“Espelho, espelho meu, existe alguém mais distante de mim, do que eu?”

Ninguém gosta muito de olhar para si ou olhar para dentro. Muitas vezes ignoramos nossos sentimentos, medos, angústias e comportamentos, pois, ficamos constantemente conectados com o externo.

Ou seja, estamos sempre olhando para fora de nós, olhando para os outros, para as obrigações, problemas, entretenimento e não paramos para observar e cuidar do que sentimos.

Hoje, fala-se muito sobre a psicossomatização, ou seja, quando as emoções se transformam em sintomas físicos e doenças. A medicina tradicional já reconhece que fatores emocionais influenciam, de alguma forma, o corpo físico, principalmente quando falamos de doenças autoimunes. Mas há outros exemplos básicos como, a gastrite estar associada ao stress, enfim, existem muitos exemplos.

O fato é que não olhar para os nossos sentimentos e emoções, pode trazer uma série de transtornos à nossa vida, podendo chegar ao momento que transborda, como um transtorno de ansiedade que pode gerar uma síndrome do pânico ou mesmo este transbordamento gerar a depressão. O corpo encontra maneiras de nos fazer parar, pois, ele é basicamente um espelho das nossas emoções. Quando estas são ignoradas, o corpo dá alertas, sinais, ou seja, sintomas.

Nossas emoções alteram o organismo quimicamente, em pequena ou grande proporção, fazendo com que haja desequilíbrio. A gente entra em desarmonia com a vida. Tudo isso por quê? Porque nossas emoções estão atreladas a pensamentos, e pensamentos estão identificados com o ego, vêm do ego. Ou seja, quando lembramos de um acontecimento ou alguém que nos desperta raiva, está associado a algum pensamento do qual nos identificamos, e como o ego tem uma tendência a nos proteger, ele associa esse pensamento ao nosso conceito de certo e errado. Se temos raiva, sem dúvida o errado é o outro. Dificilmente conseguimos nos enxergar na situação e nos questionarmos se estamos errados em algum ponto, e dificilmente conseguimos ter empatia para compreender a ação do outro ou o que levou o outro a agir de tal forma que nos desagrada. Geralmente o que nos desagrada e nos ofende, está espelhado com o que sentimos, mas reprimimos por uma questão ética. Ou seja, tudo que sentimos ou pensamos de ruim e jogamos para debaixo do tapete, a gente automaticamente projeta.

Em outras palavras, apontar no outro, algo de nós mesmos, não nos permitimos ser, e então apontamos no outro.

Por exemplo, quando você olha para alguém e acha essa pessoa egoísta, você pode não se comportar de maneira egoísta, porque acha ético não ser, por isso fica fácil apontar no outro algo que você optou por não externalizar, mas essa algo também existe em você, só que o outro expõe e você reprime. Aí você fica com raiva, porque a pessoa está sendo, o que você não se permite ser.

Por isso as filosofias orientais são tão interessantes, geralmente estão associadas a transcendência do ego, que significa libertar-se dele, ou simplesmente, entender que nós não somos ele. O ego é uma construção social que fizeram de nós na infância e que vamos alimentando na fase adulta, mas não é o que essencialmente somos. Existe um alguém interno que observa. O Eckhart Tolle, escreveu um livro chamado “o poder do agora”, e nele ele conta a trajetória antes do seu “insight de iluminação” vamos dizer assim. Ele se fez uma pergunta sábia: “Se eu não me suporto, eu sou dois, pois, existe alguém dentro de mim, que não me suporta”, a essência que não suporta o ego. É esse alguém que observa, que é interessante de se conectar. Quando nos conectamos com a nossa essência, paramos de nos identificar tanto com o que pensamos, que vem de um conjuntão de história, criação e cultura, que faz com que desenvolvamos uma linha de pensar e de julgar, de acordo com nosso conjunto ético. E esse conjuntão é diferente do conjuntão individual de cada um. Por isso tantos conflitos de egos humanos e seus conceitos de certo ou errado, tentando catequizar o próximo a concordar com a sua linha de pensamento, ou o seu conjunto ético.

