Perfil | Josephine Sacabo

Espaço f/508
Jan 15 · 4 min read

*Texto por Carol de Góes, 31/01/2013

O trabalho de Josephine Sacabo mudou substancialmente com o passar do tempo e a experiência. Originária de Laredo, no Texas, Sacabo formou-se em artes cênicas pelo Bard College, em Nova York. Junto a seu marido, o escritor e ilustrador Dalt Wonk, montou uma companhia de teatro e a levou à Inglaterra e França, onde residiu durante 10 anos.

Em 1973, Sacabo e Wonk decidiram voltar a seu país de origem, com o intuito de se envolverem mais com a própria língua e cultura. Resolveram fazer a viagem em um navio cargueiro, documentá-la e “venderem-se como jornalistas ao chegarem”. Escolheram morar em Nova Orleans por a julgarem algo intermediário entre a Europa e os Estados Unidos. Sacabo passou a trabalhar como fotojornalista em revistas e periódicos locais, produzinho street photography. Porém, sentia-se deslocada produzindo uma fotografia mais voltada à linguagem documental.

Em 1985, inspirada pelos poemas “Le Spleen de Paris”, de Baudelaire, saiu a fotografar as ruas, incarnando um dos personagens da obra. Nesta entrevista, declara que, enquanto fazia o ensaio, ficou tocada com as cenas deprimentes que a rua oferecia e pensou: “já é ruim o bastante que essas coisas estejam aí fora, agora eu vou contribuir para isso, promovendo-as em revistas e galerias”. Percebeu que — em suas palavras — “se quisesse fazer algo realmente bonito, teria que fazê-lo por conta própria”.

A partir de então, seu processo criativo passou a vir de dentro para fora, ao invés do fluxo contrário praticado na fotografia documental. Suas influências não mais eram os fotógrafos Cartier-Bresson e Robert Frank, e sim, naquele momento, poetas como Rainer Maria Rilke e Clarence Laughlin. A literatura que absorvia passou a inspirá-la bastante em sua produção.

Sacabo busca conectar-se a suas raízes através da poesia latina, de forma que 50 de suas fotografias ilustram uma reedição de 2002 de “Pedro Páramo”, romance clássico de Juan Rulfo. No mesmo ano, o livro de poemas “Cante Jondo”, de Ana Cristina Rudholm y Balmaceda, com tiragem de 60 exemplares numerados, trazia 10 fotografias impressas manualmente, a obra toda sendo uma homenagem ao México, seus fantasmas e magias.

Josephine Sacabo faz questão de produzir suas próprias impressões e considera esse processo tão importante quanto a captura da imagem em si. Ao longo do tempo, foi experimentando com diversos tipos de plataformas e métodos, até chegar no atual processo de fotogravura em placa de polímero. O método é considerado ideal pela fotógrafa por permitir que o resultado mantenha a atmosfera idílica desejada, sem que a imagem perca a informação dos detalhes.

A importância do efeito obtido através de seu processo de impressão fica aparente quando a artista declara que, para ela, a reação emocional do espectador é mais importante do que o assunto da imagem. Suas fotogravuras nos remetem a sonhos introspectivos, contendo histórias subentendidas de realismo fantástico. Muitas vezes, parecem fazer alusão a fotografias do século IX, comparação não negada por Sacabo. “Não vejo como um retrato pode ficar melhor que os de Julia Margaret Cameron”, diz a fotógrafa, apesar do que ela considera uma fotografia ser “diferente do que a fotografia era no século IX”.

Hoje, Sacabo produz a partir de seu estúdio em Nova Orleans, localizado em um prédio térreo de 1908, originalmente um mercado de frutos do mar. O estúdio foi cuidadosamente decorado com antiguidades e objetos raros, tornado o ambiente inspirador para a fotógrafa, que, no ato da compra do imóvel, lia “ A Poética do Espaço”, de Gaston Bachelard. Segundo ela, “o livro foi basicamente meu manual de decoração. Ele diz que uma casa deve ser um espaço para nutrir devaneios, então eu enchi o lugar de coisas que me fazem ter vontade de fotografar”. Para locações externas, costuma ir ao México ou ao City Park, em Nova Orleans.

Em 2011, foi lançado “Oyeme Con Los Ojos”, uma retrospectiva de seu trabalho. Parte da publicação está disponível em seu site.

Revista f/508

A Revista f/508 é um espaço online dedicado a publicação de conteúdo, entrevistas e outras informações relacionadas à fotografia, arte contemporânea e cultura. O f/508 atua em Brasília e Lisboa, voltado para estudo, difusão e produção fotográfica e artística.

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