Cenas de um cartório

Por Anna Fagundes Martino

E aquilo que nesse momento se revelará aos povos

Surpreenderá a todos, não por ser exótico

Mas pelo fato de poder ter sempre estado oculto

Quando terá sido o óbvio

— “Um Índio”, Caetano Veloso

Sala 102. Vista para o edifício Martinelli e um pouco do centro velho, os prédios mal cuidados sob a luz amarelada do fim do outono; os homens da Banca de Mercadoria e Futuros, com seus coletes amarelos, estão fumando do lado de fora na hora da folga. Alguns fogos de artifício aqui e ali: é o dia do terceiro jogo do Brasil na Copa do Mundo na Itália, e o assunto parece dominar as conversas mesmo dentro daquele prédio tão lúgubre, cheirando a desinfetante barato, tinta de carimbo, toner de fotocopiadora e pano de chão sujo. É sexta-feira, as pessoas estão com pressa para que o dia termine, mas um cartório tem ritmo próprio, independente do movimento do lado de fora.

— Nome?

— Marcelo da Silva.

— Espécie?

Marcelo demora um instante para processar a pergunta. A noiva dá uma ligeira cutucada em suas costelas e ele se lembra o que precisa responder.

— Humana, senhora.

— Estado civil?

— Solteiro.

— Filhos com humanas?

— Não tenho.

— Filhos com outras criaturas?

— Pra que eles precisam saber isso, Marinalva? — o rapaz volta-se para sua noiva, sentada a seu lado na frente do guichê.

— Tchelo… — a noiva suspira, o rosto contorcido de constrangimento. A funcionária pública do outro lado do balcão de fórmica suspira, esperando a resposta.

— Não, senhora, nada disso também — e de novo para a noiva — Mas para que eles precisam saber disso?

— A gente precisa ter tudo registrado, senhor. — A funcionária tem uma voz masculina em um corpo de mulher. Marcelo não acha estranho. Sua capacidade de se surpreender já se gastou há três anos, quando a noiva explicou para ele sua condição. — Não podemos correr o risco de endogamia, o senhor entende? Além do mais, algumas espécies não podem se relacionar com outras.

Marcelo assente, quieto. A funcionária faz mais algumas perguntas e passa um número de senha. O casal se acomoda em uma sala de espera espremida em um canto, cadeiras de plástico moldado cor de mostarda e uma mesa de centro com folhetos variados: exames de AIDS gratuitos, aconselhamento para famílias de alcoólatras, serviço de adoção de animais recolhidos da rua. Tudo adaptado ao público local, o que sempre surpreendia Marcelo.

— Não sabia que fadas também podiam pegar AIDS — comenta com a noiva.

— Tecnicamente, não podem. As desgraçadas não pegam nem gripe. Mas gente tipo eu, com sangue humano no meio… E, bem, algumas outras espécies indígenas também são meio suscetíveis. Pelo menos foi o que eu vi lá na enfermaria. É um troço complicado. Como você explica para lobisomens sobre profilaxia?

— Talvez não chamando camisinha de profilaxia? Fica mais fácil de entender, né? Enfim, eu entendo… E como assim, alcoolismo? Quer dizer… Não consigo imaginar fadas bebendo.

— Você ainda tem a imagem da Sininho na cabeça, daí complica mesmo — Marinalva sorri um pouco. — Infelizmente, muito comum em alguns grupos. Viver nesse plano aqui é… Quero dizer, nem todo mundo vem para cá porque quer, ou mora aqui na cidade porque quer, e… E aí… — gesticulou, fazendo suas pulseiras punho tilintarem. Não conseguindo achar a palavra certa, suspirou. — Eu disse que era complicado, Tchelo. Eu sinto muito mesmo.

— Nem por isso, bela. Se precisa disso pra casar contigo, vamos lá. Mas… Assim… Só prasaber… Esse tal exame vai doer?

— Não. É coisa rápida. É só para comprovarem que você não foi enfeitiçado. Aí eles dão a autorização e a gente pode ir no cartório fazer as proclamas do casamento.

— Jesus Cristo — Marcelo quase riu. — Eu devia ter ouvido da primeira vez e só ido morar junto.

— A gente não ia escapar da burocracia, cara. Acredite em mim. Quando viessem as crianças…

E ela apontou o andar de cima.