Uma disputa de quem está certo ou errado é sempre ridícula, porque, não existe certo e errado geral, existe o individual, e que também é ilusório. Se existe algum caminho mais certeiro, é o de se conectar ao coração, estar atento a intuição e agir de acordo com ela. Conectar-se àquilo que faz os olhos brilharem, com o que traz alegria e voltar-se para isso. Libertando os outros do seu controle e do seu conjunto de ética. Como dizem por aí “gente feliz, não enche o saco” e arrisco dizer que gente feliz não fica doente, gente feliz não se magoa fácil, gente feliz não faz mal a ninguém, talvez só para quem a olha e a inveja, e aí não é ela o malfeitor, mas é o mal que se instaura para quem se permite. Precisamos nos responsabilizar pelo que sentimos e pensamos, pois, é somente isso que cria a realidade em que vivemos. Se a nossa vida é um inferno, é porque a vemos assim, permitimo-nos sentir assim, e projetamos o inferno para os outros, somando-nos a outros infernos. Quem sente dor, vomita a dor por onde passa, e é visto como malfeitor, mas tudo não passa de um grande complexo de espelhos. Dos que externalizam e dos que reprimem.

Portanto, estejamos conscientes de nossas dores e voltados para a cura delas. A felicidade é plena quando nos libertamos e libertamos os outros. Para isso é preciso de um pouco de coragem em admitir em nós mesmos, aquilo que nos causa repulsa.

Coragem para olhar para as nossas sombras, enfrentar nossos monstros e ser consciente de tudo isso. Quando a gente olha para o lado negro de si, coloca luz em cima, a consciência disso opera milagres. A admissão e o reconhecimento faz tudo mudar, porque constantemente agimos cegos pelas nossas certezas, brigando com o mundo para provar que estamos certos.

É o ego que não permite injúria, ofensa, agressão, abandono, traição, pois, se permitirmos, como fica a nossa moral? Mas, a quem importa a nossa moral, senão a nós mesmos?

O que importa a opinião, as ações e os julgamentos dos outros, se internamente sabemos quem somos?

Quando se é consciente do que se é, o que vem de fora não atinge. Deveríamos estar rodeados daqueles que nos enxergam, e não brigando com quem pensa diferente. Podíamos aplaudir quem pensa diferente, afinal, a graça da vida está no diferente e não no igual, só por isso a soma é possível. E, de uma vez por todas, pare de se comparar ao outro. O ser humano é incomparável porque é ímpar, único. Você é você, o outro é o outro. Se quer ser compreendido, compreenda-se e compreenda o outro, se quer ser aceito, aceite-se e aceite o outro, se quer ser feliz, deixe o outro ser feliz à maneira dele, volte-se para você. Quem é você?

Reflita sobre quem você é além dos seus títulos, feitos e conquistas. Olhe para as suas ações, palavras, sentimentos e pensamentos a todo instante. Por acaso é 100% do tempo o exemplo da sua projeção de perfeição? Acho que não. O universo é um grande espelho. Se você não é perfeito, permita que o outro também não seja. A beleza também mora na imperfeição. Se não gosta do que está recebendo, perceba o que anda emitindo. Se você fala mal, você fala de você. Se você julga, põe-se em julgamento. Se você deseja o mal, esse mal acontece dentro de você. É natural do ser humano ter sentimentos ruins, e não precisa reprimir. Deixe que venha, sinta, reconheça, observe, e deixe ir.

Se o seu ego se identificar e se apegar a esses sentimentos, sua realidade será na mesma proporção da emoção ruim. Ou boa, enfim, a decisão é sua. Olhe para si mesmo! Liberte-se e liberte o outro!

https://inspire4what.wordpress.com/2017/05/03/espelho-espelho-meu-existe-alguem-mais-distante-de-mim-do-que-eu/