Artigo 4º da 3ª Convenção Mística de Viena

— Próximo, por favor.

É uma senhorinha muito, muito, mas muito senhorinha. Anda com dificuldade — apesar de ter recusado a oferta solícita do rapaz atrás dela — e parece enxergar muito pouco. Neli suspira discretamente. Pessoas de idade costumam ser muito detalhistas e o atendimento demora mais do que o normal. A hora da saída está ficando cada vez mais distante.

— Boa tarde.

Ela para, piscando os olhos com calma, até Neli entender que ela só irá continuar depois do cumprimento ser retribuído.

— Boa tarde — responde, bastante desanimada, a funcionária.

— É aqui que registra coisas, né? — a senhorinha baixa a voz, olhando ao redor, desconfiada. Neli está acostumada com isso também. Por causa de todo o esquema de segurança, dificilmente alguém para ali por engano ou tenta ir para lá e se desvia do caminho. Mesmo assim, a maioria das pessoas não fica muito segura no primeiro contato.

— Depende, senhora, que coisas?

Ela sabe que é um pouco decepcionante a pessoa chegar no Místico Escritório de Registro de Direitos Arcanos e encontrar… uma repartição pública como outra qualquer. Um balcão velho de madeira em um prédio antigo daria o toque especial, que deveria ser completado por um mago prestes a se aposentar e dar a impressão de ruínas. Mas teve concurso né, e lá estava Neli.

— Coisas… místicas — a senhora fala num sussurro, tentando parecer misteriosa e melodramática. Neli faz toda a força do mundo para não revirar os olhos. Lembra-se de que precisa se matricular no curso de Especialização em Atendimento ao Público Místico (EAPuM) para ganhar um extra e abre seu melhor sorriso.

— Sim, senhora. Aqui é o Místico Escritório de Registro de Direitos Arcanos.

Neli conta mentalmente os segundos que demoram para a senhora registrar a sigla. A reação pode ser um risinho abafado ou olhos arregalados de afronta. Como a mulher a sua frente coloca a mão na boca para abafar a risada, é do primeiro tipo, portanto, mais fácil de se lidar.

— Ah, é que eu trouxe uma coisinha pra registrar — ela remexe na bolsa, resmungando algo sobre como sempre quis ser alquimista, mas a mãe não deixou. História igual a muitas que ela ouvia e que geralmente terminava com um… — Não é todo mundo que tem a sorte de virar concursado da Secretaria Arcana de Conjurações e Ocultismo.

— Pois é, senhora tem que ter saco para ser da SACO.

Depois de mais uma risadinha abafada e um sorriso forçado, Neli olha discretamente para o relógio. Cinco para as quatro. O rapaz percebe o seu olhar, dá de ombros e vai embora. Neli o conhece, trabalha numa Escola Integral Técnica Arcana (EITA) e vai lá todo mês registrar apostilas encantadas anti-cola.

A senhora continua remexendo na bolsa e Neli já vai pegando a ficha de requerimento de registro, grampeador — sem grampos, prende as folhas apenas com energia mística — e o Envelope de Lacração Automática Semi-Transparente Induzido Com Arte (ELASTICA). Tudo aquilo para registrar um brinquedo mágico para os gatinhos que a senhorinha inventou, ou uma poção para plantas mais viçosas… que no final seriam recusados por não cumprirem alguns dos requisitos do Índice Definido de Instrumentos Ilusionistas e Ocultistas TransArcanos (IDIOTA). O funcionário público designado para inventar aqueles nomes com certeza tinha um trabalho mais divertido que o seu.

— Ah, achei — Neli viu com alívio a senhorinha tirar um vidrinho e três folhas de papel da bolsa. Muitas vezes as pessoas levavam só a receita ou só a poção. Pelo menos, aquela ali está com todo o material. Se tivesse pago a taxa, em cinco minutos ela resolvia e nem ficaria depois da hora. — Você pode preencher a ficha para mim, mocinha?

Nunca. Nunca, mas nunca chame a pessoa da repartição de mocinha. A não ser que ela esteja com tanta pressa que ignore isso, como é o caso de Neli faltando dois minutos para as quatro.

