Jota Trabalhador, um conto das mudanças

Desde que mudei a escrivaninha de lugar nunca mais encontrei as chaves que ficavam na gaveta. Elas não estão mais no mesmo lugar, o lugar delas era na primeira gaveta da escrivaninha que fica encostada na janela do apartamento que dá para a rua, em cima do bar do seu José que é o dono do prédio. Por causa das obras de desfazimento da ciclovia seu José fechou temporariamente o bar, ele disse que queria evitar a poeira, eu não acreditei, mas naquela mesma noite meu cachimbo cheio de restos de cimento avermelhado provou que seu José estava certo e eu errado. Dai mudei a escrivaninha para a outra parede, ao lado da porta do banheiro, e as chaves desapareceram.

Preciso sair de casa, seu José me avisou todo animado que o novo prefeito visitaria o prédio hoje. Desde a campanha ele fala neste homem com muita animação, garante que o prefeito é como ele, um Jota Trabalhador, e que com ele a cidade vai andar mais rápido. Eu não sei e por não saber prefiro não dar de cara com Jota nenhum hoje. A bicicleta está na porta, a mochila pendurada no guidon, a carteira e o celular nos bolsos, mas onde estão as malditas chaves? Às favas, o jeito é deixar a porta aberta, não tenho nada para ser roubado mesmo.

Eu sai quase sem destino, montei na bicicleta e desci a rua para onde as máquinas ainda não tinham desfeito a ciclovia. Gastei alguns trocados para entrar no parque e foi um dia todo olhando os meninos serem revistados na portaria, divertido tentar adivinhar quais seriam parados e quais não, em quinze minutos já não errava um. Boné e bermuda de nylon: batata, abrem até a mochila. Já vão fechar o parque e daqui a pouco escurece, a noite fica muito perigoso pedalar nas ruas com os carros nessa velocidade, então melhor ir logo para casa.

Seu José está sentado na porta do bar com a camisa cheia de praguinhas da campanha do prefeito. Não parece muito contente.

– Boa noite, seu José.

– Boa só se for pra você, ciclista maldito! Você só me da azar!

– Ora, mas o que é que aconteceu, o prefeito não veio?

– Veio! Veio, sim! Mas você me deu azar!

– Diga logo o que aconteceu!

– Você quer saber? O prefeito mandou fechar meu bar!

– Mas como, se o bar estava fechado?

– Eu abri o bar para receber ele, botei até o whyski de verdade no balcão. Ele chegou, todo armado com os fiscal dele, eles já foram passando a mão no balcão, viram aquela poeira toda e me caçaram o alvará!

Eu não soube muito bem o que falar, resmunguei qualquer palavra de conforto e me dirigi para a escada, mas seu José me interrompeu.

– Ó menino, alguém achou suas chaves e me entregou. Pega aqui e já vá se preparando, agora que o bar fechou o aluguel vai ter que subir!