério, por favor, curta.

Ouvimos muito sobre os perigos da “arte de Instagram”, que eu costumo entender como coisas espetaculares e generalizadas feitas para se tornarem virais nas mídias. Mas o problema não é só que um certo tipo específico de trabalho acaba atraindo esse rótulo. O problema é o que acontece quando toda arte é arte de Instagram, quando até mesmo uma jornada solitária por um museu se torna um ménage a trois: você, a arte e seu telefone, com o mundo todo supostamente assistindo.

Isso cria muita dissonância cognitiva. Eu entrei em exposições recentemente que me deixaram totalmente frio e indiferente, mas ainda assim eu segui as regras e tirei minha foto própria da instalação; esse arranjo modesto e modular de painéis abstratos e coloridos na parede pode não ter graça nenhuma pessoalmente, mas com o ângulo e a iluminação corretos, tornam-se emocionantes no Instagram. Enquanto isso, uma pintura ou performance que são incríveis na vida real geralmente não se traduzem bem no mundo plano do aplicativo. Em vez de aproveitar a experiência à medida que ela acontecia, eu me sentia repentinamente pirando com a incapacidade de capturar e compartilhar esse sentimento inefável.


Minha decisão pessoal de finalmente deletar o Instagram foi o estopim de um longo ano de desmembramento das minhas redes sociais. Isso começou em 2018 com o Facebook, onde eu tinha 5000 melhores amigos, muitos deles completamente desconhecidos (eu sinto muita saudade de cada um deles agora). Ao longo do ano, depois de um comentário desagradável que foi a gota d'água, eu também ofereci uma despedida a todos os meus 2000 seguidores do Twitter.

Só restava o Instagram, que soava muito mais benigno — tirando o fato que também pertence ao Facebook e protagonizou um papel fundamental na interferência russa nas eleições de 2016. Mas as pessoas não estão compartilhando suas fétidas opiniões políticas no Instagram. Você não tem que percorrer o textão de sua ex-colega de quarto sobre veganismo ou o compartilhamento do seu tio sobre a história de 2013 que desmascara Hillay Clinton. O que você tem no Instagram são as férias invejáveis das pessoas, seus animais de estimação, as bobagens ou seriedades que eles veem todos os dias; esquisitos gloriosos no metrô, aberturas de arte no Lower East Side.

O aplicativo em si também soa — pelo menos à primeira vista– como uma boa forma de relembrar experiências. Não é só uma boa desculpa para compartilhar muitas coisas; é um diário pessoal, uma coleção de memórias visuais, um arquivo daquilo que vimos e gostamos. Como eu seria capaz de relembrar coisas que mexeram comigo? Será que uma outra visita ao Dia Beacon seria tão boa se eu não pudesse posar para selfies patéticas nas instalações de luzes?

Faz parte da natureza viciante das redes sociais que se libertar seja tão hiperbólico. (Os aplicativos fazem isso, é lógico; é por isso que deixar o Facebook envolve passar por tantas etapas, sendo relembrado que todos as suas memórias preciosas se transformarão em poeira em breve, que você pode morrer sozinho e sem nenhum mísero like). Não ficar apegado ao Instagram significa simplesmente que o seu olho vai relembrar, voltando a ser normal novamente; você não é mais um observador na busca incessante por aquilo que provavelmente vai ser bom em um formato quadrado no feed de alguém.

Isso não significa que não há dor ao longo deste processo. Durante a semana inicial do meu período de detox, eu visitei a apresentação da Lena Henke no Bortolami, que é justamente subestimada, com uma grande exceção: uma escultura enorme de um porco roxo. Se aquele porco pudesse falar, ele estaria implorando para ser fotografado. Eu ainda não conseguia resistir a uma foto – mandei para minha esposa, ao invés de 6241 de conhecidos e estranhos – mas passear pela exposição sem o enquadramento do Instagram simplesmente significava que eu estava mais envolvido. Ao invés de me preocupar sobre qual foto eu deveria tirar e quantos seguidores iriam gostar daquilo, eu só pensava se eu gostava daquilo que estava vendo. Isso soa como uma confissão patética (e é), mas é muito libertadora.

Visitas recentes em galerias — com meu Instagram sendo oficialmente um defunto, deletado e morto — literalmente abriram meus olhos. No Derek Eller, eu vi as abstrações hipnotizantes de EJ Hauser. Na Gladstone Gallery, vi a exibição da Claudia Comte de murais inspirados na Op-art — uma experiência que clamava por selfies. Na Lisson Gallery, eu admirei a obra Figure Eight, do Van Hanos — um retrato de uma mulher e um homem nus numa cama, com a imagem deles obscuramente fora de foco. O truque, inspirado pelo Gerhard Richter, parece ter sido feito para o Instagram (onde algum seguidor pode se questionar se existe algo errado com a pintura ou com o seu próprio celular). Mas simplesmente gastar um tempo com a obra pessoalmente, vendo tudo sem documentar nada, me pareceu novo — uma força pulsante para guardar tudo no meu cérebro, ao invés de compartilhar imediatamente no Instagram como um sinal de bom gosto e refinamento, um lembrete para o mundo que eu estava naquela galeria, admirando uma pintura do Van Hanos.


Não há nada mais cansativo que um ex-viciado que não para de falar como se sente bem agora. Finalmente deletar minha conta foi um salto, talvez não tão grande assim, mas muito recompensador. (Se você está considerando fazer o mesmo mas está preocupado em perder tudo que já postou, existe uma forma fácil de arrumar isso). Eu estou muito ciente que existem pessoas que usam o Instagram e outros aplicativos de redes sociais de uma forma saudável e com discernimento; que adoram ver o que os amigos e a família estão fazendo; que gostam de poder seguir artistas e seguir de perto o progresso de alguns projetos enquanto se desenvolvem no estúdio. Talvez você viva em cidade pequena, muito distante de um museu decente e vê no Instagram um portal de fácil acesso para ver o que está acontecendo nas galerias de Nova York, Los Angeles ou Berlim. Talvez você só queira postar infinitas fotos dos seus gatos, já que eles são os gatos mais fofos que já existiram no planeta. (Sei como é.)

Mas ultimamente, pelo menos para mim, Instagram começou a ser um fardo, que estava arruinando a forma que eu pensava e experimentava a arte que eu estava vendo pessoalmente. Não é novidade; inclusive, o que não falta por aí são laboratórios caseiros sobre como o Instagram e outros aplicativos de redes sociais estão deteriorando nossos cérebros, transformando nossas crianças e nos transformando numa sociedade de zumbis sorridentes. Mas o que realmente me levou a deletar meu perfil foi um dilema honesto: o que eu estava recebendo do Instagram e o que eu estava deixando de lado por isso?

Quando minha esposa estava dentro do Nauman’s Double Steel Cage Piece (1974) no MoMA, eu senti uma tensão estranha. A obra permite que uma pessoa por vez explore o seu interior, navegando um corredor retangular que, até para uma criança, é claustrofóbico e aprisionador. Levou um tempo para ela fazer essa jornada esquisita. Eu segui o seu processo ao longo daquela fachada de metal perfurado, sorrindo e apoiando. O que eu não fiz foi tirar uma foto — ainda que o momento pedisse, a escultura praticamente implorava por um selfie conceitual. Enfim, fomos para casa e dissecamos o que tínhamos acabado de ver. Curtimos muito — estimulados, frustrados, incomodados, empolgados– e isso permaneceu, mesmo sem os likes.