— Claro, vamos lá! Antes de mais nada, temos que identificar a poção…

— Filtro.

— Desculpe? — Neli ergue os olhos do documento.

— Poção é quando mistura mais de quatro elementos. Elixir é quando tem entre três ou quatro, e filtro é quando se usa no máximo dois ingredientes…

Neli odeia alquimia. Sempre odiou. Quase discute com a senhorinha que a teoria que separava em três tipos está ultrapassada e para a burocracia estatal é tudo poção, mas ela que reclamasse ao receber a certidão dizendo o que era aquilo.

— Claro — dá o sorriso mais forçado que consegue. — Qual o nome do filtro?

— Filtro do Garanhão Tesudo.

Neli engasga.

— Como?

A senhorinha dá o sorriso mais santificado que Neli já viu.

— É um filtro de potência sexual masculina. É um espetáculo, só não sei se levanta defunto porque não mexo com necromancia.

Todas as aulas da especialização passam pela mente de Neli como um filme — ruim, claro. Naquele momento, segundo o manual de atendimento, ela deve interromper a senhora, explicar que, segundo o artigo 4º da 3ª Convenção Mística de Viena, magos e alquimistas são proibidos de criar qualquer poção (ou filtro, elixir, o diabo…) que interfira na libido e nas emoções humanas.

Só isso levaria quinze minutos. Imagina quanto tempo demoraria para a senhorinha se explicar. Neli respira fundo e toma uma decisão. Vai aceitar, e depois dizer para o pessoal do Setor de Análise e Prospecção Ocultista (SAPO) que a senhora insistiu demais — normas de atendimento: o requerente tem direito de dar entrada em qualquer coisa, cabe ao SAPO engolir ou não.

Mas para isso, precisa ser rápida ou alguém pode perceber. Na maior ligeireza possível, pega os documentos da senhora, anota os dados, verifica o pagamento, termina de preencher a ficha e dá para ela assinar.

Claro que a senhorinha gentil confere item por item antes de se dar por satisfeita. Quando finalmente se retira, entrando no elevador com a aparência mais pura possível, Neli se prepara para soltar um suspiro de alívio, interrompido pela pior voz possível.

— Bonito, hein, Neli?

— Ai, Big G, que susto! — o chefe tem tanta moral entre os funcionários que eles já nem escondem o apelido, dado porque há um outro Geraldo no setor, ligeiramente mais baixo e mais magro. Ou melhor, muito mais magro e mais baixo. — A velhinha insistiu e…

— Insistiu porra nenhuma que eu tava bem ali vendo.

Neli, pega na mentira, fecha os olhos. Agora ferrou tudo.

— Quer saber? Vai embora e deixa isso aí que amanhã a gente re…

Ela nem espera ele terminar, para não dar chance de mudar de ideia. Pega a bolsa, acena um tchau e some pelas escadas mesmo.

***

— O que você tá procurando, Neli?

Bia está tomando café e comendo três bolachas água e sal que deixa guardados na pequena copa dos funcionários do Escritório. Neli chegou mais cedo e pôs o café para coar — afinal, sempre que Bia faz isso, o resultado é desastroso.

— Tá de dieta de novo, Bia? — Neli levanta o olhar de dentro do armário onde ficam os requerimentos do dia anterior. Quando o pessoal do SAPO chega, pegam tudo e levam para o laboratório de testes. A colega só revira os olhos castanhos.

— Nunca saio da dieta, só fujo. Mas você não me respondeu?

— Pô, ontem no fim do dia atendi uma velhinha que quebrava o 4º, um filtro do garanhão pirocudo ou coisa assim…

— Uma velhinha? — as “indecências”, como eles carinhosamente apelidavam, vinham, normalmente, de moças e moços mais jovens e fogosos.

— Siiiiim, daquelas com cara de avó, super fofa… Mas aí deixei separado aqui pra explicar pra Michelle quando ela viesse buscar o de ontem e não tô encontrando…

Um assovio alto e alegre a interrompe. Big G sai do elevador, sorrindo, acena para elas e prossegue na direção da área restrita do MERDA.

— Neli…

— Não diz nada, por favor. Aliás, diz sim, diz que ainda tem aquelas balinhas-limpa-memória.