Sala 205. Seis meninas vestidas em seis tons diferentes de rosa, com idades entre onze e quatro anos estão brincando em um canto, armadas com bonecas da Moranguinho e uma casinha portátil feita de madeira. Ninguém repara que os móveis da casinha se mexem sozinhos ou que as bonecas andam sem pilhas ou corda. Os pais das meninas estão diante de um funcionário público, um recém-nascido em mantas rosas no colo da mãe.

— E qual vai ser o nome?

— Moisés Luís Caldeira Neto, senhor — já se antecipando, o homem continuou — A gente achou que era outra menina, nem pensou em comprar enxoval novo.

— Tudo bem. Os humanos são meio bobos com essa obsessão com cores, se quer minha opinião — o funcionário público estendeu os três pares de mãos sobre a máquina de escrever. — Moisés Luís… Com “S” ou com “Z”?

— Com “S”.

— Moisés Luís… Com “S”… Caldeira Neto. Certo. Vou ler o resto das informações para vocês confirmarem tudo. Filho de Moisés Luís Caldeira Filho, natural de Campina Grande, Paraíba, profissão motorista de ônibus, espécie féerica mista, e de Luiziana Domitila da Silva, natural de Teresina, Piauí, profissão costureira, espécie feérica mista também.

— Tá tudo certo. — Luiziana sorriu.

— O menino já foi examinado?

— Já, sim, senhor — Moisés Filho apresentou o documento impresso em papel sulfite amarelo para o funcionário. — Calhou de não vir com poderes, o menino. O médico disse que é comum.

— A gente ama igual — Luiziana olhou para o recém-nascido em seus braços, cabelo crespo e castanho como o do pai. Até que ia ser um alívio, ela pensou, um filho que pudesse ir na escola normalmente, sem precisar ficar disfarçando os dedos ou os cabelos, sem a mãe se preocupar em receber aviso da diretora dizendo que o menino fez alguma coleguinha ficar azul-marinho, colado no teto ou coisa pior. Um menino que não precisasse ser examinado todos os anos pelo governo e que não demandasse documentação especial. Um brasileiro como quase todos os outros do lado de fora, em resumo.

O funcionário entrega duas cópias da certidão de nascimento para os pais. Uma é a cópia dita “comum”, igual a dos humanos, para ser usada nas interações do dia a dia. A outra cópia, em um tom vívido de amarelo, é para ser apresentada às autoridades de controle de seres mágicos quando fosse necessário. Os pais do pequeno Moisés agradecem, as meninas se levantam e recolhem os brinquedos e a família se junta para partir. Outros casais estão na fila para o registro de crianças — 1990 estava se provando um ano de fertilidade alta. Devia ser a nova leva de criaturas mágicas que chegou em São Paulo com o fim dos vistos obrigatórios: aumentava o número de restaurantes misteriosos no centro da cidade e de bebês com certidões amareladas na gaveta.

Sala 303. Uma mulher de pele azulada falando em árabe com um grupo atrás dela — parece árabe, pelo menos; o funcionário está no plantão faz quase dezoito horas, não consegue prestar atenção em detalhes. Quando ela termina de falar, evolta-se para o guichê e retoma a aparência humana.

— Moço, desculpa — a criatura começa a falar bem devagar, tropeçando nos fonemas — Não tem mesmo como a gente remover o corpo dele, então?

— Infelizmente, é contra a lei.

— Mas a gente precisa cremar.

— Eu já expliquei que o Ministério vai se encarregar disso.

— É, daqui a um mês, se a gente tiver alguma sorte. E se não entregarem pra gente um saco com pó de cimento no lugar das cinzas!

— Senhora, por favor…

— Nem se a gente pagar? Moço, dinheiro não é problema. Pode falar.

O funcionário tira os óculos. Olhos fundos como poços, sem pupilas, sem esclerótica, encaram a mulher de traços árabes. Ele respira fundo antes de falar, sabendo que era vigiado por câmeras e fantasmas.

— Seu amigo morreu com uma doença infecto-contagiosa feérica que é extremamente perigosa para a população como um todo. Ele não pode ser nem enterrado, nem cremado normalmente. Tudo o que eu posso fazer é provudenciar o atestado de óbito. Mais do que isso, desculpa, não dá. Ficou claro para a senhora?

