Tire os olhos da bola #1 — Fake screen + TD

Cassia Pires
Sep 24, 2019 · 5 min read

DeAndre Hopkins recebendo um passe por entre as pernas próximo à side line. OBJ saltando e fazendo o catch com uma mão só… Com certeza você se lembra de momentos como esses quando pensa em jogadas lindas na NFL. E elas, de fato, são maravilhosas.

Talvez você já tenha ouvido falar que futebol americano é um jogo de estratégia, uma batalha entre side lines e, bem isso também é verdade. E para entender como isso acontece, você precisa tirar os olhos da bola.

A partir desta semana, nós vamos analisar uma jogada por rodada. Explicando situações pré e pós-snaps que deixam a jogada bonita (ou não), sem necessariamente contar com um duplo twist carpado na recepção.

Jogada da semana — Indianapolis Colts vs Atlanta Falcons

Primeiro, veja no vídeo abaixo que nós somos condicionados pela TV a acompanhar a bola. E isso é normal. É mesmo onde a emoção acontece e não é lá todo mundo que quer saber sobre a tática e técnica do negócio.

O ataque

Mas, se você é do time quer enxergar além da bola, a primeira coisa que precisa entender é o momento de jogo que o time se encontra: informações como tempo de partida, posição de campo e descida ajudam a defesa a se preparar para a jogada. Neste caso, uma 1ª descida para 10 jardas, na linha de 18 jardas do campo da defesa, faltando 1:30 para o final do 1º quarto.

O próximo fator a ser analisado é o personnel do ataque. Isso é determinado pela quantidade de running backs e tight ends em campo. Nessa jogada, o personnel dos Colts é 20. Isso quer dizer que tem dois RBs e nenhum TE na jogada. Agora vem a matemática simples: 11 jogadores do ataque = 1 QB, 5 OLs, 2 RBs, 0 TEs, me sobram 3 WRs. O QB até pode soltar uma corrida, mas o jogo aéreo merece atenção.

Nesse momento, a defesa observa a formação ofensiva, porque algumas formações favorecem mais o passe, outras mais a corrida. Os Colts armam uma shotgun splitback. Quer dizer que os dois RBs se alinharam ao lado do quarterback. A shotgun favorece mais o passe, porque o QB tem mais espaço para leitura da jogada e os RBs, por estarem ao seu lado, não conseguem tanta velocidade para sair correndo com a bola.

A defesa

A análise da situação de jogo faz a defesa trabalhar com É MAIS PROVÁVEL QUE, não com É ÓBVIO QUE o ataque vai jogar assim. Se fosse simples dessa forma, todo ataque seria parado.

Pois muito bem, como se posiciona a defesa dos Falcons? Eles jogam em cover 1 — apenas um safety (seta azul) cobrindo o fundo do campo. E eu não faria diferente: afinal, é uma primeira descida, já próximos da endzone. Não há a necessidade de um passe longo. O jogador indicado pela seta roxa é um robber. A função dele é ficar de spy no QB, que pode representar uma ameaça correndo, mas se o QB não corre a função dele é marcar uma possível rota cross.

Além disso, a defesa joga em marcação individual. Percebe-se pelo alinhamento e outra forma de visualizar isso é que quando acontece o motion, o nº 45 acompanha o jogador que se movimentou. A regra é clara: na marcação individual, o defensor deve grudar no seu “pretendente” e segui-lo eternamente. Assim sendo, é bem fácil identificar quem estragou tudo: apresento-lhes o nickel corner, que está circulado na imagem abaixo. A marcação de sua responsabilidade, era do jogador imediatamente à sua frente.

Cobertura

Pré-snap

Antes do snap, acontece o motion do RB, Nyheim Hines, à esquerda de Jacoby Brissett, em direção à lateral oposta. Com isso, há um ajuste e o LB da esquerda (nº 45) fica responsável pela cobertura desse jogador e os outros dois se alternam na cobertura do RB da direita e na função de robber. O nickel corner continua na sua função de marcar o slot receiver à sua frente.

Pré-snap

Pós-snap

Com o snap, vem o pulo do gato e a beleza disso tudo. Acontece um play-action, o RB que estava à direita de Brissett passa na frente do QB e finge que pegou a bola. Os dois LBs (circulados na imagem abaixo) congelam e eles não estão errados, afinal, ele pode ou não estar com a bola. Na sequência, Brissett faz um fake screen para aquele running back que fez o motion (seta vermelha). E a jogada é tão, mas tão bem executada, que o slot Zach Pascal (seta preta) age como se fosse bloquear o defensor, movimento natural de um passe screen.

fake screen

O nickel corner, que eu apresentei lá em cima, acredita no tal do passe screen e esquece sua responsabilidade. Ele fixa em Nyheim Hines, que na verdade é responsabilidade do LB (risco preto).

Hines e seus dois marcadores

Pascal, o slot receiver que fingiu o bloqueio e era responsabilidade do nickel corner confuso, nem encostou no defensor e seguiu bem pleno em sua rota wheel. Jacoby Brissett o encontrou livre para marcar o TD.

Mas era uma cover 1, certo? Havia um safety no fundo do campo. Ele não podia ter ajudado com o slot? Na verdade, o safety agiu conforme o esperado. Ele deu suporte ao outro cornerback que defendeu uma rota post. Se ele tivesse percebido tudo e defendido a rota wheel do Pascal, a rota post ficaria livre, porque o WR ganhou o lado de dentro da bola. Provavelmente o resultado seria o mesmo e o TD seria marcado.

posição do safety

Pronto. Agora que tudo isso foi explicado, observe tudo em movimento. Mas não se esqueça de tirar os olhos da bola.

É poesia!

Por hoje é só

Percebe como tanta coisa precisa de atenção em uma jogada de 10 segundos? É normal sentir-se confuso. Vamos aprender juntos. Para fazer essa análise tivemos a ajuda do Deivis Chiodini, analista do On The Clock, podcaster do Mile High e redator do Pro Football Br.

Sobrou alguma dúvida? Fale com a gente pelas redes sociais. Até a próxima rodada!

*Tire os Olhos da Bola* é o título de um livro escrito pelo ex-técnico de futebol americano Pat Kirwan. O autor explica, de maneira bem completa, que para entender o esporte é preciso tirar os olhos da bola. O nome dessa coluna se inspira no livro.

Cassia Pires

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Esportismo

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