Um cinema que não cabe numa estante

A complexidade da história do cinema brasileiro foi tema de uma conversa com a cineasta Josianne Diniz

André Porto
Apr 24 · 7 min read

Para quem nasceu na década de 90, passear entre as estantes de uma locadora de filmes é uma daquelas lembranças infantis que, ao contrário das fitas e DVD's, ainda não caducaram. A euforia de se perder entre tantas opções, escolher o que seria visto e até mesmo de rebobinar a fita são retomadas pelas memórias afetivas, que ofuscam alguns fatores importantes sobre tais templos da cinematografia.

Por que os filmes brasileiros eram resumidos em uma única sessão das locadoras, tal como "romances", "dramas" ou "comédias"? Não há diversidade de gêneros na cinematografia nacional?

É claro, um questionamento desses não cabe na cabeça de uma criança: usei a minha versão de 10 anos de idade para pensar sobre a complexidade da história do cinema brasileiro. A presença da sétima arte no Brasil é um estudo profundo, que propõe descobertas e reflexões.

As respostas que surgiram a partir da conversa com a cineasta Josianne Diniz são sínteses sobre assuntos que, por si só, renderiam um longa-metragem. Brasília como um dos centros da diversificação do audiovisual nacional, Cine Brasília e os cinemas de rua como símbolos da resistência ao comercial hollywoodiano, a Netflix como arco e a produção filmica como a flecha: tópicos diversos que apresentam nitidamente como o desenvolvimento do cinema por aqui é um processo histórico, político e social.

O curso História do Cinema Brasileiro promovido pelo Espaço f/508 de Cultura começa no dia 06 de maio, com a professora Josianne Diniz. Todas as informações estão no link.


Como é viver de cinema na capital do Brasil, em 2019?

Criou-se a crença de que o cinema somente era feito no eixo Rio-São Paulo porque as grandes produtoras estão nesses estados. Mas na verdade, o cinema brasileiro tem uma produção bastante intensa em estados como Pernambuco, Minas Gerais, Bahia. Percebo inclusive que é crescente no novíssimo cinema brasileiro o desejo de valorizar estéticas regionais. Brasília sempre foi uma referência cinematográfica intelectual: aqui foi desenvolvido o primeiro festival de cinema brasileiro do país e foi o local em que muitos teóricos fizeram morada. Quanto à produção fílmica, crescemos muito nos últimos anos, sobretudo com Adirley Queirós que, com uma produção periférica ligada à Ceilândia, levou o DF a festivais de cinema e a plataformas como a Netflix.

Branco Sai, Preto Fica, de Adirley Queirós

Penso que o desejo de viver de cinema é sempre um desafio em países tidos como subdesenvolvidos, ainda mais em estados fora das grandes produtoras, sobretudo quando se quer fazer um cinema não comercial. Vejo os editais de fomento como uma iniciativa bastante positiva que tem ajudado o cinema, não só da capital federal, a se desenvolver. O circuito de festivais também se mostra como uma iniciativa bem positiva. Viver exclusivamente de cinema ainda é bem difícil, sobretudo inicialmente, quando ainda não se é conhecido. Mas percebo também que essa possibilidade antes era impensada ainda mais em contextos periféricos e que hoje já pode ser sonhada. Ainda estamos longe do ideal, mas vejo que temos caminhos possíveis para que no futuro viver de cinema não seja apenas um sonho.

Um dos símbolos do cinema na nossa cidade é o Cine Brasília; atualmente, podemos dizer que somos privilegiados por ainda termos um cinema de rua, visto que a grande maioria das salas estão em shoppings centers. Para você, qual é a importância — seja prática, seja simbólica — do Cine Brasília e de cinemas de rua em geral?

O Cine Brasília é um lugar não apenas simbolicamente importante, mas politicamente essencial para o cinema brasiliense e brasileiro. A colocação do cinema apenas dentro de shoppings centers subordinou a escolha da programação à lógica puramente mercadológica, optando por produções estrangeiras de grande apelo de bilheteria. A manutenção do Cine Brasília e de cinemas de rua permite a exibição de filmes que não chegariam ao público de outra maneira — com mostras de cinema voltadas a países orientais, africanos, latino-americanos, além da venda de ingressos por um valor infinitamente mais acessível, quando não gratuito. Infelizmente, crescemos vendo um único tipo de filme, geralmente os veiculados nas emissoras abertas de televisão. Logo, ficamos pouco acostumados a narrativas não lineares, mais lentas, que são as feitas para além do circuito comercial. Isso faz com que espaços como o Cine Brasília sejam ainda não tão intensamente frequentados quanto poderiam ser. Fortalecer e expandir os cinemas de rua é certamente uma iniciativa necessária para a permanência do cinema para além do interesse comercial, com programações verdadeiramente relevantes e preços acessíveis.

Cine Brasília, por Valter Campanato/Agência Brasil

Na contramão do Cine Brasília na rua, temos a crescente do “cinema dentro de casa” com os filmes On Demand — principalmente com a Netflix. Neste ano, a produção brasileira “Coisa Mais Linda” estreou pela plataforma online e, além dessas, outras produções nacionais estão ampliando o catálogo brasileiro da Netflix.
Qual é a relevância desse movimento para a indústria cinematográfica brasileira? Será que, daqui a alguns anos, o curso “História do Cinema Brasileiro” terá um parte dedicada à explorar este momento?