— Maldita hora que imigrei pra esse país de merda — ela retruca em voz baixa, mais para si mesma do que para o funcionário. Mas não tinha sido escolha dela vir: seu território tinha sido anexado por um clã inimigo e o Brasil era o único local que oferecia asilo político sem condições preexistentes. Ainda assim, que buraco.

Enquanto ela dobra o atestado de óbito e guarda o papel amarelo dentro do alforje, pensa naqueles seres ridículos do lado de fora, com suas bandeiras coloridas e ansiedade por um jogo de futebol, um presidente de penteado estranho e sua esposa de dentes tortos. Será que é difícil para eles, também? Enterrar seus mortos, chorar em paz? Ela nunca tinha visto como eles se livram dos corpos de quem expira, mas certamente não é com aquele desprezo nos olhos sem luz de um funcionário público.

Sala 102. Marcelo volta para o cômodo ainda abotoando a camisa. A diferença de temperatura entre uma sala e outra agora é bem notória: a sala de exames tem ar-condicionado bem forte e moderno, enquanto a sala de espera se vira com um Ventisilva, as hélices grossas de poeira da rua.

— Aparentemente, não fui enfeitiçado nem nada. Nem doeu. Já vão liberar a papelada.

— Ainda bem — Marivalda sorri, aliviada. — E vai dar tempo de chegar em casa para você ver o jogo.

Marcelo termina de se arrumar. O exame em si tinha sido bem rápido; o que tomou mais o tempo foi a conversa que ele teve com o médico. Nunca tinha conversado com um indígena na vida — bem, ele era nascido e criado na Mooca, era mais fácil ver italianos do que índios brasileiros por lá. O médico tinha sido paciente em ouvir as dúvidas de Marcelo — não só sobre o casamento em si, mas todo o resto: filhos que herdariam traços de magia, que teriam suas vidas presas, de certa forma, àquele prédio e àquela burocracia.

Não era diferente de ser humano, o médico de pele trigueira disse. Marcelo não tinha que viver com RGs e CPFs e certidões de alistamento e passaportes? Por que ele achou que com magia seria diferente? Era só uma característica como ter cabelo loiro ou preto, como ser canhoto ou destro. Precisava ser controlada e classificada, do contrário reinaria a anomia, assim como era como os humanos.

O problema, o médico concluiu enquanto assinava a autorização para o matrimônio, era conviver com isso em um mundo que reduzia todos eles — todas as multitudes que eles eram — a uma identidade única e imaginada, uma pintura em um livro infantil.

— É como vocês vêem todo mundo de olho puxado e acha que é japonês — o médico comentou. — Ou que todos os índios são iguais.

— Vocês vêem os humanos assim? — Marcelo perguntou.

— Pior que vemos — o médico sorriu. — Pior que vemos, mesmo. Todos vocês, andando pela rua, sem notar as coisas ao seu redor, tão bobinhos. Achando que os sacis estão no mato e não na esquina da sua casa. Depois que você vê as coisas como elas são… Você tem certeza de quer continuar? — ergueu o documento amarelado. — Eu posso dizer que você não está apto. A moça entenderia, eventualmente.

— Eu gosto dela. E, na boa, não dá pra desver isso aqui, né? É tipo tentar colocar pasta de dente de volta no tubo… Por que o documento é amarelo? Tem algum significado?

— Provavelmente era o papel mais barato que tinha disponível — omédico deu de ombros. — Aqui ainda é uma repartição, afinal.

Marcelo sai de mãos dadas com a noiva, já pensando em planos para o futuro. O edifício Martinelli faz sombra nos prédios próximos: pessoas, carros, bandeiras coloridas, tudo agora parece diferente, dotado de uma vida estranha, visto por um ângulo apenas alguns graus mais inclinado, mas o suficiente para alterar tudo.

Anna Fagundes Martino nasceu em São Paulo em 1981. Mestre em Relações Internacionais pela University of East Anglia (Inglaterra), teve trabalhos interpretados na Radio BBC World e publicados em revistas como a britânica “Litro” e a brasileira “Trasgo”. No Brasil, publicou “A Casa de Vidro” e “Um Berço de Heras”, ambos pela editora Dame Blanche, da qual é co-fundadora. Nas horas vagas, ela tricota pulôveres e mantas, e escreve semanalmente na newsletter Anna Dixit (tinyletter.com/annadixit).