Como toda novidade, as plataformas de streaming começam sem ser totalmente compreendidas e aproveitadas em todas as suas possibilidades. O cinema digital, por exemplo, duramente criticado no início, serviu em grande medida para democratizar a produção cinematográfica que era ainda mais inacessível quando a produção era na película. As plataformas de streaming podem ter a capacidade de enfraquecer a presença do público no cinema por um lado, mas também podem ter a capacidade de intensificar a produção fílmica, já que essas plataformas demandam ainda mais produções.

Inclusive produções brasileiras, tendo em vista que a nossa legislação exige que uma porcentagem da programação seja de obras brasileiras, o que é bastante positivo. Creio que um movimento bacana seja aquele de tentar entender as potencialidades dessas plataformas para utilizá-las de forma positiva. Não há como retroceder ou extirpar essas plataformas, as mudanças são naturais e bem-vindas. A questão é refletir como podemos ocupar essas plataformas de forma crítica e problematizadora. Apenas daqui há algum tempo teremos dimensão de como essas plataformas afetaram a história do cinema brasileiro e quem sabe teremos um capítulo dedicado exclusivamente a elas.

Basta dar uma olhada rápida na sua biografia para perceber que você atua em muitas áreas: Cinema Brasileiro, Teoria Estética do Cinema, História do Cinema, Fotografia e Linguagem Sonora e Teorias da Comunicação. Para quem é amante do cinema, são muitas áreas e abordagens atraentes e interessantes. Existe alguma dessas áreas que te brilha mais os olhos?

De fato, o cinema apresenta inúmeras possibilidades para aqueles que trabalham com ele, ao mesmo tempo em que é bem difícil limitar o campo de atuação a um único tema. O cinema brasileiro foi o que me motivou a fazer cinema e continua sendo a área mais atraente para mim. A construção de um cinema em qualquer país tem relação direta com os movimentos sociais e políticos que ocorrem nele. Logo, para entender a história do cinema brasileiro é necessário entender os mais variados contextos históricos e sociais de nosso país. Isso nos permite perceber que nada é por acaso ou aleatório, mas consequência de uma série de acontecimentos complexos. O cinema brasileiro enquanto cinema feito em um país colonizado e dito subdesenvolvido apresenta as dicotomias que essa realidade implica. Para mim, conhecer a história do nosso cinema é entender um pouco mais da nossa própria história enquanto país e povo. É pela compreensão dos processos históricos que sofremos que desenvolvemos senso crítico e orgulho de sermos quem somos.

O curso vai explorar um longo período da presença do cinema no Brasil. Voltar no tempo e olhar tanto assim para o passado traz mais um gostinho de “orgulho de ser brasileiro” ou mais um gostinho de “poderíamos ser maiores do que somos”?

Acho que um pouco dos dois. Nós, latino-americanos de forma geral, temos aquilo que é comumente chamado de “síndrome de vira-lata” em que não vemos como belo aquilo que é produzido por nós. Preferimos a estética vinda de países chamados de primeiro mundo, como detentores do bom gosto e das vanguardas. Ao olhar para história do cinema brasileiro percebo orgulho em termos conseguido produzir obras memoráveis, críticas e problematizadoras. Ao mesmo tempo em que o sentimento de que poderíamos ter feito mais também permanece, mas compreendo que nossas limitações têm sentido quando entendemos a nossa história. Essa aparente dicotomia na verdade espelha um pouco da complexidade da história do cinema brasileiro e da complexidade da história brasileira. Logo, não é um sentimento necessariamente ruim, mas desafiador daquilo que ainda podemos construir

Ainda sobre esse olhar cronológico: em que ponto de maturidade cinematográfica estamos atualmente?

É complicado falar em maturidade cinematográfica porque não existe apenas um tipo de filme ou de cinema sendo feito no Brasil. Importante pensar a maturidade cinematográfica não apenas em termos técnicos, mas enquanto possibilidade de contarmos nossas histórias com uma estética que tenha a nossa cara ou as várias caras presentes no país. Não é incomum, entretanto, principalmente nos cinemas brasileiros mais comerciais, a repetição de modelos desenvolvidos fora do país, ainda mais dentro dos paradigmas hollywoodianos. Creio que muitos cineastas brasileiros têm feito um cinema maduro, mas de forma geral ainda estamos nos entendendo enquanto possibilidade estética e narrativa próprias para além dos modelos já existentes. Acho que esse movimento de tentar contar nossas próprias histórias por meio de uma estética que tenha a nossa cara é o que torna um cinema verdadeiramente maduro. Estamos caminhando para isso, mas ainda temos muito a fazer nesse sentido.

Revista f/508

A Revista f/508 é um espaço online dedicado a publicação de conteúdo, entrevistas e outras informações relacionadas à fotografia, arte contemporânea e cultura. O f/508 atua em Brasília e Lisboa, voltado para estudo, difusão e produção fotográfica e artística.

André Porto

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não é impossível, eu não sou difícil de ler https://medium.com/andre-porto

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